Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Miguel Antunes Ramos (ECA / USP)

Minicurrículo

    Miguel Antunes Ramos fez graduação e mestrado na ECA / USP. Sob orientação de Ismail Xavier, sua dissertação foi defendida em 2021. Atualmente, é doutorando no mesmo programa (Meios e Processos Audiovisuais), sob orientação de Cecília Mello. É, também, cineasta documentarista, tendo dirigido os filmes E (2014), O Castelo (2015), Banco Imobiliário (2016), Filhos de Macunaima (2019), A Flecha e a Farda (2020) e A voz de Deus (2025).

Ficha do Trabalho

Título

    Antes da cidade, a imagem: regimes visuais e produção do espaço urbano no pós-modernismo

Seminário

    Cinema e Espaço

Resumo

    A partir dos anos 1970, a guinada pós-moderna reflete sobre transformações no capitalismo, na cultura e na arquitetura, emergindo na relação entre imagem e cidade. Este trabalho investiga o deslocamento da imagem indicial diante da ascensão das imagens eletrônicas e digitais, propondo que mudanças nos regimes de produção imagética implicam novas formas de projetar o espaço urbano. A partir de autores como Jameson e Baudrillard, questiona-se em que medida a cidade hoje é produzida como imagem.

Resumo expandido

    A partir de meados dos anos 1970, diversos pensadores passaram a formular aquilo que viria a ser nomeado como “guinada pós-moderna”. É relevante destacar que essa inflexão foi elaborada simultaneamente por autores do campo da imagem e da arquitetura, parecendo emergir precisamente na imbricação entre imagem e cidade. Nomes como Fredric Jameson (1989), David Harvey (1989) e Jean Baudrillard (1981), por um lado, e Charles Jencks (1977), Robert Venturi e Denise Scott Brown (1972), por outro, formulam um conjunto de transformações que se manifestam tanto nos desenvolvimentos do capitalismo global quanto no campo da cultura e nas formas de projetar edifícios e, consequentemente, cidades.
    Em apresentação anterior na mesma Socine (2025), buscamos formular a relação paradoxal que a imagem fotográfica mantinha com a cidade moderna. Interessa-nos agora compreender o que se passa no momento em que a hegemonia da imagem indicial é deslocada; isto é, quando a imagem deixa de se definir prioritariamente como traço ou vestígio do real. Trata-se de investigar as relações entre imagem e cidade no contexto da guinada pós-moderna, que coincide com a ascensão da imagem eletrônica e, posteriormente, digital. É nesse ponto que se insere a hipótese de que transformações nos regimes de produção das imagens implicam também transformações nos modos de projetar e construir o espaço urbano. Como formula John May, mudanças na forma de produzir imagens implicam mudanças na forma de produzir edifícios e, por consequência, a própria cidade: “O design também tem suas próprias formas de autocompletar. É possível que o comando original de ‘copiar’, presente na primeira versão comercial do AutoCAD em 1982, tenha constituído uma ruptura fundamental e decisiva no raciocínio arquitetônico? Uma ruptura na qual toda uma série de gestos ortográficos incrivelmente trabalhosos (isto é, que exigiam muito tempo) foi subsumida por uma lógica algorítmica cujo objetivo era automatizar esse trabalho em nome da eficiência?” (MAY, 2019).
    Nesse contexto, Fredric Jameson propõe que, no pós-modernismo, “a verdade da experiência não mais coincide com o lugar onde ela se dá”, formulando a noção de hiperespaço a partir do Hotel Bonaventure, em Los Angeles — um espaço que parece substituir a cidade, em vez de se integrar a ela (JAMESON, 2001). Por sua vez, Jean Baudrillard desenvolve a noção de simulacro, entendido como um modelo de real sem origem na realidade, “porque o precede, como uma espécie de símile antecipado na inflação de imagens que circulam de forma estonteante na ‘tela total’ da sociedade da hipervisibilidade contemporânea” (BAUDRILLARD, 1991). A partir dessas formulações, delineia-se a hipótese de que a imagem não apenas representa ou registra o real, mas passa a precedê-lo e, em certa medida, produzi-lo como entidade autônoma.
    É nesse horizonte que propomos pensar a relação entre imagem e cidade. Em que medida as imagens participam da produção do espaço urbano? Em uma cidade orientada pela lógica da valorização e da circulação do capital, seriam os edifícios concebidos, em primeiro lugar, como imagens? A expansão do tecido urbano sob uma lógica mercadológica implicaria a proliferação de construções concebidas desde o início como imagens de venda? Não se configuraria, no tecido urbano contemporâneo, uma espécie de fantasmagoria resultante da transposição de imagens renderizadas, por vezes padronizadas e intercambiáveis, para o espaço construído? Poder-se-ia dizer, enfim, que a cidade é hoje, em larga medida, produzida a partir de imagens projetadas em escritórios impessoais, eles próprios inscritos na lógica de uma “cidade global” marcada pela circulação abstrata de signos, capitais e imagens?

Bibliografia

    BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D’água. 1991

    CHARNEY, Leo; SCHWARTZ, Vanessa (orgs.). O cinema e a invenção da vida moderna. 2a ed. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

    DEBORD, Guy. A Sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: editora contraponto. 1997

    HARVEY, David. Condição Pós-moderna: um estudo sobre a mudança cultural. São Paulo: Loyola. 2014

    JAMESON, Fredric. Pós modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática. 2001

    KITTLER, Friedrich A. Gramofone, Filme, Typewriter. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: EdUERJ. 2019

    MAY, John. Signal, image, architecture: everything is already an image. New York, NY: Columbia Books on Architecture and the City, 2019.
    WISNIK, Guilherme. Dentro do nevoeiro. São Paulo: Editora Ubu. 2018

    JENCKS, Charles. The Language of Post-Modern Architecture. New York. 1977

    VENTURI, Robert; BROWN, Denise Scott. Aprendendo com Las Vegas. Cosacnaify. São Paulo, 2003.