Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Irlanna Dias Ramos (UFPA)

Minicurrículo

    Historiadora formada pela UEPA. Especialista em Promoção de Políticas Públicas em Gênero e Sexualidade na Amazônia pela UFPA. Mestranda em Comunicação, Cultura e Amazônia pela UFPA.

Ficha do Trabalho

Título

    Cinema de mulheres negras na Amazônia paraense: o audiovisual como dimensão política

Seminário

    (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências

Resumo

    A construção do cinema negro feito por mulheres tornou-se um campo de possibilidades e afro-fabulações para imaginar outros mundos. As perspectivas apresentadas por mulheres negras na elaboração de seus filmes podem apresentar dimensões que articulem com questões relacionadas a políticas e representações em telas. Nesse sentido, este trabalho busca analisar a presença de cineastas negras na Amazônia paraense, território que interliga os imaginários com questões relacionadas à negritude amazônida

Resumo expandido

    O cinema negro é um campo de possibilidades e afro-fabulações em que mulheres negras vêm se apossando como forma de reivindicação da presença negra no audiovisual, sobretudo enquanto diretoras. Nesse momento, o cinema negro apresenta-se como uma potência para discutir a negritude no país e especialmente na Amazônia, território etnicamente diverso e com criações que expandem os olhares para as questões que se apresentam acerca da negritude amazônida, assim como a importância das representações negras e da presença de profissionais negros em cargos de direção. Esses profissionais trilharam longos anos em busca de reconhecimento para os sujeitos negros nesse ambiente historicamente dominado pela presença branca e masculina. Para tanto, as novas perspectivas de futuro no campo cinematográfico, bem como as discussões referentes à presença de mulheres e profissionais negros no cinema, tornaram-se latentes, uma vez que grande parte dos incentivos ao setor destinava-se a poucas mãos, inserida em relações sociais e lutas de poder (hooks, 2017; Munanga, 2019).
    Alguns trabalhos possibilitam o entendimento acerca das temáticas que serão abordadas na pesquisa. Alguns retratam sobre o cinema e negritude, outros sobre o cinema e política, assim como as relações interpostas nas imagens e representações nas lentes e direção de filmes com ideias disruptivas. Por muito tempo a presença do negro no cinema focava quase que exclusivamente na representação estereotipada nas telas ou na qualidade da presença em frente às telas, tal qualidade por vezes subjulgada aos personagens brancos, chamando esforços conceituais dos porquês da ausência do negro em cargos de direção. No Brasil, esse entrave mostrou-se latente quando olhamos para diversidade étnica, territorial e geralcional nos ambientes cinematográficos do país e as poucas cadeiras destinadas à diretores negros, mulheres, LGBTQIAPN+ e outros corpos dissidentes. Tais trabalhos como os da Edileuza Penha de Souza & Ceiça Ferreira (2025), Beatriz Nascimento (1985, 2022), Viviane Cruz (2019) são alguns que nos fazem percorrer os caminhos de análise sobre a participação negra e feminina nesse espaço.
    Em busca da presença feminina e negra nos cinemas, as identidades culturais podem ser expressas tanto pelos filmes quanto pelo trabalho por trás das câmeras (Evaristo, 2017; Hall, 2006). Tal compreensão é refletida na participação social de cidadãos em um espaço de hegemonia branca, onde se expressam seja pela construção de roteiros humanizados, seja pela democratização do acesso dos profissionais negros ao cinema, bem como das mulheres negras no audiovisual (Souza, 2025). O percurso analítico da pesquisa se desdobrará entre as nuances do cinema realizado por profissionais negros, em especial por mulheres negras amazônidas, visto que a presença (ou as ausências) dessas pode nos revelar panoramas estruturais de um país que ainda inferioriza o ser e o estar delas em diferentes espaços.
    Nesse sentido, a produção fílmica das realizadoras negras atua com os saberes, isto é, saberes ancestrais que conectam memórias, conhecimentos sobre as florestas, os corpos e as vozes dos amazônidas. Enxergar o cuidado com que profissionais negros dependem desses saberes em suas produções mostram como eles organizam temáticas sensíveis às suas realidades, buscando humanizá-las nas telas, algo que, por muito tempo, foi negado às populações negras, indígenas e ribeirinhas da região. Dentro dessa perspectiva de um saber que contrapõe o discurso “oficial”, Stuart Hall interpela a ideia de que as identidades culturais se concretizam a partir dos discursos da história e das memórias. Ele completa: não são “[…] uma essência, mas um posicionamento. Daí haver sempre uma política da identidade, uma política do posicionamento, que não encontra garantia absoluta numa ‘lei da origem’ que seja desproblematizada e transcendental” (1996, p. 25). Portanto, pretende-se analisar a construção fílmica de cineastas negras da Amazônia Paraense.

Bibliografia

    BHABHA, Homi K. O local da cultura. 2. ed. Belo Horizonte, MG: Ed. UFMG, 2012.
    CRUZ, Viviane Ferreira da. Cinemas Negros: modelos de negócios viáveis às mulheres negras. Instituição de Ensino: UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, Brasília Biblioteca Depositária: BCE.
    FERREIRA, Ceiça; DE SOUZA, Edileuza Penha (Ed.). Cinema Negro no Feminino: afeto e pertencimento além das telas. Nau Editora, 2025.
    HARTMAN, Saidiya. Tempo da escravidão. Contemporânea: Revista de Sociologia da UFSCar, São Carlos, v. 10, n. 3, p. 927-948, 2020.
    HOOKS, bell. O olhar opositivo: a espectadora negra. Fora de quadro, v. 26, 2017.
    MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Autêntica Editora, 2019.
    NASCIMENTO, Beatriz. O conceito de quilombo e a resistência cultural negra. Revista Afrodiáspora, v. 3, n. 6-7, p. 41-49, 1985.
    __________, Beatriz. O negro visto por ele mesmo: ensaios, entrevistas e prosa. Org. Alex Ratts. 1. ed. São Paulo: Ubu Editora, 2022.