Ficha do Proponente
Proponente
- George Ferreira dos Santos (UFPA)
Minicurrículo
- George Ferreira é roteirista e artista-pesquisador, mestrando em Artes (PPGARTES/UFPA). Atua no audiovisual com foco em narrativas negras e processos contracoloniais. Desenvolve projetos de cinema e séries e investiga o roteiro como prática artística em diálogo com epistemologias afro-brasileiras.
Ficha do Trabalho
Título
- Começo, Meio e Começo: Estruturas Outras e Narrativas Contracoloniais nos Roteiros Afro-Amazônicos
Seminário
- (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências
Resumo
- A pesquisa investiga roteiros nos cinemas afro-amazônicos sob uma perspectiva contracolonial, analisando narrativas marcadas por oralidade, memória viva, circularidade, tempo espiralar. A partir de mapeamento, entrevistas e análise de filmes, identifica “estruturas outras” que rompem com modelos hegemônicos.
Resumo expandido
- Esta pesquisa investiga as estruturas narrativas e os processos de criação de roteiros nos cinemas afro-amazônicos contemporâneos, propondo uma reflexão contracolonial sobre o campo do roteiro audiovisual. Partindo da constatação de que teorias clássicas e manuais de roteiro se ancoram majoritariamente em matrizes eurocentradas, o estudo busca compreender como roteiristas negros da Amazônia elaboram outras arquiteturas narrativas, atravessadas por oralidade, circularidade, ancestralidade, memória e experiências territoriais.
Inserida na Linha de Pesquisa 1 – Poéticas e Processos de Atuação em Artes no PPGARTES-UFPA, a investigação entende o roteiro não apenas como estrutura técnica, mas como prática artística encarnada. Nesse sentido, desloca a noção tradicional de “problema de pesquisa” para a ideia de “corpo da pesquisa”, inspirada na contracolonialidade de Antônio Bispo dos Santos e sua proposição da “guerra das denominações”. Assim, mais do que analisar modelos narrativos, o trabalho tensiona as próprias categorias que organizam o pensamento acadêmico sobre o roteiro.
O estudo pretende criar um diálogo entre conceitos como oralitura, corporeidade e tempo espiralar (Leda Maria Martins), escrevivência (Conceição Evaristo), A Teia de Ananse (Zélia Amador de Deus) e as cosmologias bantu-kongo (Bunseki Fu-Kiau) com as epistemologias afroamazônicas, compreendendo o roteiro afro-amazônico como espaço de confluência entre corpo, território, memória e fabulação, em contraposição à linearidade branca.
A pesquisa articula o mapeamento de filmes e roteiristas por meio de formulário público, entrevistas e análise qualitativa de roteiros e obras audiovisuais. O formulário funciona como ferramenta de escuta e aproximação, priorizando a auto-nomeação dos sujeitos e seus processos criativos. Os resultados parciais evidenciam tanto aspectos narrativos quanto estruturais: 40% dos roteiristas se identificam como mulheres cis (maioria até aqui); 66,7% não possuem formação em roteiro; e 93,3% acumulam as funções de roteiro e direção, indicando práticas autorais integradas. As produções concentram-se no Pará (53%), Rondônia (33,3%) e Amapá (13,3%), sendo majoritariamente curtas-metragens (73,3%) e live-action (86,7%).
Observa-se ainda que todas as obras foram realizadas após 2020, com destaque para 2025 (40%), indicando um crescimento recente impulsionado por políticas públicas: 86,7% dos filmes tiveram financiamento público (Lei Paulo Gustavo e Lei Aldir Blanc), embora 60% não tenham recebido financiamento na etapa de desenvolvimento de roteiro. Esses dados revelam um campo em expansão, mas marcado por desafios estruturais.
As análises iniciais indicam narrativas centradas na oralidade, no protagonismo cotidiano e na memória coletiva com recorrência de figuras como a Matriarca sendo condutora da narrativa, além de estruturas temporais não lineares, deslocando o roteiro de uma lógica de conflito para uma lógica de transmissão e partilha. Filmes como Ela Mora Logo Ali (RO), Desculpa Não Dizer Que Te Amo (PA) e Carrinho de Rolimã (PA) evidenciam estratégias como contação de histórias, tempo espiralar onde passado e presente se entrelaçam continuamente, e o uso de retratos, imagens e objetos não como “props” da direção de arte mas como dispositivos narrativos de temporalidade e memória viva, configurando narrativas que rompem com o modelo clássico e se aproximam de lógicas negras como “volte e pegue” de Sankofa.
Ao propor a noção de “estruturas outras” identificadas nessas narrativas contracoloniais, o estudo contribui para o campo do roteiro audiovisual, afirmando que os cinemas afro-amazônicos não apenas ampliam representações, mas transformam os modos de narrar, instaurando temporalidades e formas que operam em espiral. Como começo, meio e começo.
Bibliografia
- BISPO DOS SANTOS, Antônio. A terra dá, a terra quer / Antônio Bispo dos Santos; imagens de Santídio Pereira; texto de orelha de Malcom Ferdinand. São Paulo: Ubu Editora / PISEAGRAMA, 2023. 112 pp.
BONA, Dénèten Touam, 1970 – Cosmopoética do Refúgio / Dénètem Touam Bona; tradutora Milena P.Duchiade. – Florianópolis, SC: Cultura e Barbárie, 2020.
LIPORAGE, Victor Hugo. Narrar é poder existir: a ausência de pluralidade nas salas de roteiro de ficção seriada brasileira. 2021. 84 p. (Trabalho de Conclusão de Curso) – Estudos de Mídia – Universidade Federal Fluminense, 2021.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela / Leda Maria Martins. – 1.ed. – Rio de Janeiro: Cobogó, 2021. 256 p.;21 cm. (Encruzilhada)
AMADOR DE DEUS, Zélia. Ananse tecendo teias na diáspora: uma narrativa de resistência e luta das herdeiras e dos herdeiros de Ananse / Zélia Amador de Deus. – Belém: Secult/PA, 2019.