Ficha do Proponente
Proponente
- Ivan Gabriel Lopes (UFSC)
Minicurrículo
- Pesquisador graduando em Cinema pela UFSC. Experiência como diretor, montador, fotógrafo, diretor de arte, roteirista, ator, sonoplasta, entre outras funções. Carreira iniciada em 2018 como estagiário de Centro de Ciências Jurídicas. Participante de congressos relacionados ao cinema, como o Conacine e a Intercom Jr. Atuante em curadoria, mediação de debates, identidade visual, programação e divulgação de cineclubes, mostras e festivais de cinema, e monitor de cinema brasileiro.
Ficha do Trabalho
Título
- A fome do zumbi e o terror antropofágico de Mangue Negro
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- O presente trabalho explora o manguezal como metáfora crítica, articulando relações entre o filme de terror capixaba Mangue Negro (Rodrigo Aragão, 2008), em que zumbis emergem da lama, e o movimento contracultural pernambucano Manguebeat, que ressignifica o ecossistema como espaço de vigor criativo. Mediante análise fílmica e pesquisa bibliográfica, apuram-se as dualidades simbólicas de um ambiente historicamente marginalizado, evidenciando-o como potência de expressão e resistência artística.
Resumo expandido
- O presente artigo propõe-se a examinar de que modo o filme de terror independente Mangue Negro (2008), dirigido por Rodrigo Aragão e realizado no Espírito Santo, e o movimento artístico Manguebeat, surgido em Recife na década de 1990, articulam o ecossistema do manguezal como espaço simbólico para a construção de narrativas de resistência. Impulsionado sobretudo pelos grupos Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, o Manguebeat ressignifica o mangue como território de invenção estética e crítica social, enquanto o filme de Aragão mobiliza esse mesmo ambiente sob uma chave estética marcada pelo horror e pela sobrevivência. Parte-se, assim, da hipótese de que espaços historicamente marginalizados, assim como a lama, operam de forma dicotômica no campo simbólico, ora associados à degradação e ao abjeto, ora convertidos em matéria fértil para a criação artística e para a elaboração de discursos críticos que nos ajudam a refletir sobre a construção do zumbi em nosso contexto sócio-econômico-cultural.
Para atender a esses objetivos, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa que articula análise fílmica e investigação bibliográfica. No que diz respeito ao filme, serão examinados seus aspectos formais, estéticos e narrativos, com atenção às estratégias visuais e sonoras que constroem o imaginário do mangue como espaço liminar entre vida e morte. Em paralelo, o estudo dialoga com textos fundamentais para a compreensão do Manguebeat, como o manifesto Caranguejos com Cérebro, de Fred Zero Quatro, que delineia os princípios conceituais do movimento, além de obras de Josué de Castro, como Geografia da Fome e Homens e Caranguejos. A partir dessas referências, destacam-se categorias analíticas como adaptação, condição social e fome, estabelecendo aproximações interpretativas entre a figura dos “homens-caranguejo”, como sujeitos moldados pela precariedade e pela simbiose com o mangue, e os corpos zumbificados do filme, ambos inscritos em dinâmicas de sobrevivência que tensionam as fronteiras entre humanidade, exclusão e resistência.
Tais contrastes remetem à própria lama, constituinte característico de manguezais, pois esta pode surgir como resultado indicador da degradação da terra, mas, por outro lado, é rica em matéria orgânica e microorganismos, até mesmo abordada simbolicamente como “origem da vida” em determinados parâmetros culturais e religiosos.
Através desse enfoque dialético adotado para a análise sócio-cultural das obras selecionadas, o mangue é ainvestigado não apenas como cenário material, mas como agente ativo de dimensão simbólica, seja ele um meio de origem para o “pós-vida” de zumbis disformes, contendo sua relação com a contaminação, podridão e degradação socio-ambiental, ou como um “berço” de intervenção artística antropofágica, reimaginando e ressignificando elementos estigmatizados.
Bibliografia
- CÁNEPA, Laura Loguercio. Medo de quê? Uma história do horror nos filmes
brasileiros. São Paulo: Alameda, 2008
CARREIRO, Rodrigo; CÁNEPA, Laura. Cinema de horror: uma introdução. Recife:
CEPE Editora, 2022
CASTRO, Josué de. Geografia da fome: o dilema brasileiro: pão ou aço. Rio de Janeiro: Edições Antares, 1984.
CASTRO, Josué de. Homens e caranguejos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1967.
STETTLER, Stefany Sohn. Zumbis: a ficção do Antropoceno. Cadernos PET
Filosofia, Curitiba (UFPR), v. 19, n. 1, 2021.
ZERO QUATRO, Fred. Caranguejos com cérebro. 1992.