Ficha do Proponente
Proponente
- Gabriel Bravo de Lima (Unespar)
Minicurrículo
- Gabriel Bravo de Lima é mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Cinema e Artes do Vídeo da Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Bolsista pela Fundação Araucária, desenvolve pesquisa sobre o cinema dirigido por Neville D’almeida. Atua profissionalmente como jornalista, diretor e editor de vídeo.
Ficha do Trabalho
Título
- Censura e apropriação: uma análise de Jardim de guerra a partir do certificado de censura da obra
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- O trabalho analisará o filme Jardim de guerra (1968), dirigido por Neville D’almeida, a partir dos pontos abordados pela ditadura militar brasileira no certificado de censura da obra. Observando uma apropriação do cineasta sobre tal documento, disponível no livro Além Cinema (2011) produzido pelo diretor, e muito citado em entrevistas concedidas por ele, a análise das cenas censuradas será feita sob a hipótese delas reverberarem aspectos relevantes do cinema dirigido por Neville.
Resumo expandido
- Neville D’almeida é dono de uma das filmografias mais censuradas no cinema brasileiro, contando com alguns títulos pouquíssimos vistos. A primeira aventura em longa-metragem de Neville, Jardim de guerra (1968), foi censurada pela ditadura militar e circulou de forma tímida no circuito comercial, com vários trechos cortados. O último certificado de censura da obra, disponibilizado pelo próprio diretor no livro Além Cinema (2011), apresenta dez pontos abordados pelos militares. Entre os cortes impostos estão frases ditas pelos personagens, como “O corpo em chamas de Che Guevara ainda incendeia as Américas” ou quando o protagonista chama a América Latina de “América Latrina”. Cita-se também o grande monólogo em que o personagem de Antônio Pitanga relata e crítica o racismo e a situação da população negra no Brasil ou ainda as referências feitas ao interesse do governo na exploração comercial da Amazônia.
Estes exemplos, logicamente, ressaltam o pensamento do governo militar que comandava o país à época, mas além disso servem como chaves de análise para Jardim de guerra. Utilizando como arcabouço o certificado de censura disponível no livro produzido pelo cineasta, entrevistas concedidas por ele e a própria cópia integral do filme, observando a partir disso uma apropriação do cineasta sobre tal documento, este trabalho buscará analisar as cenas censuradas sob a hipótese delas reverberarem aspectos relevantes do cinema dirigido por Neville.
Jardim de guerra foi censurado depois de uma exibição no Festival de Brasília, logo após a promulgação do AI-5 no final de 1968. Somente décadas mais tarde, em 2018, uma cópia na íntegra do filme, que havia sido enviada para participar da primeira Quinzena dos realizadores do Festival de Cannes em 1969, foi redescoberta e disponibilizada para a maior parte do público.
A partir dos trechos censurados é possível vislumbrar, por exemplo, uma afinidade do estilo de Neville à monólogos reflexivos, introduzindo nas falas dos personagens sínteses de pensamentos sobre a sociedade. Tal característica foge do registro do cinema clássico, numa busca por uma obra mais radical. Como o cineasta frisou em entrevista, seu desejo era falar sobre o momento político mundial e situar o Brasil no mundo, “Então eu queria fazer um filme sobre o meu tempo, sobre a minha época {..} Falar da Rússia, dos Estados Unidos, falar das revoluções, falar de 68!” (D’almeida, 2015). Em outros momentos da filmografia do diretor, essas falas se concentram em discursos sobre a família, o matrimônio, a liberdade sexual, crises financeiras.
Outro aspecto que se destaca é a escolha recorrente, na montagem dos filmes, por uma abrupta justaposição de planos sem relação óbvia, revelando uma rejeição à continuidade e dando preferência a elipses narrativas ou construções semânticas mais complexas. Nesse sentido, Jardim de guerra constrói o monólogo de Antônio Pitanga dividido em três partes, entre elas há outras cenas justapostas sem relação aparente com o monólogo, o que torna difícil ao espectador localizar temporalmente aquela sequência, mas abre espaço para hipóteses.
Há ainda o uso de fotografias no filme, cujas restrições também aparecem na certidão de censura. O governo cortou fotos alusivas à Guerra do Vietnã, ao movimento feminista na China, além de um retrato de Che Guevara, que surgem em tela sem maiores explicações. O diálogo com a fotografia aparece em mais ocasiões na carreira do artista, como na instalação artística Cosmococas, desenvolvida junto à Hélio Oiticica e denominada de experiência Quasi-cinema.
Nessa perspectiva, o certificado de censura é tomado como documento que, embora externo à criação, integra o campo discursivo em torno do filme. Funciona como um material bruto, institucional e ainda não sistematizado, que permite acessar e organizar as mediações que atravessam o pensamento do cineasta sobre sua obra, abarcando procedimentos estéticos e políticos presentes na carreira de Neville.
Bibliografia
- AUMONT, Jacques. Pode um filme ser um ato de teoria? Revista Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 1, n. 33, p. 21-34, jan/jun, 2008.
D’ALMEIDA, Neville. Além Cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.
D’ALMEIDA, Neville. Liberdade: Entrevista com Neville d’Almeida. Entrevista concedida a Rodrigo Fonseca. Rio de janeiro: Revista Usina, 2015. Disponível em: https://revistausina.com/2015/05/15/liberdade-entrevista-com-neville-dalmeida/. Acesso em: 24 abr. 2026.
GRAÇA, André Rui; BAGGIO, Eduardo; PENAFRIA, Manuela. Teoria dos cineastas: uma abordagem para a teoria do cinema, Revista Científica/FAP, Curitiba, v.12, p. 19-32, jan./jun. 2015.
MAGALHÃES, Mauro Sérgio. A censura ao cinema marginal na ditadura civil-militar brasileira (1968-1974). Dissertação (Mestrado em História Social), Faculdade de Ciências Sociais, Programa de Estudos Pós-Graduados em História, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2022.