Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    isaias santos moura (UFRB-CAHL)

Minicurrículo

    Zai Moura é artista visual, cineasta e pesquisador graduando em Cinema na UFRB. Sua prática articula cinema, performance e linguagens visuais sob a perspectiva das cosmopercepções afro-indígenas, memória e território. Atuou na curadoria do 10º CachoeiraDoc e dirigiu obras premiadas como Vigiai e Orai. Sua produção, que inclui o ensaio Brotando da Terra (2024), investiga a ancestralidade Guerém/Kren e o arquivo vivo, unindo a pintura e o desenho às linguagens digitais e ao formato do filme-ensaio

Ficha do Trabalho

Título

    ​ATENÇÃO PARA O FIM DO MUNDO: A REINVENÇÃO DA RUÍNA E A FABULAÇÃO DE RECOMEÇO

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Esta escrita analisa a subversão da narrativa cristã do fim do mundo por artistas dissidentes, transformando o apocalipse em território de reinvenção. Através da fabulação crítica, examino obras de Mateus Fazeno Rock, Ventura Profana e Icona Pink, que rearranjam símbolos bíblicos para afirmar a vida. A partir da minha vivência evangélica, percebo nessas obras cartografias que transmutam o colapso em recomeço, recusando o apagamento e reinventando o mundo na ruína.

Resumo expandido

    A formulação de fim do mundo herdada da tradição cristã opera como um regime de leitura que organiza o tempo e as existências a partir de lógicas de juízo e punição. Para corpos dissidentes — atravessados por questões de sexualidade, gênero e raça —, essa narrativa muitas vezes se impõe como uma estrutura de apagamento. Pretendo analisar os videoclipes Jesus Ñ Voltará (Mateus Fazeno Rock, com participação de Jup do Bairro, 2021), Eu Não Vou Morrer (Ventura Profana, 2020) e a música Babilônia 2000 (Icona Pink, com participação de FUSO!, Isma e Aurora Abloh, 2023), compreendendo-as como potentes enunciações onde voz, corpo e performance rearranjam o imaginário do colapso. Como metodologia, a fabulação crítica (Freitas, 2022; Hartman, 2020 ) contribuirá para a análise dos símbolos religiosos presentes nestas obras, focando na transmutação desses signos que permitem a reinvenção de horizontes de recomeço a partir da ideia de fim (Mombaça, 2021).
    ​Crescer sob a influência da cultura evangélica implicou reconhecer o apocalipse como promessa de vigilância constante. O tensionamento produzido pela minha dissidência sexual deslocou essa percepção, permitindo ler essas obras como cartografias que transformam o fim em linguagem e criação. Juntas, essas produções retomam o vocabulário apocalíptico para produzir outros modos de vida.
    ​Em Jesus Ñ Voltará (com Jup do Bairro), o fim instala-se como condição processual e cotidiana; quando Mateus situa que a autodestruição é um percurso em curso, a obra localiza o colapso no agora e convoca a invenção da vida no meio do estrago, como também articulou Ailton Krenak (2019). Essa camada de pensamento se expande em Eu Não Vou Morrer, onde Ventura Profana executa uma reescrita dos símbolos bíblicos, como o batizado e a ressurreição. Na letra da música, ao transformar a cruz em encruzilhada, a multiartista afirma a ressurreição como uma prática coletiva e travesti, voltada à preservação da vida interrompida (Profana, 2020). Percebo que o acúmulo de camadas sígnicas apocalípticas tem seu clímax em Babilônia 2000 (com FUSO!, Isma e Aurora Abloh), onde o léxico da destruição (Sodoma, Gomorra, trombetas) estilhaça e é reinscrito no campo do excesso e do prazer (Mombaça, 2021). Aqui, o apocalipse deixa de ser encerramento e passa a ser abertura; a afirmação de que “Deus é travesti” na música desorganiza a moralidade cristã e anuncia o fim como um recomeço possível através do corpo presente.
    Essas obras me escolheram porque performam o fim do mundo como um território de disputa. Elas evidenciam que o colapso atinge os corpos de forma desigual, exigindo respostas que passam pela modificação discursiva e pela celebração, na recusa da universalidade do apocalipse. Entre a reescrita e a festa, essas produções afirmam que, mesmo diante da ruína, o mundo continua sendo incessantemente reinventado por quem se recusa ao batismo.

    VIDEOCLIPES:

    ​ICONA PINK. Babilônia 2000. Participação de FUSO!, Isma e Aurora Abloh. [S.l.: s.n.], 2023. 1 statico (3min 48s). Disponível em: [https://youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_kOVUvyHa2Viwz4AAzxT6XJ8tw3zVGmE-0&si=obcU3vq8755ZBSt2]. Acesso em: 23 abr. 2026.

    ​MATEUS FAZENO ROCK. Jesus Ñ Voltará. Participação de Jup do Bairro. Fortaleza: [s.n.], 2021. 1 videoclipe (4:04). Disponível em: https://youtu.be/D5WXqQXBbA4?si=5VbZqUMIDdWEahFY
    . Acesso em: 23 abr. 2026.

    ​VENTURA PROFANA. Eu Não Vou Morrer. [S.l.: s.n.], 2020. 1 vídeo (4:32 min). Disponível em: [https://youtu.be/MWZPd5EcJO8?si=RoiL2ZAB1Wy1A4Hl]. Acesso em: 23 abr. 2026.

Bibliografia

    ​FREITAS, Kênia. Cinemas Negros Brasileiros: rotas de criação e de fuga. In: CLEBER, Eduardo; D’ANGELO, Raquel Hallak; D’ANGELO, Fernanda Hallak (Org.). O Cinema em Transição: 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Belo Horizonte: Universo Produção, 2022.
    HARTMAN, Saidiya. Vênus em dois atos. Eco-Pós, [s. l.], v. 23, n. 3, p. 12-33, 2020.
    ​KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
    MOMBAÇA, J. Não vão nos matar agora. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
    VENTURA PROFANA: entrevista. Entrevistadores: Paula Alzugaray e Leandro Muniz. [S. l.]: seLecTV, 13 ago. 2021. 1 vídeo (44 min 35 s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_nWG3fHY0N0. Acesso em: 25 abr. 2026.