Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Milene Migliano Gonzaga (INTERCOM)

Minicurrículo

    Coordenadora do GP Comunicação, Tecnicidades e Culturas Urbanas – INTERCOM. Pesquisadora do GP Juvenália – questões estéticas, geracionais, raciais e de gênero em Comunicação e Consumo PPGCOM-ESPM/SP e do GP iDALE!, Decolonizar a América Latina do PPGAU-UFBA, com quem organizou a Mostra Ética da Reparação, Cinema da UFBA, em 2025. Compõem a coordenação do eixo Infâncias e Juventudes do Conselho Latino Americano em Ciências Sociais, membro da Associação Filmes de Quintal, SOCINE E IASPM.

Ficha do Trabalho

Título

    “Ainda escuto o céu debaixo d’água”: o devir sonho no filme provocação do Ateliê Xicas do Cinema I

Seminário

    Tenda Cuir

Resumo

    Em diálogo com o tema – Fins do mundo, mundos sem fim – mapeia-se com o curta “Ainda escuto o céu debaixo d´água”, 13min, 2024, de direção coletiva, linhas de fuga que proporcionam encontros com “inúmeraveis mundos possíveis”. Curta-manifesto resultado de um programa de formação e produção audiovisual exclusivo para mulheres trans e travestis, Alice, Céuva, Kalina, Kendra, Marina, Morgana, Nara, Pérolla e Samantha trazem o drama da protagonista que é narrado com acolhimento, trocas e ritos.

Resumo expandido

    Busca-se mirar o filme de modo a encontrar com imagens em seu cinema que produzem um devir sonho. As linhas de fuga, devires, atravessam territórios existenciais possibilitando transformações (Deleuze; Guattari, 1992). O sonho, território do sono e da noite, motiva aprendizados por imagens do outro e do corpo (Limulja, 2022). Busco desenhar um mapa com o devir sonho, fabulado no ritmo desviante (Ramalho, 2022) das imagens que se realizam de dia. Entre as cenas, o devir sonho cintila a tela com gestos das travestis. que remetem ao tempo dos sonhos como aprendizados do sentir, desejar e curar.No preâmbulo, o devaneio poético em um manguezal: água, corpo, folha, banho, bacia, mangue, tempo lento embora ritmado entre os elementos ali mobilizados. Uma travesti é banhada por outras quatro, jovens, negras, vestidas de branco, com contra-egum no braço, como nos ritos do candomblé.
    No bar, a mesa ocupa o centro da cena, com quatro travestis sentadas a sua volta. A quinta chega assim que sentamos na mesa com elas, trazendo uma garrafa de cerveja. A mulher que era submergida no banho está sentada no centro da cena. As cadeiras são de plástico e há um grafitte grande no muro ao fundo, no qual lê-se Bar da Ana. Na montagem em descontinuidade para a narrativa clássica, o filme produz uma percepção diferenciada das imagens alternadas entre os planos abertos e fechados no qual estão trazendo momentos do rosto de cada uma delas.
    A descontinuidade narrativa remete novamente ao sonho, que se revela no ritmo gingado no tempo que dá um passo a frente e outro atrás, pode ser considerada um dos artíficios que “delineiam sensibilidades distintivas que atravessam as paisagens audiovisuais contemporâneas” (Ramalho, 2022, p.32), revelando um ruído como os de baixa qualidade de streaming. Uma das travestis acabou de se casar e todas sorriem, comemoram e debocham, menos uma. Ela é questionada sobre o seu isolamento. Ela responde com seu desconforto diante do mundo e diz que deixou de sonhar. Indaga se faz sentido para as outras. A recém casada responde que “ser travesti, e tentar sonhar ao mesmo tempo, é algo meio brusco, sabe?” Cada uma delas diz o que pensa e uma das respostas é enfática: ser travesti já é um sonho realizado.
    “A noite é da imagem, dos mortos e dos outros seres que habitam o cosmos. É quando a imagem liberta o corpo, pode vagar por lugares desconhecidos, encontrar parentes distantes ou falecidos. A noite é o momento do outro; e esse outro dentro da pessoa yanomami é a imagem, o utupë. Entretanto, esse outro não supõe uma dualidade, pois tudo o que afeta a imagem também afeta o corpo” (Limulja, 2022, p. 67)Antes associadas à noite, como o sonho, aqui as travestis são figuram como sonhos durante o dia. O outro sonhado já é seu corpo no tempo do corpo. Mais uma pergunta, que ritos produzem em seu cotidiano. Primeira resposta em cena, se afirmar juntas. Ao fundo do plano retrato está a frase pixada “seja você mesma”.
    Corta para o mangue. A travesti antes acolhida, agora empunha uma folha de espada de Ogum. Elas se movem, em uma dança de treino com espadas, ao som de uma batida grave, com gestos lentos e leves, lembra maculelê. Suavemente, a travesti ritualizada, declama: “Trago registros subconscientes de corpas ancestrais. (…) Para que as flores desabrochem à luz do dia, do meu sangue sal nasceram milhões. (…)” O sonho adentra a tela, levando ao envolvimento com a dança (Migliano, 2022) que se inventa. Elas não lutam entre si, mas juntas, para enfrentamento de um inimigo comum, o que as interdita o sonhar. O rito finda-se com o banho de folhas e mangue, trazendo o prêambulo à tela.
    Na última tomada atravessada pelo devir sonho, a travesti banhada é amparada por duas mais velhas. O texto volta a ser declamado e evoca vozes transcestrais “plantaremos à navalha a nossa existência e futuro” . Elas dão as mãos e caminham terra seca adentro do mangue. A cura é recomeço, devir sonho de se estar viva e envelhecer, no cinema e para além.

Bibliografia

    DELEUZE, Giles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs, v. 1. São Paulo: Editora 34, 1995.

    LIMULJA, Hanna. O desejo dos outros – uma etnografia dos sonhos yanomami. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

    MARCONE, Aline. Além da representatividade. FilmeCultura. Ministério da Cultura: Brasília: 2025.

    MIGLIANO, Milene. Dança envolvente e ficção visionária:: fabulação crítica de cidades amorosas para elas. Logos, Rio de Janeiro, v. 31, n. 1, 2024. DOI: 10.12957/logos.2024.81345. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/logos/article/view/81345. Acesso em: 26 abr. 2026.

    RAMALHO, Fábio. Formas da imaginação e usos desviantes da tecnologia no cinema brasileiro contemporâneo. Logos, Rio de Janeiro, v. 31, n. 1, 2024. DOI: 10.12957/logos.2024.81460. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/logos/article/view/81460. Acesso em: 26 abr. 2026.

    ROCHA, Rose de Melo. “Políticas de visibilidade como fatos de afecção: Que ética para as visualidades?”. Famecos, v. 17, n. 3, 2010, p. 199-206.