Ficha do Proponente
Proponente
- Jamer Guterres de Mello (UAM)
Minicurrículo
- Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi (PPGCOM-UAM). Doutor em Comunicação pelo PPGCOM-UFRGS, com Pós-Doutorado (PNPD-CAPES) pelo PPGCOM-UAM. Integrante da Rede de Pesquisa Teoria de Cineastas e organizador dos livros “Processos de criação e reflexões teóricas no cinema” (Gênio Editorial, 2024) e “Por uma teoria compartilhada: ideias, processos e práticas de cineastas” (Fi, 2023).
Ficha do Trabalho
Título
- Diálogos entre documentário e Teoria de Cineastas: do dispositivo à política das imagens
Seminário
- Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema
Resumo
- Este trabalho utiliza a abordagem da Teoria de Cineastas para analisar o documentário como método de investigação e asserção teórica sobre o mundo. Nas obras “A Vizinha Perfeita” e “Alabama: Presos do Sistema”, discute-se a subversão de dispositivos de vigilância – “body cams” e celulares clandestinos – como resistência à violência de Estado. O estudo demonstra como a prática fílmica desloca a percepção do real e reconfigura a radicalidade do dispositivo e a política das imagens.
Resumo expandido
- A abordagem da Teoria de Cineastas tem se consolidado como um deslocamento epistemológico que investiga o cinema a partir das reflexões e práticas de seus realizadores. Nesta perspectiva, a teoria não figura como pressuposto abstrato, mas como o ponto de chegada da investigação (Penafria et al., 2016), fundamentada na premissa de que o cineasta é um formulador de pensamento consciente sobre seu ofício (Aumont, 2004). Ao reconhecer a autonomia crítica do cinema, essa abordagem permite analisar a obra cinematográfica para além de um conjunto de soluções técnicas, compreendendo seus métodos como engrenagem na política do visível e como uma mediação das relações de poder (Comolli, 2008).
No âmbito desta proposta, é particularmente importante retomar essa abordagem tendo em vista que o cinema documental não apenas instaura um diálogo relacional entre a obra e o mundo fático (Baggio, 2022), como também se configura como um método de investigação no qual o filme se consolida como pensamento crítico. Nessa perspectiva, investigar o documentário a partir da Teoria de Cineastas permite reconhecer que qualquer decisão metodológica – enquanto gesto de mediação estética destinado a sensibilizar o olhar – constitui, em essência, uma asserção teórica sobre o mundo (Penafria, 2011).
Quando o documentário se propõe a denunciar a violência de Estado, a relação entre o filme e o mundo histórico exige uma análise da radicalidade política do próprio registro. Na esteira de Nicholas Mirzoeff (2011), o cinema pode exercer o “direito de olhar” em oposição à “visualidade institucional”, reconfigurando a partilha do sensível (Rancière, 2005) ao conferir visibilidade a corpos e territórios sob interdição. Sob o prisma das “imagens operacionais” (Farocki, 2013) – registros técnicos destinados ao controle –, cabe ao cineasta subverter a finalidade funcional desses dispositivos para convertê-los em instâncias de pensamento crítico.
A aplicabilidade desta reflexão manifesta-se em dois documentários contemporâneos que exploram dispositivos técnicos de vigilância e registro clandestino como ferramentas de disputa política pela imagem. No filme “A Vizinha Perfeita” (2025), a cineasta Geeta Gandbhir subverte o uso de “body cams” e circuitos de vigilância – originalmente instrumentos de controle e prova estatal – para evidenciar o viés racial intrínseco ao olhar institucional. Sob a ótica de Nichols (2016), a obra radicaliza o modo reflexivo ao reconfigurar o dispositivo de monitoramento em uma pedagogia do olhar, que induz o espectador a identificar a construção subjetiva da ameaça. Tal operação encontra lastro na teoria de Penafria (2011), que compreende o documentário como uma mediação estética capaz de sensibilizar e indagar o espectador. Nesse caso, a escolha técnica assume a função ética de deslocar a percepção do público sobre o real, convertendo o controle em evidência crítica.
De forma análoga, em “Alabama: Presos do Sistema” (2025), o registro das imagens através de celulares clandestinos no interior de unidades prisionais ressignifica o “ato fotográfico” (Dubois, 2012) como um gesto de insubordinação radical e denúncia de violações. Como sustenta Hito Steyerl (2012), essa “imagem pobre” – marcada pela baixa resolução e pelo risco iminente da captação – detém uma potência política em relação à alta definição, visto que escapa ao controle sistêmico e instaura uma visualidade de resistência. Em ambos os filmes, as decisões metodológicas deixam de ser meras soluções técnicas para se consolidarem como sínteses teóricas sobre a experiência vivida, reafirmando o “locus” do documentário como um método de investigação e o ponto de chegada da reflexão sobre a radicalidade do dispositivo e a política das imagens.
Bibliografia
- AUMONT, J. As teorias dos cineastas. Campinas: Papirus, 2004.
BAGGIO, E. Documentário: filmes para salas de cinema com janelas. Curitiba: A Quadro, 2022.
COMOLLI, J. Ver e poder. Belo Horizonte: UFMG, 2008.
DUBOIS, P. O ato fotográfico e outros ensaios. Campinas: Papirus, 2012.
FAROCKI, H. Desconfiar de las imágenes. Buenos Aires: Caja Negra, 2013.
GANDBHIR, G. A Vizinha Perfeita (The Perfect Neighbor). Netflix, 2025.
JARECKI, A.; KAUFMAN, C. Alabama: Presos do Sistema. HBO, 2025.
MIRZOEFF, N. The Right to Look. Durham: Duke University Press, 2011.
NICHOLS, B. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2016.
PENAFRIA, M. (Org.). Tradição e Reflexões: Contributos para a teoria e estética do documentário. Covilhã: LabCom Books, 2011.
PENAFRIA, M.; BAGGIO, E.; GRAÇA, A.; ARAUJO, D. (Orgs.). Teoria dos Cineastas, Vol. 1. Covilhã: LabCom.IFP, 2016.
RANCIÈRE, J. A Partilha do Sensível. São Paulo: EXO/34, 2005.
STEYERL, H. Los condenados de la pantalla. Buenos Aires: Caja Negra, 2012.