Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    MARIANA MAURO PRETI (UFES)

Minicurrículo

    Mestre pelo programa Comunicação e Territorialidades – PÓSCOM (2023-2025), na linha de pesquisa Comunicação e Poder. Especialista em Direção Teatral pelo Instituto CAL – Casa das Artes de Laranjeiras (2015) e graduada em Comunicação Social – Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Espírito Santo (2010-2014). Integra o Núcleo de Estudos de Comunicação Comunitária e Local (COMUNI) e faz parte da Rede de Pesquisa em Comunicação, Infâncias e Adolescências.

Ficha do Trabalho

Título

    Percepções estéticas e comportamentais: a hiper-realidade em narrativas audiovisuais e algorítmicas

Mesa

    Audiovisual, infâncias e adolescências: representações, estéticas e consumos em múltiplas telas

Resumo

    Este resumo expandido se origina de dissertação de mestrado e discute a hiper-realidade em narrativas dos stories, considerando-as parte de um formato não apenas audiovisual, mas também algorítmico. Conclui-se que esta característica dos stories, embebida em publicidade e monetização em territórios dominados pelas plataformas digitais, invisibiliza as fronteiras entre a percepção do que é real e do que é fabricado, reforçando padrões estéticos e comportamentais.

Resumo expandido

    Este trabalho se trata de um recorte do estudo de recepção “Percepção do Consumo de Conteúdos de Stories do Instagram e do TikTok por Mulheres Adolescentes”, realizada através de metodologias quali-quantitativas, com aplicação de questionário em escolas estaduais de Vitória (ES). Neste resumo, o objetivo é discutir a característica de hiper-realidade identificada nas narrativas dos stories, que, longe de se tratarem apenas de um formato audiovisual, são também um formato algorítmico.

    Os tipos de conteúdos veiculados nas plataformas digitais fazem parte de um cenário em que a vida privada é exposta de forma glamourizada, financiada pela publicidade mascarada como realidade e impulsionada pelas estruturas de poder das big techs e seus mecanismos de controle. O que Henri Lefebvre (A Produção do Espaço, 1974) chamaria de dominação do espaço, aquela que se dá a partir de poder concreto, funcional, de propriedade. De tal modo, o consumo e a produção de conteúdos nestes espaços estão sujeitos, antes de mais nada, aos limites e regras das empresas de tecnologia.

    A publicidade intrinsecamente arraigada ao conteúdo é um fenômeno que representa esta função de acumulação capitalista própria das plataformas digitais, de modo que se tornou comum o desgaste nos limites entre o que é real e o que é editado; o que é espontâneo e o que é roteirizado; o que é interesse do usuário e o que é veiculado especificamente para ele a partir de análises de dados predatórias. Não se pode, portanto, considerar que os algoritmos são meramente intermediadores entre criadores de conteúdo e sua audiência. São, na verdade, articuladores, compositores do simulacro das plataformas digitais, no sentido atribuído por Baudrillard em “Simulacros e Simulação” (1981).

    Esta hiper-realidade, resultado do apagamento das fronteiras na percepção do que é real e do que é manipulado, pode estar causando sérios problemas de autoestima, principalmente, em meninas expostas a padrões de beleza e estilos de vida irreais. Estes simulacros fazem parte, ou se originam, de uma estrutura complexa e hierarquizada, com controles centralizados e obscuros, no sentido de que não se sabe como estas empresas constituem seus algoritmos e utilizam os dados que colhem (Morozov, 2018).

    A exposição da intimidade construída, idealizada por influenciadores no mesmo espaço cotidiano de postagens de seus amigos pode dificultar o discernimento das adolescentes acerca do que é real e do que é hiper real, feito com objetivos de monetização e/ou engajamento. Essa entropia entre conteúdos de influenciadores e de amigos acentua o que Recuero (2012, p.15) chama de “borramento das fronteiras entre o público e o privado”, elemento que caracteriza as redes sociais digitais desde seu surgimento.

    Esse processo de exteriorização da intimidade, conhecido como extimidade (Sibilia, 2008), é uma premissa dos regimes de visibilidade contemporâneos que estimulam o compartilhamento da pessoalidade na rede, de maneira que a intimidade é cada vez mais externa. Com a crescente espetacularização do eu e sua mercantilização, tais fronteiras se tornaram cada vez mais tênues e menos importantes, uma vez que o espaço do privado passa a ser também público nestas reconfigurações sociais (Sibilia, 2008) que as telas, os vídeos verticais e, neste caso, os stories ajudaram a promover. Essa hiper-realidade, ou realidade fabricada, no que diz respeito à recepção destas narrativas dos stories, reforça em níveis mercadológicos, e quase sempre invisibilizados, pressões estéticas, comparações sociais e transmite mensagens de que é preciso se enquadrar em um ideal – ou ideais. Esta dinâmica é constantemente reforçada pela governança algorítmica, no sentido descrito por Van Dijck (2017), em que uma quantidade imensurável de dados pessoais é utilizada para direcionar, veicular e manipular usuários.

Bibliografia

    BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. 1981. ©Relógio d’Água, 1991.
    LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço.1974. 4e éd. Paris: Éditions Anthropos, 2000). Primeira versão : início – fev.2006.
    MOROZOV, Evgeny. Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política. Trad. Claudio Marcondes. São Paulo: UBU, 2018.
    PRETI, Mariana Mauro. Percepção do Consumo de Conteúdos de Stories do Instagram e do TikTok por Mulheres Adolescentes. 2025. 198 p. Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Territorialidades (PósCom), Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória.
    RECUERO, Raquel. A Conversação em Rede: comunicação mediada pelo computador. Porto Alegre: Sulina, 2012
    SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
    VAN DIJCK, José. Confiamos nos dados? As implicações da datificação para o monitoramento social. MATRIZes, São Paulo, v. 11, n. 1, p. 39-59, 2017.