Ficha do Proponente
Proponente
- NATALI CONDORI MAMANI (USP)
Minicurrículo
- Natali Mamani é realizadora audiovisual, integrante da Rede Katahirine – Rede Audiovisual das Mulheres Indígenas, do Coletivo Cholitas da Babilônia e assistente de projetos audiovisuais no Instituto Catitu – Aldeia em Cena. Fez parte do 32º Programa de Exposições CCSP (2022). Mostra “Demarcação das telas e revolução das imagens: celebrando a produção audiovisual indígena no Brasil” (IMS, 2023) e no ECHOES – Indigenous Film Festival – produzido pela People’s Palace Projects, Londres e Paris, 2023
Ficha do Trabalho
Título
- OLHARES INDÍGENAS ATRAVÉS DO CINEMA: Experimentações poéticas das mulheres indígenas
Seminário
- Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos
Resumo
- A seguinte proposta visa analisar as experimentações poéticas de três produções audiovisuais de mulheres indígenas de diferentes povos, para elucidar as relações e proximidades entre as práticas mais disruptivas do cinema e a cosmovisão dos povos indígenas. Com o objetivo de discorrer sobre a profundidade e complexidade das variadas produções feitas por mulheres indígenas, trazendo suas diferentes vozes, etnias, modos de viver e pensar.
Resumo expandido
- Esta proposta nasce de experiências pessoais como parte dessa parcela de mulheres indígenas que encontraram na experimentação audiovisual uma abertura para falar sobre processos identitários, de território e cosmovisões. Como realizadora experimental, posso dizer que o cinema tornou-se parte do meu processo de cura e de um novo olhar para o mundo, pois através das câmeras posso transmitir e atravessar fronteiras, transitando entre a imagem, o som e a voz. Quase que instintivamente pela urgência de transbordar o que carregava em meu ser, realizei meu primeiro filme no formato de ensaio. Uma produção sem se preocupar com narrativas cartesianas ou estéticas sonoras-visuais convencionais. Em THAKHI (2020), meu primeiro filme, apresento imagens gravadas com um celular e um som gravado no quarto da minha casa, onde narro intimamente minha história de migração e identidade indígena, trazendo paisagens da janela do ônibus que parte de São Paulo para La Paz/Bolívia minha cidade natal e os territórios dos meus pais: a comunidade de Santa Barbara nos Yungas (selva em Aymara) e Achacachi, em Omasuyos, passando também por Puno/Peru onde vive minha tia. Thakhi surge durante a pandemia, as imagens foram gravadas em 2019, durante uma viagem em família que fiz, o mesmo trajeto que muitas pessoas da comunidade boliviana costumam fazer todos os anos, para reencontrar seus territórios de origem e familiares. Assim em 2020 quando uma amiga me propôs apresentar algo durante um festival online (Festival Cultura Viva) logo sugeri exibir o filme que ainda nem estava editado. Com os poucos conhecimentos de montagem e edição audiovisual fiz Thakhi (caminho em aymara), orientada pela minha sensibilidade e simplicidade das palavras que surgiam ao deixar quase que uma carta ao mundo, movida pela vontade de dizer “eu existo”.
Assim, esta proposta pretende traçar um diálogo entre a experimentação audiovisual e as produções audiovisuais feitas por mulheres indígenas. Onde apesar das dificuldades de acesso a equipamentos de alta qualidade elas transmutam esse objeto que captura a imagem para uma ferramenta com alma, que comunica no íntimo daqueles que assistem e atravessa o espaço-tempo, preenchendo lacunas deixadas por uma história que por anos foi narrada a partir do olhar, voz e imagem do colonizador. Daquele que delimita o que é válido e o que deve ser descartado dentro da disputa pela memória. Da mesma forma esta discussão será guiada a partir da cosmovisão indígena, atravessando fronteiras da linguagem e meios de produção, para pensar no cinema como algo intrínseco à subjetividade humana. Representando em si as diversas formas de manifestação do “ser”, sem necessariamente precisar cumprir uma categoria específica para ser validada. Assim como diz Patrícia Ferreira Pará-Yxapy (2022, p. 84), sobre a ideia de fronteira, espaço, paisagem:
“Para os não-indígenas existem diferentes categorias para os espaços, para nós Mbyá, não existe separação entre espaço, território, paisagem, lugar e região. Tudo isso para gente é a Yvy Rupá. Também não existe a separação entre a natureza e o humano. Para nós não existe espaço individual e antigamente não existia um território delimitado, ou seja, demarcado, definido de forma que essa delimitação obedeça a uma relação de posse ou poder.” (PARÁ-YXAPY, 2022, p. 84)
Para iniciar essa análise será apresentado um panorama breve dos filmes disponíveis no acervo online da Rede Katahirine – Rede Audiovisual das Mulheres Indígenas e dos dados coletados no “Mapeamento do cinema indígena no Estado de São Paulo” feito em parceria do Instituto Catitu – Aldeia em Cena e o Observatório da SPCine (2025). Os filmes analisados serão de três integrantes da Rede Katahirine, sendo eles:
1. OONI – Lily Baniwa, 6min41 (2022)
2. Ãjãlí Numã: o jogo de cabeça dos Manoki e Mỹky – Tipuici Manoki, 1h11min (2025)
3. THAKHI, 34min (2021) – Natali Mamani
Bibliografia
- ADORNO, Theodor. O ensaio como forma. In: ADORNO, Theodor. Notas de literatura 1. 1. ed. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003.
BAJAS, María Paz. La Cámara en manos del otro. El estereotipo en el video indígena mapuche. Revista Chilena de Antropología Visual – número 12 – Santiago, diciembre 2008
BRENEZ, Nicole. Por uma história do cinema insubordinada (ou rebelde). Tradução: Camila Vieira da Silva. Framework: The Journal of Cinema and Media, v. 50, n. 1-2, p. 197-201, 2009. Disponível em: https://www.frameworknow.com/50-1-2-brenez. Acesso em: 5 set. 2025.
MACHADO, Arlindo. A arte do vídeo. Editora Brasiliense S.A, 1995
MACHADO, Arlindo. Pioneiros do vídeo e do cinema experimental na América Latina. Significação: revista de cultura audiovisual, vol. 37, núm. 33, 2010, pp. 21-40 Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.
PARÁ-YXAPY, Patrícia Ferreira. Sentidos do chão [Livro eletronico] . Organização: Ana Luiza Nobre e Caio Calafate. 2022. Pág. 62.