Ficha do Proponente
Proponente
- Rebeca Hertzriken Ferreira (PPGCine UFF)
Minicurrículo
- Graduada em Cinema e Audiovisual e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual, ambos pela UFF, investiga as relações entre a produção acadêmica e a realização cinematográfica. Cursa Licenciatura na mesma área e realiza entrevistas com pensadores da cidade no contexto do laboratório de estudos Urbanos (leU/PROURB/UFRJ). No âmbito do LDSC/PENO/UFRJ, investiga possibilidades de comunicação científica articuladas ao uso do design, do audiovisual e da expressão gráfica.
Ficha do Trabalho
Título
- Investigar e criar: o cinema como prática de elaboração teórica em Jingru (Cyan) Cheng
Seminário
- Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema
Resumo
- Partindo da análise fílmica da trilogia Ripple, Ripple, Rippling, de Jingru (Cyan) Cheng, esta comunicação investiga uma prática que articula pesquisa acadêmica e realização audiovisual. A partir do conceito de rippling, examina um modo de produção de conhecimento que se desenvolve na implicação entre escrita, corpo e imagem em movimento, em relação às dinâmicas socioespaciais de populações rurais na China, evocando o cinema como forma de elaboração teórica.
Resumo expandido
- Esta comunicação parte da trilogia Ripple, Ripple, Rippling, desenvolvida pela arquiteta, pesquisadora e realizadora Jingru (Cyan) Cheng, para examinar modos de elaboração teórica construídos em relação direta com o fazer cinematográfico. No âmbito de sua pesquisa, a autora investiga formas socioespaciais vinculadas às condições de vida de populações rurais na China. Em simpósio realizado na Architectural Association School, em 2024, Cheng define sua prática como uma aliança transversal entre arquitetura, antropologia, cinema e performance. O presente trabalho analisa o deslocamento do conceito de rippling — efeito relativo à domesticidade indomada, entendido como uma tática marginal que deriva das dinâmicas de flutuação e dissolução populacional no contexto da exploração da mão de obra entre zonas rurais e urbanas — para o campo fílmico. A abordagem proposta para esta comunicação articula análise fílmica da trilogia com um estudo situado sobre a autora, sobretudo sua carreira acadêmica.
A investigação da arquiteta chinesa considera o filme como instância ativa na formulação de problemas e na organização das formas de pensamento, situando a produção teórica no encontro entre escrita, corpo, imagem e som. Em um primeiro momento, sua pesquisa mobiliza instrumentos vinculados ao desenho e ao projeto arquitetônico, em uma prática orientada ao processo. No entanto, diante da limitação desses meios para traduzir os achados do trabalho de campo, Cyan desloca sua investigação para a experimentação cinematográfica e performativa. Nesse movimento, passa a incorporar procedimentos de observação participante associados ao documentário e à performance, configurando uma pesquisa estruturada a partir da materialidade e das situações vividas.
A incorporação da câmera e da imagem em movimento integra esse contexto como parte do esforço da autora para encontrar formas de representação capazes de dar conta das dimensões sensoriais e relacionais do espaço que não se deixam apreender exclusivamente pelo texto ou pelo desenho. O conceito de rippling, por ela mobilizado, é articulado a essas práticas artísticas e audiovisuais e orienta tanto a investigação quanto a própria construção das imagens no seu fazer. Práticas audiovisuais orientadas ao processo já indicam que o conhecimento pode emergir a partir da relação com os materiais e na montagem, encontrando ressonância, por exemplo, na antropologia visual como campo de investigação (Ribeiro, 2016). Também as discussões sobre pesquisa em arte, nas quais teoria e prática operam de forma implicada na produção de conhecimento, constituem uma referência importante (Fortin; Gosselin, 2014), situando a pesquisa de Cyan em um campo ampliado.
Nesse contexto, o modo de investigação adotado por Jingru (Cyan) Cheg pode ser compreendido à luz de reflexões que situam a produção teórica em relação direta com o fazer cinematográfico, tomando os filmes e seus processos como espaços de pensamento. Ainda que o cinema não se confunda com a formulação teórica em sentido estrito, é possível que sua materialização opere como um ato de teoria, ao suscitar problemas e organizar relações por meio de suas próprias formas (Aumont, 2008). Essa perspectiva permite qualificar a prática de Cyan como um modo de produção teórica constituído na articulação entre investigação e criação. A realização audiovisual atua, assim, como dispositivo de reorganização das formas de percepção e de relação com o espaço social, tornando sensíveis as táticas que operam na política do cotidiano da população rural na China.
A comunicação compreende a trilogia Ripple, Ripple, Rippling como prática implicada na produção de conhecimento sobre o espaço social da China rural. O trabalho de Cyan aponta caminhos para modos de elaboração crítica que se desenvolvem na experimentação e na relação com o meio, indicando possibilidades de produção teórica na convergência entre teoria e cinema.
Bibliografia
- AUMONT, Jacques. Pode um filme ser um ato de teoria? Educação & Realidade, v. 33, n. 1, p. 21–34, jan./jun. 2008.
CHENG, Jingru (Cyan). Rippling: towards untamed domesticity. The Journal of Architecture, v. 27, n. 7–8, p. 949–978, 2022.
FORTIN, Sylvie; GOSSELIN, Pierre. Considerações metodológicas para a pesquisa em arte no meio acadêmico. ARJ, v. 1, n. 1, p. 1–17, jan./jun. 2014.
GRAÇA, André Rui; BAGGIO, Eduardo; PENAFRIA, Manuela. Teoria dos cineastas: uma abordagem para a teoria do cinema. Revista Científica/FAP, v. 12, p. 19–32, jan./jun. 2015.
GRANT, Catherine. The shudder of a cinephiliac idea? Videographic film studies practice as material thinking. ANIKI, v. 1, n. 1, p. 49–62, 2014.
RIBEIRO, José Silva. Antropologia e cinema: metodologias sensoriais de uma pesquisa interdisciplinar. Revista Interdisciplinar em Cultura e Sociedade, v. 2, n. 2, p. 189–221, jul./dez. 2016.