Ficha do Proponente
Proponente
- Marthina de Alexandri Baldwin (UFSC)
Minicurrículo
- Bacharela em Cinema e Mestra em Literatura pela UFSC, com bolsa Capes. Desenvolve pesquisa sobre arquivos audiovisuais familiares e suas potencialidades para o estatuto da memória na contemporaneidade. Atua como diretora e roteirista, com os curtas-metragens “Palavras Cruzadas” (2024) e “Quarto Ato” (pós-produção). Da união entre o campo da escrita acadêmica e a realização cinematográfica, seus projetos giram em torno das temáticas de memória, relações familiares e subjetividades femininas.
Ficha do Trabalho
Título
- O arquivo familiar como matéria de pensamento em Elena (2012) e Aftersun (2022)
Resumo
- A comunicação analisa como Petra Costa e Charlotte Wells mobilizam o arquivo familiar como matéria de pensamento nos filmes Elena (2012) e Aftersun (2022). No primeiro, um filme-carta reinscreve a presença da irmã; no segundo, uma autoficção reimagina a figura paterna por meio de registros simulados. A partir da Teoria de Cineastas, propõe-se que as diretoras refletem sobre os arquivos domésticos para além de sua função de registro, situando-os no campo da fabulação e da construção da memória.
Resumo expandido
- Esta comunicação apresenta um recorte da dissertação de mestrado intitulada “O registro analógico familiar: memória em ‘Elena’ (2012), de Petra Costa, e ‘Aftersun’ (2022), de Charlotte Wells”, e analisa como suas realizadoras mobilizam o arquivo familiar como gesto de criação e pensamento, compreendendo-o como campo de fabulação no qual a memória é reconfigurada. Em diálogo com o ST, a análise parte do modo como esses filmes pensam através dos arquivos, tensionando noções de representação de si, de transparência memorial e do estatuto de verdade do arquivo.
Em “Elena”, o arquivo familiar surge como campo instável, atravessado por múltiplas temporalidades e modos de inscrição. O filme articula registros da época, como filmagens em VHS e diários de voz gravados por Elena, a imagens produzidas posteriormente por Petra em película e vídeo digital, reorganizadas pela montagem. Estruturada como uma carta endereçada à irmã ausente, a obra mobiliza narração e performance para reconfigurar experiências vividas. Nesse movimento, a memória aproxima-se da rememoração benjaminiana, entendida como reorganização do passado a partir do presente (Benjamin, 2012). Sequências como a reencenação do dia da morte de Elena e a repetição dos percursos narrados em seus diários de voz evidenciam que esses registros já nascem marcados por uma encenação de si, própria da exposição diante da câmera, na qual o sujeito se constrói de forma situada e performativa (Arfuch, 2002).
Em “Aftersun”, por sua vez, o arquivo não é recuperado, mas fabricado. As imagens em MiniDV simulam registros domésticos entre pai e filha, produzindo verossimilhança. A ambiguidade entre realidade e ficção é tensionada tanto em materiais extra-filme, como entrevistas da realizadora, quanto no próprio filme, cujos créditos afirmam seu caráter ficcional. Essa ambiguidade inscreve-se também nos procedimentos formais da obra, como na sequência em que, ao perceber-se filmado, o pai interrompe a gravação, recusando a inscrição daquele momento; ainda assim, sua imagem persiste no reflexo da televisão, enquanto a câmera extradiegética mantém o enquadramento. A cena explicita o descompasso entre experiência e registro, indicando que, embora o vivido possa escapar ao dispositivo técnico, permanece passível de rememoração. Nesse sentido, o filme mobiliza uma reflexão que se aproxima do que Derrida (1995) formula como “mal de arquivo”: o desejo de conservar acompanhado pela consciência de que toda inscrição é atravessada por uma perda constitutiva.
A análise dos filmes permite observar que, embora partam de condições distintas, ambos deslocam a compreensão da imagem como fixação do passado, tal como formulada pelas teorias ontológicas de André Bazin (1991) e Roland Barthes (1984), nas quais a fotografia e o cinema se vinculam a uma relação com a morte e à inscrição de uma presença já ausente. Em “Elena”, os arquivos são reinscritos como matéria em transformação; em “Aftersun”, a memória se reconstrói na própria fabricação do arquivo. Dessa forma, os filmes articulam temporalidades e produzem sentidos que não se esgotam na intenção autoral, fazendo da fabulação um procedimento de elaboração do luto e de construção de despedidas possíveis.
Assim, observa-se que o arquivo, nesses objetos fílmicos, deixa de operar como dado fixo do passado para se constituir como procedimento de pensamento sobre a memória. Ao reinscrever e fabricar arquivos, as diretoras tensionam noções de verdade, continuidade do eu e linearidade da experiência, apontando a lembrança como campo atravessado por operações simbólicas e poéticas. Nesse contexto, a encenação de si, a sobreposição de temporalidades e o uso de diferentes suportes constituem procedimentos que tornam visível o caráter não transparente do vivido. Logo, a contribuição da comunicação para a Teoria de Cineastas reside em compreender o gesto de criação com arquivos como dispositivo que produz diferentes modos de subjetivação e de relação com o passado.
Bibliografia
- AFTERSUN. Direção: Charlotte Wells. Reino Unido: BBC Films; A24, 2022. Filme.
ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Tradução de Paloma Vidal. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2002.
BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
BAZIN, André. O que é o cinema? Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 1991.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 2012.
DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Tradução de Claudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.
ELENA. Direção: Petra Costa. Brasil: Busca Vida Filmes, 2012.