Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Gricia Elen Mendes (UFBA)

Minicurrículo

    Grícia Elen Mendes é graduanda do curso de Bacharelado em Língua Estrangeira Moderna (habilitação em Inglês) na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Possui graduação em Design de Moda pela Universidade Salvador (UNIFACS). Faz parte do VOLTA – Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Cinema Irlandês Contemporâneo. É estagiária editorial na editora baiana P55 Edição. Dedica-se a estudar cinema de terror irlandês e representação literária.

Ficha do Trabalho

Título

    A construção e a desconstrução da figura do vampiro em Boys from County Hell (2020), de Chris Baugh

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Ao longo da história, a figura do vampiro se enraizou na literatura e no imaginário, possuindo uma mutabilidade que espelha diferentes sociedades e momentos históricos. Dessa forma, o objetivo geral é analisar a representação do vampiro em Boys from County Hell (2020), de Chris Baugh, a partir do folclore irlandês e do contexto histórico local. A metodologia é a análise de conteúdo definida por Bardin (2016). Este estudo pode aprofundar debates sobre cinema irlandês e representação literária.

Resumo expandido

    Segundo Kate Buckley (2016), antes de se tornar um ícone literário, o vampiro era uma figura folclórica atrelada a tragédias supostamente causadas por comportamentos que se desviavam das normas morais, sociais e culturais de uma época ou um lugar. Essa figura muitas vezes era descrita em forma de espectros ou demônios da floresta em lendas que retratavam temores de caráter religioso, social e sexual. Publicada em 1897 por Bram Stoker, Drácula é uma das obras mais famosas a retratar o tema, sendo também responsável pela difusão da figura do vampiro, de seus elementos narrativos e suas características mitológicas. Com a representação de um vampiro aristocrata que sai de seu castelo na Pensilvânia para “invadir” Londres, surge uma criatura diferente das retratadas no folclore, mas que ainda carrega os temores de uma sociedade. Essa capacidade de se adaptar a uma determinada época e às suas crenças é um dos traços mais duradouros da figura do vampiro, tornando-o uma espécie de espelho da sociedade. Consequentemente, como destaca Nina Auerbach (1995), é possível considerar que cada tempo e geração possui um vampiro para chamar de seu. Boys from County Hell (2020), filme de terror e comédia irlandês dirigido por Chris Baugh, conta a história de um grupo de pessoas que vive em Six Mile Hill, cidade no interior da Irlanda do Norte cuja maior atração turística é uma pilha de pedras que supostamente marcam o túmulo de Abhartach, um lendário vampiro local que teria inspirado Bram Stoker. Em uma noite fatídica, esse vampiro desperta e passa a aterrorizar a comunidade. O filme brinca com a figura de Drácula, misturando informações canonizadas ora pelo livro, ora por suas adaptações cinematográficas. Além disso, questiona quem seria o vampiro de Stoker em comparação ao vampiro “da vida real”, representado pela lenda retratada na trama. Diferente de Drácula, porém, Abhartach não é uma figura estrangeira e sim familiar, embora misteriosa, escondida há séculos sob a terra na qual os personagens pisam todos os dias. Tanto quanto os mocinhos da trama, Abhartach é um residente local, embora seu despertar cause subversão na normalidade ao invadir (ou talvez retomar) Six Mile Hill. A obra faz alusão a uma lenda do folclore irlandês, mencionada por autores como Poppy Game (2023), em sua discussão sobre grupo celtas que espalhavam na Europa lendas sobre demônios muito próximos ao que se conhece hoje como vampiro. Nesse contexto, é possível notar que, muito além de desconstruir a figura do vampiro de Drácula, Boys from County Hell se propõe também a construir sua própria representação literária, cimentada em uma mitologia local que, embora reconhecida nativamente, não possui grande projeção internacional e justamente por isso confere à produção cinematográfica traços de originalidade e criatividade. A partir de tais singularidades e dos diversos significados por trás dessas escolhas narrativas, é possível considerar que o filme dá um passo para um lugar além de suas inspirações iniciais, ao mesmo tempo em que resgata e desconstrói o que veio antes para, de alguma forma, refletir o que é atual. No entanto, eis que surge o questionamento desta pesquisa: de que maneira a figura do vampiro é representada, como ela resgata e ao mesmo tempo desconstrói suas origens mitológicas e ficcionais e o que exatamente essa construção reflete da sociedade e do contexto histórico em que está inserida? O objetivo geral é analisar a construção e a representação do vampiro no filme a partir de suas relações e contrastes com a lenda do folclore irlandês, observando aspectos do contexto histórico local. A metodologia adotada é análise de conteúdo proposta por Laurence Bardin (2016). O estudo se justifica com a intenção de aprofundar os estudos sobre a cinematografia irlandesa, podendo gerar resultados relevantes para o campo de estudos de teorias e representações literárias e culturais.

Bibliografia

    AUERBACH, Nina. Our vampires, ourselves. Chicago: The University of Chicago Press, 1995.

    BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Tradução: Luís Antero Reto. São Paulo: Almedina Brasil, 2016.

    BOYS from County Hell. Direção: Chris Baugh. Produção: Rian Cahill, Charles Dorfman. Belfast: Six Mile Hill Productions; Binder Films, 2020.

    BUCKLEY, Kate. The evolution of the vampire other: symbols of difference from folklore to millennial literature. 2016. Undergraduate thesis (Bachelor’s degree in English) – University of Mississippi, Oxford, 2016.

    GAME, Poppy. The History Of Vampire Folklore: Fear and Introspection 2000 BCE.-2000 CE. In: Young Historians Conference, 33., 2023, Portland. [Anais] Portland: Portland State University, 2023.

    HREINSDÓTTIR, Helga. On vampires: an exploration of the vampire as a literary character. 2021. Thesis (Master of Arts in English) – University of Iceland, Reykjavík, 2021.

    STOKER, Bram. Drácula. Tradução: Maria Bittencourt. São Paulo: Martin Claret, 2021.