Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Lara Monteiro Ribeiro (UFF)

Minicurrículo

    Lara Monteiro é graduanda em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente debruça-se sobre as áreas de estudos de gênero, estudos da narrativa, estética e práticas experimentais/ensaísticas de realização cinematográfica, articulando interesses em filosofia, psicanálise e artes cênicas. É cineclubista, editora da editoria de Estudos de Gênero do OCA-UFF e pesquisadora do grupo Mulheridades Cinematográficas, coordenado pela Profa. Marina Cavalcanti Tedesco.

Ficha do Trabalho

Título

    Quando mulheres vestem calças e homens fazem café: a narrativa da inversão de gênero e seus impasses

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    Frequentemente, a narrativa da inversão de papéis de gênero opera como um dispositivo para introduzir debates sobre tais temas ao público. Ao analisar As Consequências do Feminismo (1906) e Acorda, Raimundo… Acorda!!! (1990), esta comunicação investiga atravessamentos estéticos e políticos dessa operação, situa sua dimensão pedagógica e tensiona os limites de sua transgressão a partir do contexto contemporâneo, ao questionar em que medida supera e reproduz estruturas masculinas de representação.

Resumo expandido

    Frequentemente, a narrativa da inversão de papéis de gênero opera como um dispositivo para introduzir, junto ao público em geral, debates sobre desigualdades de gênero. Tendo como corpus principal As Consequências do Feminismo (1906), de Alice Guy-Blanché e Acorda, Raimundo… Acorda!!! (1990), de Alfredo Alves, busca-se investigar os atravessamentos estéticos e políticos dessa operação e sua dimensão pedagógica.
    Sendo ambas as obras comédias, cabe primeiro atentar-se ao contexto em que se inscreve, nesses casos, o dispositivo da inversão. Tanto a produção de Guy-Blanché quanto a de Alves retratam situações que na ordem social vigente seriam e são duramente repreendidas, como maiorias de homens e mulheres ocupando espaços tradicionalmente reservados ao gênero oposto – mulheres predominam nos bares e homens nos trabalhos domésticos, por exemplo. Mas chama atenção que essa realidade distante e polêmica, quando na chave humorística, possa atenuar reações alinhadas ao espanto, à revolta ou à recusa, e dar lugar ao riso e à reflexão.
    Uma vez ancorada à comédia, a narrativa da inversão de papéis de gênero assume um lugar privilegiado de recepção, pois o riso diminui resistências e favorece a assimilação de propostas que, em outro registro, tenderiam à rejeição. Além disso, nesse campo da comédia, a inversão encontra um terreno fértil para se manifestar, já que o humor não só torna o absurdo mais palatável, mas também cria uma espécie de regime carnavalesco onde a desordem e a suspensão das hierarquias são temporariamente permitidas.
    Porém, é na imagem que essa operação se concretiza, o que exige olhar também para as estratégias de encenação que são mobilizadas. Em As Consequências do Feminismo (1906), a inversão se faz visível sobretudo nos gestos caricaturais, característicos do primeiro cinema, em que a expressividade corporal, na ausência da voz, era central à narrativa. No filme, os homens se expressam por movimentos delicados e sinuosos, quase barrocos, aproximando-se de um imaginário do feminino, enquanto as mulheres se afirmam mais pelas ações, como beber e trabalhar, não pelos gestos. Essa escolha, principalmente o gestual afeminado dos homens, reforça o caráter cômico do curta-metragem.
    Enquanto em As Consequências do Feminismo (1906), na falta do diálogo, a inversão se ancora na expressividade corporal, Acorda, Raimundo… Acorda!!! (1990) a palavra parece ser central. A inversão se faz clara no que se diz e no modo de dizer: as falas autoritárias, grosseiras de Marta e a hesitação de Raimundo reencenam um poder assimétrico muito reconhecível. Inserida em situações domésticas comuns, desloca-se os papéis de gênero dentro de códigos sociais estabelecidos, em que se pode analisar uma tensão entre a linguagem e as hierarquias cotidianas.
    Nas duas produções, avalia-se que a inversão é inscrita em mecanismos narrativos que as limitam. No filme de Alice Guy, o retorno final à norma afirma a inversão como um desvio passageiro, e em Acorda, Raimundo… Acorda!!!, o despertar opera de modo semelhante. Assim, a inversão de papéis de gênero atua como um mecanismo inicial de fazer ver as opressões, ao mesmo tempo que não supera as normas.
    Todos os elementos acima elencados serão a base da análise sobre como o dispositivo da inversão dos papéis de gênero parece inseparável do que consideramos seus limites, uma vez que, nesses casos, a inversão torna visível justamente aquilo que simultaneamente circunscreve ao sonho ou sujeita à reversão.

Bibliografia

    DOANE, Mary Ann. Film and the masquerade: theorising the female spectator. In: The Sexual Subject: A Screen Reader in Sexuality. Londres, Nova York: Routledge, 1992.

    WALKER, Nancy A. “A Very Serious Thing”: Women’s Humor and American Culture. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1988.

    McMAHAN, Alison. Alice Guy Blaché: Lost Visionary of the Cinema. Nova York, Londres: Continuum, 2003.

    FERREIRA, Ceiça. Reflexões sobre “a mulher”, o olhar e a questão racial na teoria feminista do cinema. Porto Alegre, Revista FAMECOS, [S. l.], v. 25, n. 1, p. ID26788, 2018. DOI: 10.15448/1980-3729.2018.1.26788. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/revistafamecos/article/view/26788.

    BUTLER, Judith. Gender trouble: Feminism and the Subversion of Identity. Nova York, Londres: Routledge, 1999.

    BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: HUCITEC, 1987.