Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Rodrigo Cabral Oliveira (UAM)

Minicurrículo

    Psicanalista clínico com atuação em práticas integrativas e sistêmicas, além de arte-educador e pesquisador. Doutorando em Hospitalidade, investiga as relações entre desejo, alteridade e imagem no cinema. Desenvolve a Psicanálise do Desejo como campo de articulação entre clínica, estética e ética do vínculo.

Ficha do Trabalho

Título

    A imagem como gesto de hospitalidade: desejo e alteridade em Motel Destino

Resumo

    Este trabalho parte de um deslocamento: aproximar a imagem cinematográfica não como representação, mas como gesto. Em Motel Destino (Aïnouz, 2024), a análise de frames específicos permite escutar como o desejo se inscreve na imagem, em sua dimensão visual e sonora, como força que sustenta, tensiona ou recusa presença do outro. A partir de um modelo interpretativo próprio, que articula gestos do desejo e da hospitalidade, a imagem é compreendida como campo ético onde se decide quem pode existir.

Resumo expandido

    Este trabalho parte de um deslocamento: aproximar a imagem cinematográfica não como representação, mas como gesto, tomando como objeto o filme Motel Destino (Aïnouz, 2024). A análise de frames específicos orienta uma escuta da imagem não pelo que ela mostra, mas pelo que sustenta ou interrompe na presença do outro.
    Parte-se da hipótese de que a imagem cinematográfica constitui um campo ético no qual se decide quem pode aparecer, como aparece e sob quais condições. Nesse sentido, a imagem não organiza apenas o visível. Ela produz mundos. A imagem não se reduz àquilo que mostra, mas se constitui como tensão entre o que aparece e o que escapa, como propõe Didi-Huberman (2013). É nesse ponto que se aproxima da hospitalidade, compreendida não como valor, mas como gesto originário de abertura à alteridade.
    O desejo atravessa esse campo como força ambivalente. Ele convoca o outro, mas também pode capturá-lo. Aproxima, mas tensiona. Sustenta, mas dissolve. Não se trata apenas de impulso de encontro, mas de um operador da própria imagem, aquilo que define as condições de presença do outro no campo do visível. Em Lacan (1998), o desejo é estruturado por uma falta que impede sua fixação plena, mantendo o outro como aquilo que nunca se esgota na relação.
    Este trabalho se inscreve como desdobramento de uma proposta metodológica anterior, na qual a imagem é compreendida como campo de escuta do desejo. A partir desse percurso, propõe-se aqui uma aplicação situada, por meio da análise de frames selecionados por sua intensidade. Não se trata de centralidade narrativa, mas daquilo que pulsa como excesso, silêncio ou ruptura.
    A escolha do filme se orienta por sua inscrição no campo do cinema brasileiro contemporâneo de caráter alternativo, no qual se tensionam formas de desejo, regimes de visibilidade e modos de presença do corpo. Ao se afastar de estruturas narrativas estabilizadas, a obra abre um campo de instabilidade em que o vínculo não se apresenta como dado, mas como algo sempre em disputa.
    A leitura se organiza a partir de um modelo interpretativo que articula cinco gestos de escuta do desejo. A escolha do fragmento como sintoma, a cartografia da linguagem e do suporte, a leitura formal como expressão de vínculo, o atravessamento simbólico pela matriz do desejo e a indagação ética do olhar. Esses gestos não operam como etapas fixas. Eles se entrelaçam, exigindo do olhar uma implicação que não se separa do que é visto.
    A esse percurso somam-se três gestos de leitura da hospitalidade. Hospitalidade, quando a imagem sustenta a presença do outro como alteridade. Hostilidade, quando o outro é reduzido, capturado ou silenciado. Hostipitalidade, quando a imagem oscila entre acolher e recusar, revelando uma ambivalência que atravessa o vínculo. Como afirma Derrida (2003), a hospitalidade está sempre atravessada por uma tensão que a coloca entre abertura e recusa.
    No contexto de Motel Destino (Aïnouz, 2024), a imagem se constrói como campo de intensidade. Corpos próximos, luzes quentes, enquadramentos que comprimem o espaço. Tudo parece aproximar. No entanto, essa proximidade não garante o encontro. O outro aparece, mas nem sempre se sustenta como presença. O desejo convoca, mas também captura. A imagem acolhe, mas sob condições.
    A análise dos frames evidencia que a imagem não exclui o outro de forma direta, mas também não o sustenta plenamente. Opera em um regime de instabilidade, no qual o vínculo se torna frágil e o desejo, ambivalente. Trata-se de uma imagem que deseja o outro, mas ainda não suporta sua alteridade. Como propõe Lévinas (2000), o outro não pode ser reduzido a objeto, pois sua presença excede qualquer forma de apropriação.
    Propõe-se compreender a imagem cinematográfica como campo ético onde o mundo se faz ou se desfaz. Talvez o fim do mundo não seja catástrofe, mas o momento em que o outro já não pode aparecer. Reinventar mundos dependeria, então, de sustentar essa presença, mesmo quando ela desestabiliza o que se vê.

Bibliografia

    Aïnouz, K. (Director). (2024). Motel Destino [Film].

    Barthes, R. (1984). A câmara clara. Nova Fronteira.

    Benjamin, W. (2012). Magia e técnica, arte e política. Brasiliense.

    Butler, J. (2015). Corpos em aliança e a política das ruas. Civilização Brasileira.

    Derrida, J., & Dufourmantelle, A. (2003). Da hospitalidade. Escuta.

    Didi-Huberman, G. (2013). Diante da imagem. Editora 34.

    Lacan, J. (1998). O seminário, livro 11. Zahar.

    Lévinas, E. (2000). Totalidade e infinito. Martins Fontes.

    Mbembe, A. (2017). Crítica da razão negra. n-1 edições.

    Mulvey, L. (1989). Visual and other pleasures. Palgrave.

    Santos, B. de S. (2010). A gramática do tempo. Cortez.