Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Daniela Corrêa Siqueira (UFF)

Minicurrículo

    Professora de Língua Francesa e doutoranda em Cinema e Audiovisual (UFF). Mestre em Letras, em Estudos de Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É Bacharel e Licenciada em Letras Português/Francês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Participa do Projeto de Extensão Cinema de Grupo e Práticas de Cuidado, credenciado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e do grupo de pesquisa: Ficção: arqueologia, antropologia e materialidade do conceito (UERJ).

Ficha do Trabalho

Título

    Cinema de Grupo com professores: outras formas de experimentar e vivenciar o cinema e o mundo

Eixo Temático

    ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL

Resumo

    O presente trabalho tem como objetivo articular reflexões em torno das práticas de processos de criação e experimentação com cinema, mais especificamente o Cinema de Grupo com professores. Analisaremos como o Cinema de Grupo pode romper com lógicas pré-estabelecidas, propondo mundos em constante reinvenção, através da experimentação e do encontro com o imprevisto. Investigaremos como, em tempos de crise, podemos “gerar grupos”, abertos ao acaso e a criação de novos territórios.

Resumo expandido

    Esta pesquisa resulta dos encontros de Cinema de Grupo com professores, os quais são impulsionados por processos criativos coletivos, desencadeados pela pedagogia do dispositivo que utiliza elementos do cinema como disparadores para as experimentações. Tais práticas são desenvolvidas no Kumã, projeto de extensão do Laboratório de Pesquisa e Experimentação em Imagem e Som, da Universidade Federal Fluminense. Entendido como uma prática coletiva e processual de criação de imagens, o Cinema de Grupo, nos oferece um terreno fértil para investigar como a formação de grupos podem gerar desterritorializações, mas também abrir caminhos para novas territorialidades. Vale ressaltar que ao nos referirmos aqui a coletivo, buscamos manter a noção que Migliorin aborda em seu livro Cinema e Clínica (2022), por isso damos preferência à utilização da palavra grupo, pois há uma distinção relevante entre grupo e coletivo:

    A palavra grupo talvez faça o leitor pensar em conjuntos fechados de pessoas que têm uma identidade comum. […] pensamos a ideia de grupo de maneira bem distinta: não identitária e aberta. Poderíamos trabalhar com a noção de coletivo, entretanto, nos últimos tempos, a noção tem remetido a grupos auto-gestionados de produção ligados à arte e à militância. Dessa ideia gostaríamos de nos distanciar, apesar, é claro, de haver ressonâncias claras entre os coletivos e a noção de grupo com que aqui estamos trabalhando (MIGLIORIN, 2022, p. 24).

    Inspirados por Migliorin, mas também Deleuze e Guattari entre outros, analisamos em nossa pesquisa, como os territórios simbólicos são construídos. A questão do “gerar grupo” é central aqui, pois o grupo não é apenas um conjunto de indivíduos, mas uma força produtiva que emerge de encontros e conexões. Essa emergência, muitas vezes marcada pela imprevisibilidade e pelo acaso, o é crucial para romper com lógicas territoriais rígidas. Deleuze vai sugerir que dentro de um grupo é preciso analisar os desejos, tanto individuais quanto os dos outros, além de identificar e seguir as “linhas de fuga” da sociedade capitalista.

    Trata-se em […] de implantar no interior do grupo as condições de uma análise do desejo, do desejo pessoal e do desejo dos outros; seguir os luxos que constituem as tantas linhas de fuga da do sociedade capitalista e promover disrupções, impor rupturas ao próprio seio do determinismo social e da causalidade histórica; criar as condições de surgimento de agentes coletivos de enunciação capazes de elaborar novos enunciados do desejo; constituir, em vez de uma vanguarda, grupos adjacentes aos processos sociais, grupos que que se dediquem apenas a fazer avançar a verdade por caminhos ela jamais percorreria em condições normais; em resumo, uma subjetividade revolucionária com determinações econômicas, políticas, libidinais etc. (DELEUZE, 2004, p. 15).

    Ou seja, para além dos caminhos alternativos que escapam ao controle das normas, é necessário criar rupturas e pensar de forma diferente, o que seria possível dentro de um grupo, pois é mais fácil expressar juntos novas ideias e desejos que não seriam possíveis expressar individualmente. Para que isso ocorra, o grupo seja formado, se faz necessário uma desterritorialização para que outros territórios possam existir. O acaso, longe de ser mera aleatoriedade, pode ser compreendido como um campo de potencialidades que o Cinema de Grupo é capaz de capturar e transformar através de imagens. Diante dos “Fins do mundo”, que podem ser interpretados como colapsos de sistemas e modelos, o Cinema de Grupo propõe “mundos sem fim”, isto é, espaços de experimentação e criação contínua. A desterritorialização, nesse sentido, não é uma perda, mas uma liberação de forças, uma capacidade de se mover para além dos limites impostos, criando novas formas de ser e de ver o mundo através da lente coletiva e do encontro com o imprevisto.

Bibliografia

    CID, Viviane de Carvalho; SIQUEIRA, Daniela Corrêa. A (DE)FORMAÇÃO DE PROFESSORES: CINEMA, SENSIBILIDADE E EXPERIMENTAÇÕES… In: Anais do seminário internacional de linguagens, culturas, tecnologias e inclusão. Anais…Castanhal(PA) IFPA, 2024.

    DELEUZE, Gilles. Três problemas de grupo. In: GUATTARI, Félix. Psicanálise e transversalidade: ensaios de análise institucional. Tradução de Gilda de Castro e Silva. Aparecida: Ideias & Letras, 2004.

    MIGLIORIN, Cezar. et al. Cinema de grupo, notas de uma prática entre educação e cuidado. Revista GEMInIS, v. 11, n. 2, p. 149-164, mai./ago. 2020.

    MIGLIORIN, Cezar. Cinema e clínica: a criação em processos subjetivos e artísticos. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2022.

    OLIVEIRA JR., Wenceslao Machado de. Uma educação e um Cinema no terreno? o espacial e as imagens verdadeiras em Fernand Deligny e Cao Guimarães. In: FRESQUET, Adriana (Org.). Cinema e educação: a lei 13.006 – Reflexões, perspectivas e propostas. Belo Horizonte: Universo Produção, 2015.