Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Karla Bessa (Unicamp)

Minicurrículo

    Pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e Professora do Programa de Pós-graduação em Multimeios/IA na Universidade Estadual de Campinas. Doutora em História Social (Unicamp) e Pó-doutora em Estudos de Cinema pelo King´s College London

Ficha do Trabalho

Título

    Maracujá de Gaveta : a personagem Macabéa e os Feminismos Contemporâneos

Resumo

    Em A Hora da Estrela (1985), de Susana Amaral, a protagonista sintetiza corporalmente as inúmeras violências que sofreu antes e durante sua estadia no “sudeste maravilha”. Macabéa encarna a antítese do erótico feminino, da mulher passível de despertar desejos, ternuras ou afetos. Nas palavras do narrador, Macabéa é um maracujá de gaveta. Nesta apresentação, proponho um diálogo com categorias dos estudos fílmicos feministas da década de 70, atualizando o debate para as questões teóricas atuais.

Resumo expandido

    Em A Hora da Estrela (1985) , adaptação cinematográfica do romance homônimo de Clarice Lispector, a protagonista Macabéa sintetiza corporalmente múltiplas formas de violência cotidiana que antecedem e atravessam sua chegada ao chamado “sudeste maravilha”. Nordestina, pobre, semi-escolarizada, migrante e portadora de uma corporalidade dissidente em relação aos códigos hegemônicos da feminilidade urbana, Macabéa encarna uma figura profundamente desconcertante para os regimes normativos do desejo. Nas palavras do narrador literário, trata-se de um “maracujá de gaveta”: uma mulher sem atributos socialmente reconhecidos, sem capital erótico, sem proteção material e sem repertório para decodificar plenamente as violências simbólicas que a cercam.
    A força da personagem ( de Clarice/Suzana) reside justamente em sua inadequação. Macabéa desorganiza os modelos de feminilidade desejável consolidados pelo cinema, pela publicidade e pelas narrativas heteronormativas modernas. Seu corpo magro, mal nutrido, sua gestualidade hesitante, seus silêncios e sua dificuldade de performar os códigos da sedução torna visível aquilo que grande parte da tradição cinematográfica preferiu apagar: mulheres cuja existência escapa aos enquadramentos do desejo masculino e também às promessas liberais de autonomia feminina.
    Dialogo, nesse sentido, com Barbara Quart (1989) e sua reflexão sobre um cinema de mulheres comprometido com experiências femininas dissidentes, bem como com Gayatri Chakravorty Spivak (2012), particularmente sua defesa de uma educação estética capaz de interromper os automatismos do reconhecimento no capitalismo global. Macabéa exige justamente esse tipo de desaprendizagem do olhar porque perturba os repertórios habituais de identificação e prazer narrativo , bem como aquilo que se consolidou como erótico e erotizável.
    Nesse sentido, o filme de Suzana Amaral antecipa discussões contemporâneas sobre precariedade e reconhecimento desenvolvidas por Judith Butler (2020), especialmente quando determinados corpos são considerados menos dignos de luto, desejo ou futuro. Também dialoga com reflexões de Sueli Carneiro (2023) quando a autora discute a fabricação histórica do “não-ser” como fundamento das desigualdades nacionais; e Lélia Gonzalez (2020) ao evidenciar como raça, território, classe e gênero produzem hierarquias afetivas profundamente desiguais. O contraste entre as personagens Macabéa e Glória explicita essa pedagogia cruel da desejabilidade: enquanto Glória domina os códigos urbanos da sedução e se aproxima de um ideal corporal mais legitimado pela branquitude e pela modernidade sudestina, Macabéa carrega em seu corpo os sinais de um Brasil historicamente marginalizado.
    O uso recorrente dos espelhos no filme torna-se central nessa análise. Macabéa busca incessantemente sua imagem, mas encontra reflexos opacos, superfícies precárias e enquadramentos incompletos. A princípio, a narrativa enuncia uma crise identitária, mas aos poucos percebemos que se trata de uma dificuldade de existir plenamente em um mundo que constantemente devolve sinais de sua irrelevância. Sua imagem desfocada traduz uma cidadania precária e um pertencimento sempre negado. Paradoxalmente, é na cena da masturbação — rara e delicadamente construída por Amaral — que emerge uma breve ruptura. Ali, distante da lógica da validação masculina, Macabéa experimenta uma centelha de desejo autônomo. A cena, em penumbra, registra uma descoberta silenciosa de que seu corpo pode produzir prazer e imaginação.
    Quarenta anos depois, Macabéa permanece uma figura radical e perturbadora porque expõe os limites das políticas contemporâneas de representação e representatividade. Sua trajetória contrasta com uma longa tradição audiovisual que consolidou a violência de gênero como componente banal das narrativas românticas e dramáticas, apresentadas como pedagogias afetivas normais da heterossexualidade. O filme de Amaral recusa essa lógica e, por isso mesmo, ainda nos interpela

Bibliografia

    AMARAL, Suzana (dir.). A hora da estrela. Produção de Raquel Gerber e Suzana Amaral. São Paulo: Raiz Produções Cinematográficas/Embrafilme, 1985. Filme (96 min).
    BUTLER, Judith. Vida precária: os poderes do luto e da violência. Tradução de Andreas Lieber. Belo Horizonte: Autêntica, 2019
    GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flavia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020
    CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro: Zahar, 2023
    QUART, Barbara Koenig. Women Directors: The Emergence of a New Cinema. New York: Praeger, 1988. xvi, 268 p
    SPIVAK, Gayatri Chakravorty. An Aesthetic Education in the Era of Globalization. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2012