Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Laura Tainá Sales Bandeira (UNIFOR)

Minicurrículo

    Graduanda em Cinema e Audiovisual pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Participou de eventos acadêmicos como o IX Encontro de Extensão Universitária e o IV Encontro de Curricularização da Extensão (ECOE) , na mesma instituição. Foi estagiária da ALECE TV entre 2024 e 2026, atuando principalmente na área de edição e pós-produção audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    Narrativas políticas em edits de Hilda Furacão (1998): Imaginários nacionais no Brasil pós-pandemia

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Este trabalho propõe uma pesquisa acerca do retorno da minissérie Hilda Furacão (1998) em 2023, ano atravessado pelas repercussões da pandemia e do retorno do conservadorismo ao Brasil. Direcionamos o foco para a produção e circulação dos “edits” — vídeos curtos marcados pela subjetividade, que ampliaram o alcance da obra nacional nas redes sociais, e como eles têm participação no processo de construção simbólica do Brasil, a partir da análise de suas imagens e das interações com a publicações.

Resumo expandido

    Este trabalho dá continuidade a uma investigação anterior, na qual analisamos a nova circulação – mundialmente – da minissérie Hilda Furacão (Wolf Maya, 1998) em 2023, impulsionada pela publicação de “edits” nas redes sociais como Instagram, TikTok e X. Partimos do pressuposto de que havia um estado de fragilidade despertado na população brasileira naquele período, principalmente entre os jovens, em decorrência do isolamento social durante a pandemia da COVID-19, bem como por conta da ascensão da extrema direita no Brasil, pautada em discursos conservadores.

    Tentamos comprovar que tal conjuntura contribui para processos de identificação e projeção que culminam na catarse do público especificado acima. Essa tensão é criada, por exemplo, através da caracterização de personagens como Hilda (interpretada por Ana Paula Arósio) e Frei Malthus (interpretado por Rodrigo Santoro), construídos a partir de convenções sociais relacionadas à liberdade sexual feminina, ao conservadorismo religioso e ao falso moralismo. Entendemos que a cultura participativa, conforme descrita por Henry Jenkins (apud Curi, 2013), configura-se como a forma de manifestação desse fenômeno.

    Os vídeos curtos (“edits”) publicados nas mídias sociais, como o TikTok, reúnem cenas de uma obra audiovisual e, geralmente acompanhados de uma trilha musical, destacam gestos dos personagens, dinâmicas e temas. Os “edits” se assemelham aos trailers comerciais (feitos para a promoção de obras cinematográficas), uma vez que também podem despertar o interesse do público. Para isso os realizadores utilizam-se dos principais momentos, de montagens rápidas e cativantes/apelativas; contudo, diferenciam-se principalmente pela sua subjetividade, visto que o editor remonta a obra de acordo com a sua perspectiva de realizador-espectador (Dias, 2025).

    Os espectadores participam, então, da produção de novos sentidos: um edit que dá ênfase a cenas de Hilda com a cabeça erguida, enfrentando os cidadãos conservadores de Belo Horizonte (MG), quando combinadas a gestos sedutores, constrói o arquétipo da “mulher fatal” (femme fatale). Por outro lado, quando momentos ou gestos tristes da protagonista ganham destaque, compreendemos como uma visão romantizada da “beleza melancólica” da personagem, ou de vítima melodramática marcada pela tragédia. Através de uma decupagem demonstramos que escolhas de montagem orientam a atmosfera recebida pelo público (Gil, 2005).

    “Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações como a concepção que temos de nós mesmos” (Hall, 2006, p. 50). Essa afirmação do teórico Stuart Hall corrobora nossa compreensão de que as imagens produzidas e compartilhadas por fãs (vídeos editados a partir de uma obra original) participam também da construção do imaginário nacional, pois ao mobilizarem representações que evidenciam disputas em torno de valores, identidades e conflitos, problematizam preconceitos que atravessam novamente a sociedade brasileira – e mundial – contemporânea. O cenário de polarização política e de disputas sobre identidade, característico da década de 2020, estende-se ao âmbito digital, onde as redes sociais se consolidaram como espaços de manifestação que tendem a reconstruir os limites de respeito na sociedade.

    Portanto, neste novo recorte da pesquisa, aprofundamos e deslocamos o foco da investigação para o impacto político das narrativas construídas nestas produções. Para isso, aplicamos novamente a metodologia de análise fílmica proposta por Vanoye e Goliot-Lété (2002), na qual os edits passam por um processo de decomposição, evidenciando elementos da imagem e do som que possibilitam a avaliação tanto das intenções políticas contidas na obra original quanto os sentidos construídos pelos fãs nas novas obras. Além disso, a análise das publicações dos espectadores contribui para entendermos a maneira como se constrói o olhar externo sobre nós — e principalmente: como nos enxergamos.

Bibliografia

    BRITO, Rosaly de Seixas. Mídia, construção do imaginário moderno e identidade no Brasil. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 28., 2005, Rio de Janeiro. Anais […]. São Paulo: Intercom, 2005.

    CURI, Pedro. Fan arts, fan fics e fan films: o consumo dos fãs e a criação de uma nova cultura. In: BAMBA, Mahomed (org.). A recepção cinematográfica: teoria e estudos de casos. Salvador: EDUFBA, 2013. p. 209-227.

    DIAS, Jessica de Jesus Teixeira. Os edits e seu impacto na promoção de filmes nacionais. Associação Brasileira de Cinematografia (ABCine), 2025.

    GIL, Inês. A atmosfera como figura fílmica. Covilhã: Biblioteca Online de Ciências da Comunicação, 2005. Disponível em: https://arquivo.bocc.ubi.pt/pag/gil-ines-a-atmosfera-como-figura-filmica.pdf. Acesso em: 15 abr. 2026.

    HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

    VANOYE, Francis; GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. 2. ed. Campinas: Papirus, 2002.