Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    tatiana a c costa (Una)

Minicurrículo

    Curadora, pesquisadora e realizadora. Doutora em Comunicação Social (UFMG). Conselheira Titular no Conselho Superior de Cinema (MinC). Presidenta da APAN – Associação de Profissionais do Audiovisual Negro – e integrante do FICINE – Fórum Itinerante do Cinema Negro. Docente no Centro Universitário UNA. Colabora com festivais de cinema e atua em consultorias no Brasili e no exterior.

Ficha do Trabalho

Título

    Corpos-ficção: modulações do fazer-pensar cinema a partir das negruras

Seminário

    (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências

Resumo

    Esta proposta apresenta resultados da pesquisa-em-ato “Quilombocinema: Corpos-ficção e invenção de pertencimentos negros no Cinema Brasileiro contemporâneo”, que investigou o Cinemas Negros Brasileiros em suas possibilidades de testemunho, elaboração e invenção de pertencimento condições de existência negra com e nas imagens e sons, por meio da análise de filmes radiais utilizando uma metodologia que considera como um dos operadores teóricos centraiso tempo-espaço-movimento da Encruzilhada.

Resumo expandido

    Esta proposta apresenta resultados da pesquisa-em-ato “Quilombocinema: Corpos-ficção e invenção de pertencimentos negros no Cinema Brasileiro contemporâneo”, que investigou os Cinemas Negros Brasileiros no que eles agenciam de possibilidades de testemunho e elaboração negras em sua invenção de pertencimento e condições de existência. A análise se centrou em curtas dirigidos por pessoas negras em afirmação racial e a partir de saberes afro-diaspóricos que atravessam essas existências e se revelam, para além da representação, em estratégias e formas fílmicas. O objetivo foi observar as modulações das negruras com e no Cinema. Trago aqui os caminhos de análises de “Serpent Rain” (Denise Ferreira da Silva e Arjuna Newman, 2016), “Aurora” (Everlane Moraes, 2020) e “Ficções Sônicas” (Grace Passô, 2020).
    A investigação considera as lacunas epistêmicas nos Estudos de Cinema e a consequente necessidade do experimento de ferramentas teórico-analíticas do pensamento negro para dar conta dos desafios apresentados pelas obras. Partindo de experiências pessoais e coletivas na docência e na curadoria, essa pesquisa-em-ato ressona discussões das Artes Cênicas e Visuais, evidencia trajetórias de luta do movimento negro e o acolhimento de suas demandas, ainda que parcialmente, em políticas públicas afirmativas.
    Os curtas-metragens abordados integram o fenômeno contemporâneo de aumento significativo e contundente da presença negra em nosso campo de saber-fazer. Nomeio esse fenômeno de QuilomboCinema – um conjunto direta ou indiretamente interconectado de pessoas negras na realização de filmes e em diversas outras áreas desse campo, em contexto de autoafirmação e em aquilombamento, no que a ideia de Quilombo traz de, como afirma Beatriz Nascimento (2018), “conotação basicamente ideológica”.
    O Quilombo, como “ficção participativa” e em sua “paz quilombola” (NASCIMENTO, 2018), é espaço de imaginação radical para a humanidade negra em suas pluralidades. Derivam dessas construções ancestrais – com todas as camadas do conceito de ancestralidade (Martins, 1997) – boa parte do que gesta e gera esses filmes. Também emergem daí formulações que ampliam os caminhos para abordá-los.
    Compreendendo o “carrego colonial” (RUFINO, 2019) que conforma a noção de sujeito universal, uma ideia central aqui é a de corpo-ficção. As formulações contíguas de “ficção” em Frantz Fanon (2008), Achille Mbembe (2018) e Dionne Brand (2022), auxiliam no entendimento do estatuto estético-político da própria existência negra. Nesse sentido, o corpo é, como aponta Martins, “uma episteme”, “o lugar de excelência das autoficções e das reconstruções das subjetividades” (MOSTRA, 2019).
    A racionalidade ocidental descorporificada gerou um “cativeiro estético” (BRAGA, 2019). Parti da hipótese de que os Cinemas Negros Brasileiros, na contemporaneidade, são realizados por e com corpos-ficção num contexto de aquilombamento e numa elaboração de uma experiência negra em sua multiplicidade, articulando possibilidades de existência desses corpos com e na imagem. O QuilomboCinema propõe ao imaginário coletivo rotas/poéticas de fuga desse cativeiro.
    As obras analisadas são filmes radiais que evidenciam sua instância enunciadora e articulam suas chaves de leitura. O movimento radial, aqui, se constitui de duas forças complementares: uma centrípeta, que atrai para os filmes saberes conscientes e inconscientes dessa instância enunciadora, e uma centrífuga, que nos devolve esses saberes articulados nas estratégias e formas fílmicas. A metodologia considera como operador conceitual a Encruzilhada, tal como e Martins (1995 e 2021). As espirais do tempo no espaço-movimento da Encruzilhada apontam os gestos de elaboração de um refúgio, em suas cosmopoéticas (Bona, 2020). O QuilomboCinema seria, portanto, um continnum no princípio de criação/autocriação de condições de existência, compreendendo o sempre-presente da colonialidade, da captura e das múltiplas possibilidades fuga e de invenção de si.

Bibliografia

    BONA, D. T. Cosmopoéticas do Refúgio. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2020.
    BRAGA, C. G. Nada (é) Razoável. Tese de Doutorado, Escola de Comunicação, Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, 2019.
    BRAND, D. Um mapa para a porta do não retorno: notas sobre pertencimento. Rio de Janeiro: A Bolha Editora, 2022.
    FANON, F. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.
    MARTINS, L. M. A Cena em Sombras. São Paulo: Perspectiva, 1995.
    ___________________. Afrografias da Memória: O Reinado do Rosário no Jatobá. Belo Horizonte: Mazza Edições, 1997.
    ___________________. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
    MBEMBE, A. Crítica da Razão Negra. São Paulo: N -1 Edições, 2018.
    MOSTRA TIRADENTES SP. Catálogo da Mostra Tiradentes SP. Organização: Raquel Hallak d’Angelo; Fernanda Hallak d’Angelo. Belo Horizonte: Universo Produção, 2019.
    NASCIMENTO, M. B. Beatriz Nascimento, Quilombola e Intelectual