Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Yasmim Camardelli (USP)

Minicurrículo

    Yasmim Manatta Camardelli é doutoranda em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela USP, com bolsa FAPESP (Processo 2024/02890-8, Doutorado – Fluxo Contínuo), intitulada “Como nossos pais? – Uma análise da relação entre Juventude, Classe e Cultura na teoria e na ficção da Grã-Bretanha dos anos 1960”. Mestra em Educação e graduada em Letras pela UNICAMP, pesquisa cultura, juventude e sociedade no pós-guerra britânico, com ênfase em Raymond Williams.

Ficha do Trabalho

Título

    Juventude, consumo e forma audiovisual em A Hard Day’s Night

Resumo

    A comunicação analisa A Hard Day’s Night (1964), de Richard Lester, como uma obra em que juventude, celebridade pop e consumo operam como forma audiovisual. A partir das relações entre cinema, música, televisão e publicidade, discute-se como o filme transforma circulação, velocidade, performance e estilo em sua própria substância histórica, registrando tensões da Grã-Bretanha dos anos 1960 entre welfare state, cultura juvenil e sociedade de consumo.

Resumo expandido

    Esta comunicação propõe uma leitura de A Hard Day’s Night (1964), de Richard Lester, como uma obra em que a juventude britânica dos anos 1960 não aparece apenas como tema, mas como princípio formal. O filme, estrelado pelos Beatles no auge da Beatlemania, acompanha um dia caótico da banda em meio a fãs, empresários, jornalistas, deslocamentos urbanos e compromissos televisivos. No entanto, mais do que narrar uma trajetória linear, a obra organiza-se como uma sucessão de fugas, capturas, números musicais, interrupções cômicas e deslocamentos espaciais, fazendo da circulação sua própria estrutura. A hipótese central é a sintaxe acelerada, fragmentada e performática do filme constitui também seu conteúdo histórico.
    A comunicação discutirá como o filme, nesse sentido, se afasta do musical clássico. A partir de Rick Altman (1989), entende-se que o musical tradicional depende de uma relação entre fluxo narrativo e interrupção musical. Em A Hard Day’s Night, porém, a montagem, o ritmo e a performance não servem à narrativa. Pelo contrário, eles assumem o lugar da própria organização dramática. A sequência de Can’t Buy Me Love é exemplar: os corpos correm em um campo aberto, a câmera se solta, a montagem obedece ao pulso da canção e a narrativa se suspende. Assim, o filme produz uma estética da liberdade que revela, ao mesmo tempo, a impossibilidade de sair plenamente da máquina audiovisual que transforma gesto, corpo e estilo em mercadoria. Nesse sentido, a noção de “fluxo” (WILLIAMS, 1974) em Raymond Williams ajuda a compreender o filme não como uma unidade fechada, mas como parte de uma continuidade midiática mais ampla, em a publicidade é o princípio que articula cinema, televisão, música, drama e imagem em um mesmo regime de circulação.
    Esse movimento aproxima o filme das reflexões de Stuart Hall sobre a cultura juvenil como campo atravessado por tensões entre inovação social e captura comercial, ao mesmo tempo em que permite pensar a estética, à luz das teorias da subcultura, como material significante que produz ruído e diferença, mas cuja potência de ruptura é continuamente absorvida pelo próprio sistema que o torna visível. A política que emerge desse quadro já não se organiza em torno de sujeitos coletivos estáveis, mas de superfícies móveis, signos em disputa e formas de visibilidade que circulam em um campo midiático ampliado. Nesse horizonte, a política, capturada por uma cultura do estilo, deixa de ser apenas a afirmação de identidades fixas e passa a operar como dinâmica de inscrição e circulação de diferenças que são simultaneamente generalizadas e neutralizadas. É nesse mesmo processo que se inscreve a transformação histórica mais ampla da Grã-Bretanha do pós-guerra, visível inclusive em elementos aparentemente banais do filme como a máquina automática de leite, que aponta para a passagem de uma economia moral do cuidado coletivo, associada ao welfare state, para uma sociedade em que o sujeito é interpelado como consumidor abstrato. Nesse contexto, a juventude se torna figura privilegiada dessa transição cuja função estrutural é justamente ser um grupo flutuante, um signo circulante, uma forma de endereçamento e operador central de uma cultura orientada pelo mercado
    A conclusão propõe que A Hard Day’s Night registra a emergência de um audiovisual cujo princípio organizador em nível de estética e de público é a propaganda. O filme não representa simplesmente a Beatlemania: ele a faz funcionar como forma, ao mesmo tempo em que revela uma nova atmosfera política em que o estilo, o consumo e a circulação substituem formas anteriores de organização social e experiência coletiva

Bibliografia

    A HARD Day’s Night. Direção: Richard Lester. Produção: Walter Shenson. Reino Unido: United Artists, 1964. 1 DVD (86 min), p&b.
    ALTMAN, Rick. The American Film Musical. Bloomington: Indiana University Press, 1989.
    HALL, Stuart; JEFFERSON, Tony (org.). Resistance through rituals: youth subcultures in post-war Britain. 8. impr. London: Routledge, 1991. E-book. Taylor & Francis e-Library, 2003.
    HEBDIGE, Dick. Subculture: the meaning of style. London: Methuen, 1979. E-book. Taylor & Francis e-Library, 2002.
    MAFFESOLI, Michel. The time of the tribes: the decline of individualism in mass society. Tradução de Don Smith. London; Thousand Oaks; New Delhi: Sage Publications, 1996.
    WILLIAMS, Raymond. Palavras-chave: um vocabulário de cultura e sociedade. São Paulo: Boitempo, 2007.
    WILLIAMS, Raymond. Televisão: tecnologia e forma cultural. Belo Horizonte: PUC Minas, 2016.