Ficha do Proponente
Proponente
- Luna Gonçalves Dalama (USP)
Minicurrículo
- Mestra pelo Programa de Pós-graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA) da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), com defesa da dissertação “Cinemátria: representações maternas no cinema brasileiro contemporâneo (2015-2022), em dez/2025. Possui graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (2008). Especialista em Mídia, Informação e Cultura pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (CELACC), da ECA-USP.
Ficha do Trabalho
Título
- Mulheres-mães contra o sistema: Olga, Zuzu Angel, Pureza e Eunice Paiva no cinema brasileiro
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- O que o cinema nacional contemporâneo nos conta sobre a trajetória e a luta de mulheres-mães contra o nazifascismo, a ditadura militar e o trabalho escravo no Brasil? Olga Benário Prestes, Zuzu Angel, Pureza Lopes Loyola e Eunice Paiva foram algumas das muitas mulheres reais que se opuseram ao sistema, arriscaram suas vidas, foram perseguidas, presas e/ou torturadas pelos regimes vigentes. Nesta apresentação, analisaremos quatro filmes de ficção inspirados nessas importantes figuras históricas.
Resumo expandido
- Após dissertação defendida no fim de 2025, na ECA-USP, sob o título “Cinemátria: representações maternas no cinema brasileiro contemporâneo (2015-2022), a autora dá continuidade a suas pesquisas sobre mulheres-mães no cinema nacional, desta vez com quatro figuras reais que lutaram contra o sistema e que precisam ser lembradas: Olga Benário Prestes (1908-1942), Zuzu Angel (1921-1976), Pureza Lopes Loyola (1943-) e Eunice Paiva (1929-2018), representadas, respectivamente, nos filmes “Olga” (2004), dirigido por Jayme Monjardim; “Zuzu Angel” (2006), de Sérgio Rezende; “Pureza” (2022), de Renato Barbieri; e “Ainda Estou Aqui” (2024), de Walter Salles. Este último recebeu três indicações ao Oscar 2025, venceu na categoria de Melhor Filme Internacional, e a protagonista Fernanda Torres levou o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama.
O que o cinema brasileiro contemporâneo nos conta sobre a trajetória e a luta dessas mulheres-mães contra o nazifascismo, a ditadura militar, a repressão e o trabalho escravo no país? Olga, Zuzu, Pureza e Eunice foram algumas das muitas mulheres reais que se opuseram ao sistema, arriscaram suas vidas, foram ativistas, e também perseguidas e/ou presas e torturadas pelos regimes vigentes. Nesta apresentação, analisaremos os quatro filmes de ficção citados, inspirados nessas importantes figuras históricas, e questionaremos pontos como o fato de todas as obras terem sido dirigidas por homens. Além disso, dos livros escritos sobre essas mulheres, apenas o mais recente de Zuzu tem autoria feminina.
Nascida na Alemanha e naturalizada brasileira, Olga foi perseguida na Era Vargas por ser mulher, comunista e judia. Casada com Luís Carlos Prestes, símbolo do Partido Comunista, foi deportada em 1936, presa grávida pela Gestapo e executada numa câmara de gás pelo regime nazista em um campo de extermínio, aos 34 anos. Em entrevista recente no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, em São Paulo, Fernando Morais declarou que foi por meio do filme que muitos brasileiros conheceram a história de Olga e se interessaram em ler a biografia escrita por ele.
Já Zuzu Angel, nascida Zuleika de Souza Neto, foi uma importante estilista que teve o filho assassinado pela ditadura militar e usou sua influência para denunciar o caso internacionalmente. Em 1976, seu carro perdeu o controle ao sair de um túnel no Rio de Janeiro, e ela morreu na hora. Parecia um acidente automobilístico, mas foi um crime cometido pelo Estado brasileiro contra uma mulher que lutava por justiça e pelo direito de enterrar o filho. Em 2017, sua certidão de óbito foi alterada e retificada: morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro. Zuzu entrou para o livro do Heróis e das Heroínas da Pátria. Em 1977, Chico Buarque lançou uma música em sua homenagem, “Angélica”: “Quem é essa mulher que canta sempre esse estribilho? Só queria embalar meu filho que mora da escuridão do mar”.
Pureza virou símbolo do combate à escravidão moderna e à exploração extrema de trabalhadores. Em 1993, seu filho caçula partiu para trabalhar e não deu mais notícias. Suspeitando que havia algo errado, Pureza iniciou uma empreitada sozinha que durou três anos, até localizar o rapaz numa fazenda distante. No caminho, conheceu pessoas que passaram décadas trabalhando sem receber salário, vivendo em condições degradantes, violentas e sem poderem voltar para casa. Pureza recebeu em Londres a medalha da organização não governamental Anti-Slavery International.
Eunice Paiva, por sua vez, era casada com o engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva e viu sua vida mudar radicalmente após o marido ser preso pela ditadura. A dona de casa também chegou a ser presa e torturada. Formou-se em Direito e virou ativista dos direitos humanos, sobretudo de causas indígenas e de famílias de desaparecidos políticos. O reconhecimento do governo brasileiro de que Rubens Paiva foi morto pelo Estado só veio em 1996. “Ainda Estou Aqui” apresenta essa história do ponto de vista de Eunice e dos filhos.
Bibliografia
- DESBOIS, Laurent. A odisseia do cinema brasileiro: da Atlântida a Cidade de Deus. Tradução de Julia da Rosa Simões. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
KAPLAN, E. Ann. Motherhood and representation: the mother in popular culture and melodrama. London and New York: Routledge, 1992.
MACHADO, Sandra de Souza. Entre santas, bruxas, loucas e femmes fatales: (más) representações e questões de gênero nos cinemas. Curitiba: Editora Appris, 2019.
MORAIS, Fernando. Olga. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
MORETTIN, Eduardo; NAPOLITANO, Marcos (orgs.). O cinema e as ditaduras militares: contextos, memórias e representações audiovisuais. São Paulo: Intermeios, 2018.
PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015.
RAMOS, Fernão Pessoa; SCHVARZMAN, Sheila. Nova história do cinema brasileiro. Volume 2. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2018.
STARLING, Virginia Siqueira. Quem é essa mulher?: Uma biografia de Zuzu Angel. São Paulo: Todavia, 2025.