Ficha do Proponente
Proponente
- Lane Lopes de Souza (UFRJ)
Minicurrículo
- Lane Lopes é roteirista, pesquisadora e educadora. Mestranda em Artes da Cena pela UFRJ com dupla formação em Cinema e Audiovisual e Ciências Sociais, ambas licenciaturas pela UFF. Também foi aluna de mobilidade na Universidade do Porto (PT) em 2017. Desenvolve pesquisa em dois eixos: 1 – processo de criação e experimentação em dramaturgia; 2 – processos pedagógicos nos estudos de cinema de grupo.
Ficha do Trabalho
Título
- Um Filme Sobre a Gente: Cinema, Experiência e Território
Eixo Temático
- ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL
Resumo
- O seguinte trabalho reflete sobre as experiências pedagógicas no projeto “UM FILME SOBRE A GENTE” voltado para introduzir a linguagem cinematográfica para jovens em situação de vulnerabilidade social e econômica, realizado nas cidades de Belford Roxo, Duque de Caxias, Volta Redonda e Osasco. Através de oficinas os jovens aprendem e experimentam enquanto realizam seu curta-metragem. Em todas suas edições o projeto foi financiado por editais públicos de fomento a arte e a cultura como a PNAB.
Resumo expandido
- “Um Filme Sobre A Gente” foi idealizado pelo coletivo De Saber formado por educadores egressos da licenciatura em Cinema da UFF e já aconteceu em 4 cidades, sempre financiado por editais públicos, alcançando mais de 40 alunos. Durante as experiências do projeto abrimos inscrições que priorizam jovens de grupos minorizados com pouco acesso a recursos materiais e capital cultural, muitas vezes ávidos de oportunidades de formação.
O projeto compreende a educação audiovisual como algo fundamental na formação do ser social contemporâneo, tanto pelo seu potencial no desenvolvimento de um pensamento crítico, mas também por ser um artifício relacional do eu com o outro e com o mundo. Através da promoção de experiências estéticas que partem da imagem e do som, o sujeito educando tem a possibilidade de produzir e expressar subjetividade, se relacionando com outras pessoas, com o território, com diferentes visões de mundo.
Partimos de uma referência comum que é a Pedagogia do Dispositivo, pesquisada no Laboratório Kumã do departamento de Cinema e Audiovisual da UFF. Acreditamos que as atividades a partir de dispositivos têm um grande potencial pedagógico por promover processos de aprendizagens, relativamente independente da idade ou do conhecimento prévio, estimulando processos colaborativos e experimentações livres. De maneira resumida, os dispositivos seriam esses gestos mínimos do fazer audiovisual que mobilizam a criação de imagens e sons a serem compartilhadas em grupos.
Como referências bibliográficas, recorro ao “Notas Sobre o Saber da Experiência” de Larrosa Bondía para trazer noções importantes que desmistificam abordagens tecnicistas e cumulativas dentro de uma análise da aprendizagem. Mais do que formar sujeitos tecnicamente capacitados e bem informados, o enfoque está em pesquisar como podemos produzir experiências de aprendizado, promovendo um ambiente onde as pessoas se encontrem disponíveis a se arriscar, a aprender e escutar o outro.
Com as novas gerações totalmente inseridas em uma cultura audiovisual, sabemos que nem sempre a familiaridade com os recursos digitais acompanha uma formação crítica, técnica ou profissionalizante. A pesquisadora Bernadette Lyra se deteve na catalogação e nos estudos de um nicho de produção audiovisual que nomeou de Cinema Periférico de Bordas, a partir do qual destaco um elemento importante para análise deste trabalho: a ideia de borda, e mais especificamente, o sujeito de borda como um agente criador não reconhecido.
Já com Glória Anzaldúa, abordo como a experiência social de viver entre-fronteiras tem a capacidade de produzir uma perspectiva única. Em seu livro “Light in The Dark/Luz en lo Oscuro” podemos encontrar como a autora elabora sobre a potencialidade desse sujeito que vive entre mundos. Vivendo na intersecção entre essas diferenças e das desigualdades por elas implicadas, ela formulou sobre esse lugar de criação e de perspectiva única: a neplanta. Neplanta é uma palavra de origem asteca retomada pela autora para designar um estado “entre-mundos”.
A partir dessas bibliografias, reflito sobre como as condições dos territórios podem influenciar na formação e na perspectiva dos jovens que vivem nas bordas desse sistema excludente hegemônico. Para Anzaldúa, são nas bordas entre diferentes mundos que nascem perspectivas únicas, onde a materialidade complexa do locus marginalizado produz sujeitos com pensamento crítico, com senso estético original e inventivo, com potencial de criar narrativas inventivas e transformadoras. Se para Anzaldúa “a experiência alimenta a tinta da caneta” (ANZALDÚA, 2000), em um “Um Filme Sobre A Gente”, a experiência é aquilo que direciona os enquadramentos das imagens, carrega as baterias das câmeras e costura os frames dos vídeos. É na valorização dos processos de subjetivação dos estudantes, na valorização da auto estima em relação ao território e a comunidade e na disponibilidade de acesso aos equipamentos que consiste a nossa metodologia em construção.
Bibliografia
- ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Revista Estudos Feministas, 8(1), 229, 2000.
ANZALDÚA, Gloria E. & KEATING, Ana Louise. Light in the dark/luz en lo oscuro: rewriting identity, spirituality, reality. Durham/London: Duke University Press, 2015.
BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. In: Revista Brasileira de Educação. n19. Jan/fev/mar/abril. 2002.
FÓRUM NICARÁGUA. A pedagogia do dispositivo. Revista Devires – UFMG v.15, n.1. Belo Horizonte, jan.jun 2018.
LYRA, Bernadette; SANTANA, Gelson. Cinema de Bordas. São Paulo: A Lápis, 2006.
LYRA, Bernadette. Cinema Periférico de Bordas. Comunicação, Mídia e Consumo (São Paulo.), v. 6, p. 31-48, 2009.
MIGLIORIN, Cezar; et. al. Cinema de grupo, notas de uma prática entre educação e cuidado. Revista GEMInIS, v. 11, n. 2, p. 149-164, mai./ago. 2020.
MIGLIORIN, Cezar. et al. Cadernos do Inventar – Cinema, educação e direitos humanos. Ed. UFF 2016