Ficha do Proponente
Proponente
- Luciana Santos de Souza (UFPEL)
Minicurrículo
- Luciana Santos é estudante de Cinema de Animação na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) desde 2023, com foco de interesse em modelagem e animação 3D e design de som. Possui interesse em narrativas criativas e técnicas audiovisuais. Busca, por meio do cinema de animação, contribuir para a transformação social, abordando pautas sociais e raciais relevantes.
Ficha do Trabalho
Título
- A representação de meninas negras na animação infantil brasileira nos canais de TV aberta em 2026.
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- Este estudo analisa a representação de meninas negras na animação infantil brasileira exibida na TV aberta em 2026. Com a televisão presente em 93,9% dos lares brasileiros, o meio é o mais acessível para famílias de menor renda. A partir de abordagem qualitativa e perspectiva interseccional, examina Lili e Milena, personagens de Meu Amigãozão e Turma da Mônica respectivamente, quanto a marcadores de raça e gênero, identificando avanços e limites na representatividade.
Resumo expandido
- Este estudo investiga a representação de meninas negras na animação infantil brasileira exibida no primeiro semestre de 2026 nos canais de TV aberta com programação voltada à animação. Embora existam cerca de 22 canais de TV aberta no Brasil, apenas três exibem regularmente conteúdos infantis animados: TV Cultura, SBT e TV Brasil.
Na TV Cultura, entre aproximadamente 30 animações exibidas ao longo da semana, 13 são produções brasileiras, sendo que somente Meu Amigãozão e Turma da Mônica apresentam personagens femininas negras em torno de 8 anos, sendo Lili na primeira e Milena na segunda. Turma da Mônica também é transmitida pelo SBT aos sábados no programa Sábado Animado, cuja grade inclui 9 animações, das quais apenas 2 são brasileiras. Destaca-se que exclusivamente no SBT são exibidos episódios produzidos a partir de 2019, período em que a personagem Milena passa a integrar o núcleo principal. Já a TV Brasil apresenta uma programação restrita e predominantemente estrangeira, sem grade fixa de animação infantil.
No contexto brasileiro, marcado por desigualdades raciais e socioeconômicas, torna-se essencial analisar essas representações. Esse cenário se agrava quando consideradas as condições de acesso à conteúdos audiovisuais. De acordo com a PNAD Contínua (IBGE, 2024), embora existam 79 milhões de domicílios (60,9% com crianças), entre 5,9 e 6 milhões ainda não possuem internet. Por outro lado, a televisão está presente em 93,9% dos lares, enquanto apenas 43,4% utilizam streaming e 24,3% têm TV por assinatura. Esses dados reforçam a televisão aberta como o meio mais acessível, especialmente para famílias de menor renda, limitando o alcance de produções com maior diversidade racial quando restritas a outras plataformas.
Metodologicamente, a pesquisa adota abordagem qualitativa (Gil, 2008), de caráter exploratório e interpretativo, com base no estudo dos episódios: “Meu adesivo predileto” (2010, Meu Amigãozão, temporada 1, ep.43) e “Uma noite de cão” (2021, Turma da Mônica, temporada 3, ep.7). O critério de seleção considera a centralidade narrativa das personagens Lili e Milena nesses episódios, meninas negras que integram o núcleo principal.
O estudo investiga Lili e Milena a partir da construção visual e do desenho das personagens para a técnica 2D, usada nas animações, considerando características físicas e comportamentais, com atenção aos marcadores de raça e gênero como tipo de cabelo, tonalidade de pele e traços faciais; e também os elementos visuais e estéticos, incluindo traços, cores, figurinos e demais recursos visuais que contribuem para a construção das personagens.
A análise baseia-se no conceito de representação de Martín-Barbero (2001) e na perspectiva interseccional de Crenshaw (2002) e Collins (2000), entendendo raça e gênero como dimensões articuladas. Conforme bell hooks (2019), as representações midiáticas influenciam a formação de subjetividades, podendo reforçar estereótipos ou ampliar possibilidades de identificação. Dialoga-se também com Prado (2019), que evidencia tensões entre avanços e permanências nas construções de gênero em animações brasileiras.
A pesquisa se justifica pela relevância da animação infantil na formação do imaginário social e de percepções de identidade. Para a ANCINE (2016), o acesso ao audiovisual nacional é um direito das crianças, fundamental para o contato com produções que refletem nossa cultura e sua diversidade. A pesquisa também incorpora o posicionamento da autora, estudante de Cinema de Animação na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e mulher negra, cujo interesse se volta à representação e representatividade em produções infantis, com foco em gênero e raça. Por fim, o estudo identifica avanços na inclusão dessas personagens, bem como limitações persistentes, especialmente quanto à centralidade narrativa e à construção de identidades negras para além de estereótipos.
Bibliografia
- ANCINE. Políticas culturais para a infância. Brasília, 2016. Disponível em: https://acesse.one/le87fjq . Acesso em: 24 abr. 2026.
COLLINS, P. H. Black feminist thought: knowledge, consciousness, and the politics of empowerment. New York: Routledge, 2000.
CRENSHAW, K. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 171–188, 2002.
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
HOOKS, B. Olhares negros: raça e representação. São Paulo: Elefante, 2019.
IBGE. PNAD Contínua. Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https://acesse.one/bryovd0. Acesso em: 24 abr. 2026.
MARTíN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001.
PRADO, L. Séries de animação brasileiras: expressão e gênero em O Show da Luna, Meu AmigãoZão e Irmão do Jorel. 2019. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – UFJF, Juiz de Fora, 2019.