Ficha do Proponente
Proponente
- Mel Graco Fonseca Duarte (UFJF)
Minicurrículo
- Mel Graco é mestranda em Artes, Cultura e Linguagens (PPG-ACL/UFJF) e bacharel em Cinema e Audiovisual (UFJF). Realiza a pesquisa “Espectadora subversiva: o erótico no cinema feminino contemporâneo”, abrangendo estudos da teoria feminista, a relação entre cinema e arte pictórica, espectatorialidade, limites representacionais e erotismo, temas que trabalha desde sua monografia intitulada “Je, tu, il, elle: as relações entre sujeitos e a subversão da espectatorialidade”.
Ficha do Trabalho
Título
- Vênus ao espelho: uma análise de Retrato de uma Jovem em Chamas (2019) e Romance (1999)
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- O presente trabalho objetiva realizar uma análise comparativa entre os aspectos revisionistas do quadro Vênus ao Espelho (Diego Velázquez, 1647) e os filmes Romance (Catherine Breillat, 1999) e Retrato de Uma Jovem em Chamas (Portrait de la jeune fille en feu, Céline Sciamma, 2019), a fim de estudar a dualidade do feminino e a concomitância de sua condição como imagem e sujeito, significante e significado.
Resumo expandido
- Em 1914, Mary Richardson, uma militante sufragista, ataca a obra “Vênus ao espelho” (Diego Velázquez, 1647), na Galeria Nacional de Londres. Em 1952, ao relembrar do seu ato de protesto, Richardson afirma que uma das razões pela qual escolheu a obra de Velázquez foi porque não gostava da forma como os homens na galeria admiravam-a de boca aberta (Nead, 1992, p.34). Essa afirmação antecipou uma das principais preocupações culturais do feminismo, que tomaria grandes proporções a partir da década de 1970, a partir do texto seminal de Laura Mulvey, “Prazer visual e cinema narrativo”: a conceitualização e crítica do “male gaze”.
Desse modo, apesar de alguns autores — como Lynda Nead — colaborarem com a visão de Richardson a respeito da “Vênus ao espelho”, enfatizando que a obra não oblitera o ideal patriarcal de feminilidade da tradição do nu feminino reclinado, outros autores — como Edward Snow — propõem que o quadro possui um aspecto revisionista, apresentando uma experiência visual menos fixa e sádica do que a crítica ao male gaze sugere. Ou seja, observa-se que a pintura de Velázquez carrega uma ambiguidade, que é interpretada de maneiras distintas dentro dos estudos feministas e nas discussões sobre o olhar masculino.
Logo, partindo do pressuposto que o quadro oferece uma experiência espectatorial distinta, pode-se considerar que a obra é referência para a composição de um plano fílmico em Romance (Catherine Breillat, 1999) e outro de Retrato de Uma Jovem em Chamas (Portrait de la jeune fille en feu, Céline Sciamma, 2019). Ambos os filmes contemporâneos, dirigidos e protagonizados por mulheres, além de resgatarem aspectos do quadro, também possuem uma perspectiva feminista, que devolve a autoridade do desejo do olhar para as mulheres representadas.
Por conseguinte, este trabalho propõe uma análise comparativa entre o quadro de Velázquez e os dois filmes supracitados, a partir da perspectiva da relação entre o corpo e a face refletida que, nas obras relacionadas, insinua uma ambivalência do feminino. Ademais, cabe também investigar quais elementos da pintura renascentista são preservados ou modificados pelos filmes, com o propósito de identificar como as obras realocam o desejo feminino na imagem. Nesse sentido, a comparação entre as obras desencadeia discussões pertinentes ao estudo da representação feminina e a concomitância de sua condição como imagem e sujeito, significante e significado.
Bibliografia
- BATTERSBY, Christine. Gender and genius: towards a new feminist aesthetics. Bloomington e Indianapolis: Indiana University Press, 1989.
KAPLAN, E Ann. mulher e o cinema: os dois lados da câmera. Trad. Helen Marcia Potter Pessoa. Rocco: Rio de Janeiro, 1995.
MULVEY, Laura. “Prazer visual e cinema narrativo”. In: XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro e São Paulo: Editora Paz e Terra, 2018, p. 220-237.
NEAD, Lynda. The Female Nude: Art, Obscenity and Sexuality. Londres: Routledge, 1992.
SNOW, Edward. Theorizing the Male Gaze: Some Problems. In: Representations. nº25, 1989, p. 30-41.
WILLIAMS, Linda. Screening Sex. Durham e Londres: Duke University Press, 2008.