Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Camila Magalhães Lamha (PUC-Rio)

Minicurrículo

    Mestra (UFRJ) e doutoranda (PUC-Rio) em Comunicação, integra o Laboratório Práticas do Contra-Arquivo, da PUC-Rio, e pesquisa curtas-metragens feitos por diretoras brasileiras durante a ditadura militar. Com mais de dez anos de atuação nas áreas de curadoria, programação e exibição de filmes nacionais, é coordenadora de Aquisição de Conteúdo e Projetos do Canal Brasil e analista externa para editais FSA/Ancine.

Ficha do Trabalho

Título

    Você não está delirando: mal-estar e transgressão em filmes de mulheres dos anos 1970-80

Seminário

    Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual

Resumo

    Esta proposta busca aproximar um conjunto de curtas-metragens feitos por diretoras brasileiras nos anos 1970-80 que desafiaram normas de representação e de linguagem para expressar estados femininos de profundo mal-estar e angústia como resposta ao projeto conservador e patriarcal de país ditado pelos militares

Resumo expandido

    Como o intuito de colaborar com um movimento de resgate da trajetória de cineastas mulheres e de filmes apagados pela historiografia hegemônica e androcêntrica, esta comunicação pretende analisar três filmes brasileiros realizados nos anos da ditadura militar que tentaram expressar em imagens e sons pulsões da neurose e do desejo feminino, confrontando os ideais burgueses de feminilidade e domesticidade e manifestando prismas insólitos.

    Alcunhadas de bruxas, loucas e histéricas, as mulheres passaram, ao longo da história, por inúmeros ataques coordenados para destruir os seus papéis sociais e demonizá-las (FEDERICI, 2017). Seus comportamentos, quando desviantes, foram condenados nas câmaras de tortura e nas fogueiras dos séculos XVI e XVII e extensivamente psiquiatrizados, em uma estratégia de controle biopolítico de seus corpos intensificada na modernidade (FOUCAULT, 1988).

    Ao relacionarmos os filmes ainda pouco conhecidos “Delírio” (1972, 20 min), de Suzana Sereno, “Insolência” (1974, 8 min), de Mariza Leão, e “Histerias” (1983, 17 min), de Inês Castilho, identificamos a articulação de pautas feministas, que reverberaram as discussões da segunda onda pelo mundo sobre a condição da mulher e as desigualdades de gênero e se opuseram ao projeto autoritário e sexista da ditadura militar brasileira. São obras de diretoras brancas e de classe médica que confrontaram os modelos da socialização feminina forjados para subordinar as mulheres em todas as esferas.

    Em ressonância temática, esses três filmes também propuseram uma ruptura da forma narrativa tradicional e tensionaram as fronteiras de gênero. Estruturas simbólicas, atmosferas oníricas e presenças performativas foram exploradas em direção a uma construção do insólito, tanto do cinema quando da própria experiência feminina. Em “Histerias”, uma dança de Juliana Carneiro da Cunha chamada de “Possessão”, originalmente criada pela atriz para um espetáculo, foi incorporada ao filme-ensaio de Inês Castilho, que “retrata um corpo que luta para respirar” (CASTILHO, 2025).

    Além da análise fílmica e da proposição relacional, é também do nosso interesse pensar os contextos de produção e circulação desses filmes, além de investigar as condições (se e como) de sobrevivência das imagens. Convém mencionar que esses curtas-metragens fazem parte de um panorama maior de produções realizadas por mulheres no período da ditadura militar e que vêm sendo mapeadas e investigadas em outras pesquisas.

Bibliografia

    CASTILHO, Inês. Entrevista concedida a Laura Batitucci. Another Screen, 2025. Disponível em: https://www.another-screen.com/seis-vezes-mulher. Acesso em: 26 abr. 2026.

    DE LAURETIS, Teresa. “A tecnologia de gênero”. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de. (org). Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019, p. 121-155.

    FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.

    FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I – A vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

    GUERRA, Nayla. Entre apagamentos e resistências: curtas metragens feitos por diretoras brasileiras (1966-1985). São Paulo: Alameda, 2023.

    HOLANDA, Karla. & TEDESCO, Marina. (orgs). Feminismo e plural: Mulheres no cinema brasileiro. Campinas, SP: Papirus, 2017.

    LEÃO, Mariza. Entrevista concedida ao grupo Práticas do contra-arquivo (PUC-Rio/FAPERJ), 2025.