Ficha do Proponente
Proponente
- Gustavo Ernandes Lima Nascimento (UFPE)
Minicurrículo
- Gustavo Ernandes é graduando em Cinema e Audiovisual na UFPE. Atualmente desenvolve pesquisa sobre escritas de si no documentário, orientado pelo Prof. Dr. Laécio Ricardo. Também pesquisa preservação e salas de cinema. Trabalha com Curadoria e Programação desde 2023, com destaque para a V JED – Documentário Cuir. Na universidade, foi monitor das disciplinas de Crítica Cinematográfica e Produção em Audiovisual e fez parte do projeto de extensão “CineLab”, coordenado pelo Prof. Dr. Laécio Ricardo.
Ficha do Trabalho
Título
- Escritas de si nos documentários de realizadores/as LGBT+
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- A pesquisa investiga o documentário contemporâneo em primeira pessoa produzido por realizadores LGBTQIA+, focando na “escrita de si” que articula um gesto político plural. Partindo da articulação de autores como Renov (2004), Calligaris (1998) e Lebow (2012), somados à análise de um corpus fílmico representativo, desejamos compreender como as estratégias de subjetivação nessas obras desafiam narrativas hegemônicas, promovendo visibilidade e demandando reparação histórica.
Resumo expandido
- Esta pesquisa investiga o documentário contemporâneo em primeira pessoa produzido por realizadores LGBTQIAPN+, com ênfase na convergência entre as “escritas de si”, a afirmação identitária e o gesto político. O objetivo central é compreender como as estratégias de subjetivação nessas obras desafiam narrativas hegemônicas, promovendo visibilidade e solicitando reparação histórica. O trabalho articula aportes teóricos sobre o cinema em primeira pessoa, por meio de autores como Michael Renov e Alisa Lebow, com a análise de um corpus fílmico representativo, incluindo obras como Rebu (2018), de Mayara Santana; a trilogia da bicha preta, de Juan Rodrigues, formada pelos curtas Arco da liberdade (2015), Arco do medo (2017), e Arco do tempo (2019); Para todas as moças (2019) e Uma noite sem lua (2020), de Castiel Vitorino; e Limiar (2020), de Coraci Ruiz.
Historicamente, o documentário foi associado à objetividade e à evidência factual. Contudo, desde o fim dos anos 1970, observa-se em alguns títulos o triunfo da enunciação em primeira pessoa (Renov, 2004), onde o documentarista deixa de ser mediador para ocupar a cena. Neste sentido, os filmes em primeira pessoa aproximaram o audiovisual ao que a literatura chama de “escritas de si” e que pode ser entendida como um termo guarda-chuva que inclui a autobiografia, o autorretrato e a autoficção, três das estratégias mais comuns utilizadas pelo documentário contemporâneo. No campo das “escritas de si”, dialogamos com Contardo Calligaris (1998), que argumenta que a verdade moderna reside no esforço de sinceridade do sujeito, e não exatamente numa veracidade factual. “A vida do sujeito moderno já é um ato narrativo, uma autobiografia performativa.” (Calligaris, 1998, p. 50) O ato autobiográfico, ou seja, qualquer produção autobiográfica, é, portanto, performativo: o sujeito se produz e se inventa ao falar de si, tornando-se o “editor” de sua própria vida.
Essa “virada subjetiva” ganha contornos coletivos na produção LGBTQIA+. Apoiando-se em Alisa Lebow (2012), compreende-se que o “Cinema de Mim” (The Cinema of Me) também opera como um “Cinema de Nós”. Assim, a primeira pessoa do singular expande-se para o plural ao conectar grupos que partilham traumas e processos de exclusão semelhantes. O “eu” enunciado nestes documentários não se restringe ao solipsismo, mas opera como uma “primeira pessoa do plural”, em que a intimidade partilhada torna-se uma ferramenta de resistência coletiva e construção de contradiscursos. Como propõe Rancière (2009), a arte deve redistribuir o visível e reconfigurar o sensível, contribuindo para minimizar silêncios históricos. Assim, o filme torna-se uma plataforma onde desejos dissidentes encontram acolhida e a intimidade partilhada torna-se gesto político.
Dessa forma, a pesquisa dedica-se a analisar como tais categorias (sinceridade, performance e sujeito plural) se materializam esteticamente. Como a prática documental em primeira pessoa, ao hibridizar performance e factualidade, reconfigura o estatuto de verdade do gênero, estabelecendo-se como um dispositivo potente para a legitimação de trajetórias dissidentes e o enfrentamento de discursos conservadores na contemporaneidade.
Bibliografia
- CALLIGARIS, Contardo. Verdades de autobiografias e diários íntimos. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 11, n. 21, p. 43-58, 1998.
GALLE, Helmut; OLMOS, Ana Cecília; KANZEPOLSKY, Adriana. Em primeira pessoa abordagens de uma teoria da autobiografia. São Paulo: Annablume / Fapesp, 2009.
LEBOW, Alisa. Cinema of me: The self and subjectivity in first person documentary. New York: Columbia University, Wallflower Press, 2012.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. 2ª edição. São Paulo: Editora 34, 2009
RENOV, Michael. Filmes em Primeira Pessoa: algumas proposições sobre a autoinscrição. Catálogo Mostra “Silêncios Históricos e Pessoais”, Natalia Barrenha e Pablo Piedras (Org), 2014, p. 31-52.
VEIGA, Roberta; ITALIANO, Carla; FELDMAN, Ilana. Apresentação. Devires, Belo Horizonte, v. 14, n. 2, p. 11-17, jul./dez. 2017.