Ficha do Proponente
Proponente
- Fabio Allan Mendes Ramalho (UNILA)
Minicurrículo
- Professor, pesquisador e atual coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Integração Latino-Americana. Atua também no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos Latino-Americanos, na mesma instituição. É um dos líderes do grupo de pesquisa NATLA – Núcleo de Arte e Tecnologia Latino-Americano. Doutor em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco. Membro do coletivo de realização audiovisual Surto & Deslumbramento. E-mail: fabioallanm@gmail.com
Ficha do Trabalho
Título
- Viajantes, observadoras e turistas: a viagem como (im)possibilidade da experiência no melodrama
Resumo
- Esta comunicação busca retraçar algumas relações entre melodrama, modernidade e viagem no cinema, com base em três eixos: a viajante como observadora e os regimes modernos de visualidade; o deslocamento como experiência de alteridade (cultural, subjetiva e amorosa); e as tensões entre a viagem como anseio pelo inesperado e sua assimilação pelas lógicas de mercado. Para tanto, proponho analisar os filmes Summertime (1955), Shirley Valentine (1989) e o segmento final de Paris, Je t’aime (2006).
Resumo expandido
- A presente proposta de comunicação surge como desdobramento de trabalhos anteriores, nos quais, ao discutir como diferentes filmes brasileiros contemporâneos (Ramalho, 2023; 2021) agenciam o imaginário da viagem como recurso para produzir experiências de transformação e reconfiguração do mundo para suas protagonistas, deparei-me com a necessidade de retraçar, de maneira mais ampla, algumas relações possíveis entre melodrama e viagem no cinema. O melodrama, sobretudo nas inflexões mais específicas que compõem o “melodrama familiar”, explora de maneira recorrente a dimensão da casa e da família como campo de intensidade afetiva e conflito. Por isso mesmo, porém, a consciência de que haveria sempre um “lá fora” a ser desbravado e ao qual seria preciso lançar-se coloca no cerne da imaginação melodramática a busca pela vastidão do mundo, pela diferença cultural e pelo desconhecido por meio do deslocamento. A imaginação melodramática, então, portaria sempre consigo a possibilidade de um abandono – real ou imaginado – da esfera da domesticidade (Elsaesser, 1987).
Neste trabalho, proponho centrar minha análise em três eixos. Primeiramente, busco indagar o modo como a figura da viajante se constitui como observadora, na medida em que, em muitos sentidos, o ato de viajar instaura um regime de visualidade que se torna indissociável do marco histórico de transformação das relações com o espaço que marca a mentalidade moderna. Em seguida, abordo como tal regime integra um conjunto mais amplo de construções culturais, nas quais a viagem constitui a possibilidade de encontro com a alteridade, seja na forma de um contato com outras culturas, pelo deslocamento que revela outras facetas do sujeito, levando-o a estranhar-se de si mesmo (Solnit, 2005), ou ainda pela possibilidade do encontro sexual e amoroso. Por fim, discuto em que medida tal imaginário carrega consigo a intuição acerca de seus próprios limites, no sentido de que a transformação e a aventura despontam, muitas vezes, mais como uma promessa ou anseio do que como uma realidade consumada. A mesma modernidade à qual o melodrama é historicamente associado (Singer, 2001) implica, também, o ímpeto da racionalização dos processos e a tendência à assimilação da experiência pela lógica econômica. Decorre disso uma série de tensões e atritos entre as figuras da viajante e da turista, mas também uma incontornável zona de indiscernibilidade ou mesmo uma incômoda cumplicidade entre ambas (Elkin, 2022, p. 147).
A fim de articular tais questões, proponho analisar três obras fílmicas. Summertime (David Lean, 1955) forja um senso de cumplicidade entre as perspectivas do espectador e da viajante, em seu deslumbramento pela cidade de Veneza e também na expectativa do romance, levando-nos a atravessar, junto com a protagonista, não apenas um processo de desvencilhamento da repressão sexual e das constrições sociais, mas também um anseio pela relação amorosa como catalisador de forças mais pervasivas de angústia e alienação. Em Shirley Valentine (Lewis Gilbert, 1989), a perspectiva do romance é desafiadoramente suplantada por um movimento mais amplo de reconfiguração de si a partir do abandono do ambiente doméstico e de suas rotinas, durante uma viagem a uma ilha grega. Por fim, o segmento final do filme de antologia Paris, Je t’aime (2006), dirigido por Alexander Payne, utiliza a forma paradigmática do “relato de férias” para lançar um olhar ácido sobre clichês de viagem, tropos melodramáticos e imagens convencionais de Paris, configurando um interessante contraponto ao tom majoritariamente celebratório do restante da antologia. Juntas, tais obras revisitam e, ao mesmo tempo, ajudam a expandir e reposicionar as relações entre cinema, melodrama, modernidade e narrativas de viagem.
Bibliografia
- BALTAR, Mariana. Realidade lacrimosa: o melodramático no documentário brasileiro contemporâneo. Niterói: Eduff, 2019.
ELKIN, Lauren. Flâneuse: mulheres que caminham pela cidade em Paris, Nova York, Tóquio, Veneza e Londres. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Fósforo, 2022.
ELSAESSER, Thomas. “Tales of sound and fury: Observations on the family melodrama”. In GLEDHILL, Christine (org). Home is where the heart is: Studies in Melodrama and the woman’s film. British Film Institute, p. 43-69, 1987.
RAMALHO, Fábio A. M. Saia e veja o mundo: sobre melodrama, amor e viagens. Zanzalá, v. 11, p. 26-44, 2023.
RAMALHO, Fábio A. M. Colocar-se em curso: movimentos da cidade e tempos da vida em dois filmes brasileiros. Artefacto Visual, v. 6, p. 42-68, 2021.
SINGER, Ben. Melodrama and modernity. Early Sensational Cinema and Its Contexts. New York, Columbia University Press, 2001.
SOLNIT, Rebecca. A field guide to getting lost. New York: Viking. 2005.