Ficha do Proponente
Proponente
- Francisca Mortara Barrera San Martin (USP)
Minicurrículo
- Doutoranda em Meios e Processos Audiovisuais na ECA-USP, sob orientação da Profa. Dra. Esther Hamburger. Sua pesquisa investiga a estética audiovisual do TikTok, aplicando teorias cinematográficas ao cenário digital. Com trajetória profissional em produção de mídia, foca em como a teoria do cinema pode aprofundar a compreensão das estéticas das novas mídias, buscando conectar os estudos de cinema tradicionais à lógica dos conteúdos digitais curtos.
Ficha do Trabalho
Título
- Costuras à mostra: memes e montagem no TikTok
Resumo
- Esta comunicação propõe analisar três vídeos meméticos do TikTok publicados por ocasião da prisão do ex-presidente Bolsonaro em 2025, para investigar a construção de sentido por meio da montagem. Os vídeos selecionados articulam elementos audiovisuais heterogêneos, sobrepostos em uma construção cujas costuras à mostra participam da produção de sentido. A partir dessa perspectiva, busca-se compreender a produção de sentido nesses vídeos com base em teorias da montagem.
Resumo expandido
- “Use este som”, uma das principais ferramentas do TikTok, nada mais é do que uma ferramenta de montagem que sugere ao usuário criar um novo vídeo com base no som do vídeo ao qual assiste. Criado para ser um aplicativo de sincronismo labial, o TikTok não é o primeiro a oferecer ferramentas de pós-produção, mas certamente é um dos responsáveis pela ampliação do acesso a esse tipo de ferramenta a um grande público, visto que é, atualmente, a quinta maior rede social do mundo em usuários ativos.
Com base na premissa de que o TikTok é um aplicativo em que a pós-produção tem papel primordial, essa comunicação pretende analisar três vídeos meméticos do TikTok publicados por ocasião da prisão do ex-presidente Bolsonaro, em novembro de 2025, para refletir sobre a produção de sentido em vídeos meméticos por meio da montagem. Os vídeos escolhidos para análise foram baixados e reunidos no link a seguir: https://drive.google.com/drive/folders/1fyr-4YVaIsdXbwOjBUkjvwLYaBH4Jwm8?usp=drive_link
O termo meme é, hoje, amplamente conhecido. Derivado da proposta do biólogo Dawkins para definir a menor unidade de transmissão cultural independente (1976/2017), o termo foi adotado para representar esse fenômeno da comunicação digital, o meme. Uma definição mais ampla, da pesquisadora Limor Shifman, apresenta três características desse tipo de manifestação: (a) um grupo de elementos digitais que compartilham características comuns de conteúdo, forma e/ou posicionamento; (b) criados com consciência uns dos outros; e (c) que foram compartilhados, imitados e/ou transformados via internet por muitos usuários. (Shifman, 2014, p.7, tradução minha).
O meme em vídeo, além de todas essas características, apresenta uma dimensão que, embora não lhe seja exclusiva, se impõe: por sua natureza audiovisual, o meme em vídeo pode operar pela sobreposição de registros heterogêneos. Por exemplo, o vídeo publicado pelo perfil @os_almeidas (2025) soma três elementos para contar sua história: imagem, som e texto. Na imagem, um jovem com uma câmera na mão filma a si próprio em um sótão. Ele é um dos usuários que assina o perfil Os Almeidas, composto por pai e filho. O som utilizado é um áudio viral (“Tô aqui na divisa da Rússia com a Ucrânia…”), um meme produzido por um terceiro e que circula (como meme) para significar que o interlocutor está muito distante, ou fingindo estar muito distante. O sentido dessa composição, no entanto, apenas se completa com o texto sobre a tela, que diz: “O Bolsonaro agora, se aquele ferro de solda não fosse petista”. Cada um desses elementos provém de locais diversos: o som é um meme preexistente; a imagem é do usuário; e o texto é o comentário do usuário sobre um fato externo. É na somatória desses diferentes elementos que se produz o sentido.
É, antes de tudo, um processo de montagem, mas nada semelhante à montagem invisível e contínua a que Amiel chama de montagem narrativa (Amiel, 2010). Pelo contrário, é uma mostra as suas costuras, uma montagem opaca, para usar o termo de Ismail Xavier (2005). Evocando novamente a taxonomia proposta por Amiel, essa forma se aproxima de uma montagem discursiva, em que “Justapondo duas realidades a priori sem medida comum (…) obriga cada uma dessas realidades a assumir um sentido novo, a ser olhada de outra forma, a entrar na lógica de uma significação diferente”. (Amiel, 2010, p. 49). Essas costuras aparentes não são uma novidade do meme audiovisual, também o meme estático sobrepõe elementos que, visivelmente desconexos, se conectam para produzir sentido. No meme em vídeo, porém, esse processo de construção articula não apenas imagens e textos, mas também sons. É audiovisual e é montagem. O que justifica o interesse em observar esse fenômeno sob essa perspectiva.
A proposta dessa comunicação, portanto, é analisar três vídeos do TikTok com características meméticas, pela perspectiva da montagem, visando observar como essa construção de sentido, essencialmente audiovisual, se produz.
Bibliografia
- AMIEL, Vincent. Estética da montagem. Lisboa: Texto & Grafia, 2010
DAWKINS, Richard. O Gene Egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. Originalmente publicado em: 1976.
@GREENGODICTIONARY. GRANDE DIA. TikTok: @greengodictionary. 9 nov. 2025. Vídeo. Disponível em: https://vt.tiktok.com/ZSfaGHW7R/. Acesso em: 24 nov. 2025.
@MEMESAUDOSO. bolsonaro condenado. TikTok: @memesaudoso. 9 nov. 2025. Vídeo. Disponível em: https://vt.tiktok.com/ZSfagAuaY/. Acesso em: 24 nov. 2025.
@OS_ALMEIDAS. Era só um sonho…. TikTok: @os_almeidas. 23 nov. 2025. Vídeo (10 seg.). Disponível em: https://vt.tiktok.com/ZSfUMkdYq/. Acesso em: 24 nov. 2025.
SHIFMAN, Limor. Memes in Digital Culture. Cambridge, MA: MIT Press, 2014
XAVIER, I. O discurso cinematográfico: A opacidade e a transparência. São Paulo: Paz e Terra, 2005.