Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Erika Savernini (UFJF)

Minicurrículo

    Erika Savernini é docente Associada III da Universidade Federal de Juiz de Fora, foi a primeira coordenadora do atual curso de RTVI (dez.2016 a abr.2022) e está na direção da Faculdade de Comunicação Social desde jun.2022. Mestre e doutora em cinema pelo PPGArtes (EBA-UFMG). Coordena o projeto de extensão Cineclube Lumiére e cia (desde mar.2013). É autora do livro Índices de um cinema de poesia: Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieslowski (Editora UFMG).

Ficha do Trabalho

Título

    O(a) cineasta na teoria de cinema de Pier Paolo Pasolini

Resumo

    Os textos de cinema de Pier Paolo Pasolini compõem seu pensamento geral que credita ao intelectual um papel fundamental de leitura do mundo. Na sua teoria do cinema, o cineasta executa duas operações, uma de natureza linguística e outra de natureza estilística, que faz a passagem de Cinema (língua escrita da realidade) para filme (organização dos signos vivos da “realidade” transformados na imagem cinematográfica). Propomos o cotejamento na teoria de Pasolini do que implicaria ser cineasta.

Resumo expandido

    O pensamento cinematográfico de Pier Paolo Pasolini parte de uma proposição geral de Cinema (que seria a forma escrita da realidade) para uma teoria aplicada aos filmes (no caso, o cinema de poesia). No centro desta operação, está o(a) cineasta.
    Segundo Michel Lahud (A vida clara, 1993), Pasolini é o ideal do intelectual para Foucault, “um diagnosticador da realidade circundante capaz de um distanciamento que o faça ordenar o caos significativo em que seu corpo se inscreve, ao mesmo tempo em que participa ativamente do presente de sua existência” (SAVERNINI, 2004, p.44). As teorias, reflexões e críticas de Pasolini quanto a campos artísticos-culturais e às questões sociais e políticas, apontam para essa concepção do intelectual cuja atuação reflete sua “leitura” do mundo. Da mesma forma, a atuação do artista, no caso de Pasolini sua atuação criativa na literatura, no teatro e no cinema, deveria ser uma ação consciente de explicitação de relações percebidas no seu tempo, vivência ou “realidade”.
    Pasolini defende que, até o momento de sua reflexão, o que a literatura do cinema apresenta como a linguagem e a narrativa cinematográfica se constituía tão somente uma gramática estilística. Isto por que o cineasta-teórico italiano concebia o Cinema como uma instância abstrata (como a langue – conceito apropriado da semiologia saussuriana) concretizada em Filmes (parole, onde se dá a estilização – “qualidade expressiva individual”).
    A gramática estilística seria uma poética dos filmes, uma sistematização de estratégias e recursos recorrentes nos filmes ao longo da história do cinema que, ao serem incorporados no repertório da audiência, se tornam reconhecíveis e cânone – em maioria, tendo em vista um cinema de prosa. Pasolini propõe-se, de forma distinta da maioria dos teóricos (cf. Aumont, 2004), a pensar uma teoria geral antes de uma teoria aplicada.
    Ao descrever a realidade tangível como uma rede sígnica, Pasolini afirma a aproximação do real com o Cinema, uma vez que a relação do indivíduo com o mundo é de constante decifração de signos (toda pessoa se apresenta uma para a outra como signo icônico de si mesma, tendo imagens e sons como principais sentidos desta percepção do mundo). Desta forma, Pasolini explicita que o realismo que ele credita ao Cinema em sua teoria é “um certo realismo”, pois o Cinema não é capaz de apreender a realidade, mas de criar imagens/sons análogas ao modo como deciframos o mundo da nossa vivência. Pela forma análoga entre nossa apreensão do mundo/realidade e as imagens/sons no Cinema, Pasolini propõe que o Cinema é a língua escrita da realidade.
    No entanto, o material base do Cinema, diferente da Literatura, não está dicionarizado; desta forma, o/a cineasta tem de mergulhar no “caos” da realidade para formar imagens/sons da realidade (uma operação de natureza linguística) – que já constitui um momento de autoria do/a cineasta – para só então empreender uma operação de natureza estilística (o momento efetivo de criação do filme, de concretização em imagens/sons e sua organização = montagem). O Cinema, na analogia com a vida, seria um plano-sequência contínuo, subjetivo, sem uma ordenação para uma direção ou sentido, até que o seu fim (a morte do indivíduo) permita a operação de organização e de produção de sentido (de Cinema para Filme). Desta forma, o/ cineasta mergulha no mundo/Cinema para compor seus filmes (o discurso ordenado sobre algo) marcando seu estilo (aí já no sentido do sistema formal fílmico característico do/a cineasta, bem como seu processo criativo, inclusive na relação com a equipe e no contexto de produção). O cinema de poesia seria uma proposta de estilização (portanto trata dos filmes – por isso, Pasolini denomina como uma configuração) que recupera características fundamentais do Cinema, segundo Pasolini; é proposto por Pasolini como uma tendência do cinema mundial nos anos 1960 e um neoformalismo (o filme traz as marcas da visão subjetiva do/a cineasta em seu sistema formal).

Bibliografia

    AMOROSO, Maria Betânia; ALVES, Cláudia Tavares (orgs.). Um intelectual na urgência: Pasolini lido no Brasil. Campinas: Ed. Unicamp; São Paulo: Ed. UNESP, 2022.
    AUMONT, Jacques. As teorias dos cineastas. Campinas: Papirus, 2004.
    HONESKO, Vinícius Nicastro. Pier Paolo Pasolini; estudos sobre a figura do intelectual. São Paulo: Intermeios, 2018.
    MÜLLER, Adalberto. A semiología selvagem de Pasolini. Devires, Belo Horizonte, v.3, n.1, p.88-105, jan-dez. 2006.
    PASOLINI, Pier Paolo. As últimas palavras do herege; entrevistas com Jean Duflot. São Paulo: Brasiliense, 1983.
    PASOLINI, Pier Paolo. Empirismo hereje. 2 ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1981.
    SAVERNINI, Erika. Índices de um cinema de poesia: Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieslowski. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004.
    SAVERNINI, Erika. A vida escrita em O Cavalo de Turim: diálogos contemporâneos com Pier Paolo Pasolini. Revista Passagens – PPGCOM da Universidade Federal do Ceará, Volume 7. Número 3. Ano 2016. Páginas 48-67.