Ficha do Proponente
Proponente
- Marco Antônio Bourscheid Júnior (UFRGS)
Minicurrículo
- Mestrando na linha de Linguagens e Tecnologias da Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde também se graduou em Relações Públicas. É pesquisador do ARTIS – Grupo de Pesquisa em Estética e Processos Audiovisuais (CNPq/UFRGS). Atuou como bolsista de Iniciação Científica e monitor. Dedica-se à pesquisa em comunicação audiovisual, com foco no cinema, mercado e consumo por comunidades regionais gaúchas.
Ficha do Trabalho
Título
- Festivais de cinema pós-2020: expansão frente à plataformização na RF1/RS
Eixo Temático
- ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL
Resumo
- Este resumo expandido é o recorte parcial da dissertação de mestrado em andamento, cujo objetivo é investigar como os festivais de cinema na Região Funcional de Planejamento 1 (RF1) do RS, criados ou consolidados pós-2020, atuam na articulação entre produção e consumo cinematográfico. O trabalho busca entender a expansão e interiorização desses eventos físicos como um movimento de consumo e interação sociocultural frente à plataformização e ao isolamento gerado pelas novas lógicas de consumo.
Resumo expandido
- Nas últimas décadas, o cenário audiovisual sofreu profundas transformações impulsionadas pela plataformização, um conceito que se refere à “penetração das infraestruturas, processos econômicos e marcos governamentais das plataformas digitais em diferentes setores” da sociedade (POELL; NIEBORG; VAN DIJCK, 2019, p. 5). Com a eclosão da pandemia de COVID-19, em 2020, essa dinâmica foi acelerada, transferindo o consumo cultural quase em sua totalidade das salas de exibição cinematográficas para o isolamento das telas de computadores, celulares, tablets e televisões. Contudo, a transposição das atividades audiovisuais para o meio digital marcou as grandes limitações dos meios virtuais no que tange à sociabilidade. Como bem observam Aida Vallejo e Tânia Leão ao trazerem as reflexões de Marijke de Valck sobre a mimetização de eventos na pandemia:
as tentativas, criativas, de mimetizar a experiência do festival online, revelaram-se mais complicadas do que se pensara. As conversas virtuais, os Q&A’s, as festas e os mercados diferem dos seus congéneres físicos, na atmosfera e nos recursos envolvidos. Quando o entusiasmo inicial da experimentação online diminuiu, e se instalou a fadiga do tempo passado em frente ao ecrã, verificou-se que os festivais virtuais são, simplesmente, menos festivos e, portanto, menos eficazes para alcançar alguns dos seus objetivos. (DE VALCK, 2020 apud VALLEJO; LEÃO, 2021, p. 81)
Em contrapartida ao isolamento gerado pela virtualização, o que se observa a partir de 2020 é um pujante movimento de retomada do caráter coletivo e presencial, com forte manifestação na Região Funcional de Planejamento 1 (RF1) do Rio Grande do Sul, uma divisão territorial estabelecida pelo governo estadual com base em critérios de homogeneidade econômica, ambiental e social. Tendo Porto Alegre como sede, a RF1 abrange 70 municípios da Região Metropolitana (GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, 2024). Nesse cenário, longe de serem meros locais de projeção, os festivais são percebidos como “espaços sociais que performam agendas múltiplas, como a política, a de mercado, a de mídia e a de formação de público” (VALLEJO; LEÃO, 2021, p. 86).
Essa dimensão social tem sido verificada pelo mapeamento cartográfico realizado. Embora Porto Alegre mantenha seu papel hegemônico na concentração de atividades, cidades vizinhas iniciaram um notável processo de interiorização, com uma crescente em suas atividades de exibição e na criação de eventos locais, a exemplo do que ocorre em municípios como Canoas e Novo Hamburgo.
Para compreender essa articulação regionalizada, pensa-se a partir da teoria dos ecossistemas midiáticos. Segundo Canavilhas (2010), um ecossistema se baseia na interação indissociável entre o ambiente e os sujeitos: há “[a] combinação funcional dos organismos com os factores ambientais, introduzindo assim dois tipos de componentes interactivas, […] a componente abiótica (relacionada com os ambientes) e a componente biótica (relacionada com os seres vivos)” (CANAVILHAS, 2010, p. 1). Nesse sentido, impulsionados por legislações de fomento, os festivais operam como “componentes abióticos” cruciais, criando o ambiente ideal para que os realizadores (organismos bióticos) escoem suas produções. Esse movimento ajuda a entender e resgatar a importância dos espaços de exibição para a interação comercial e o impacto social, como os antigos “cinemas de calçada” (GATTI, 2000, p. 223).
Os resultados preliminares desta investigação indicam que a expansão dos festivais na RF1 perpassa a simples exibição de curtas e longas-metragens. Trata-se de um movimento maior, ainda a ser explorado, de uma reivindicação social e geográfica frente ao avanço desterritorializante e massivo dos streamings. Ao preencherem o vazio deixado pelo encolhimento dos cinemas de rua e festivais, tais eventos firmam-se como resistência, promovendo a integração comunitária e articulando ativamente a produção e o consumo audiovisual, muitas vezes local.
Bibliografia
- BOURSCHEID JÚNIOR, Marco Antônio; ROSSINI, Miriam de Souza; HOFF, Rafael Sbeghen. Festivais de cinema e audiovisual: mapeamento preliminar e desdobramentos sobre o ecossistema gaúcho. In: CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO NA REGIÃO SUL, 23., 2024, Frederico Westphalen. Anais […]. São Paulo: Intercom, 2024. Disponível em: http://hdl.handle.net/10183/287691.
GATTI, André. Exibição. In: RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe A. de (orgs.). Enciclopédia do Cinema Brasileiro. São Paulo: Ed. Senac, 2000.
POELL, Thomas; NIEBORG, David; VAN DIJCK, José. Plataformisation. Internet Policy Review, v. 8, n. 4, 2019. Disponível em: https://policyreview.info/concepts/platformisation.
VALLEJO, Aida; LEÃO, Tânia. Introdução: festivais de cinema e os seus contextos socioculturais. Aniki: Revista Portuguesa da Imagem em Movimento, v. 8, n. 1, p. 80-100, 2021. Disponível em: https://www.aim.org.pt/ojs/index.php/revista/article/view/789.