Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ana Paula Compagnucci (UNICAMP-UNC)

Minicurrículo

    Realizadora audiovisual, doutoranda em Semiótica (CONICET–UNC) e em Multimeios (UNICAMP), em cotutela. Graduada em Cinema e TV (UNC, Argentina), com especialização na EICTV (Cuba). Desenvolve pesquisa sobre cinema latino-americano, com ênfase nas relações entre gênero e região em produções de territórios não hegemônicos, articulando teoria fílmica feminista, semiótica do cinema e estudos culturais. Integra o Comitê Acadêmico da revista Toma Uno e redes de pesquisa e criação audiovisual feminista

Ficha do Trabalho

Título

    Espectar a violência: corpo, território e colonialidade no cinema

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Este trabalho analisa Nosilatiaj. La belleza (2012, Seggiaro) e Manas (2024, Brennand) a partir da mise-en-scène como operação de produção de sentido. Propõe-se investigar como a articulação entre corpo, espaço e som constrói experiências de espectação. Ao representar violências atravessadas pela colonialidade, os filmes tensionam a posição do espectador e produzem formas situadas de ver e sentir.

Resumo expandido

    Este trabalho analisa Nosilatiaj. La belleza (2012), dirigido por Daniela Seggiaro, e Manas (2024), dirigido por Marianna Brennand, a partir da mise-en-scène como operação de produção de sentido, com atenção à articulação entre corpo, espaço e som. Ambos os filmes retratam situações de extrema violência associadas às desigualdades veiculadas pela colonialidade e pelas ausências estatais, o que produz experiências de espectação complexas e sensíveis, que nos permitem perguntar sobre seus efeitos. O que acontece com espectadores e espectadoras ao assistir à dor dos outros, nos termos de Susan Sontag? Que configurações de gênero a experiência do filme possibilita, pensando na produção de sujeitos e espaços, a partir de De Lauretis?
    A partir de uma perspectiva que articula teoria fílmica feminista, semiótica do cinema e estudos sobre gênero e região, investiga-se a forma como os dispositivos cinematográficos produzem sentido, em geral e nesses filmes em particular. Em Nosilatiaj. La belleza, Yolanda, a adolescente wichí protagonista, é explorada laboralmente por uma família colona de classe média, em uma prática extensa e naturalizada de servidão no norte do território hoje ocupado pelo Estado argentino; a experiência da protagonista se constrói a partir de uma forte regulação do corpo e do olhar, onde o espaço doméstico funciona como dispositivo de controle e silenciamento. Em Manas, Marcielle, que vive em uma comunidade ribeirinha na selva amazônica do Brasil, encontra-se presa em um entorno que naturaliza os abusos sexuais aos quais é submetida, tanto por seu pai quanto por redes de exploração sexual; a violência se inscreve em uma trama de vínculos familiares e comunitários na qual o silêncio e a passividade configuram modos de sobrevivência, ao mesmo tempo que evidenciam a persistência de estruturas de poder que violentam os corpos das mulheres.
    Resulta importante perguntar de que forma a colonialidade aparece, não apenas como tema, mas como se inscreve nas formas audiovisuais, produzindo uma experiência generizada e situada na audiência; por isso: quais são os possíveis efeitos de espectatorialidade desses filmes? Podemos pensar em filmes que interpelam a partir de gestos formais, estéticos e enunciativos? Essas imagens mobilizam uma empatia que pode se tornar passividade ou possibilitam uma reflexão sobre as próprias condições e privilégios que permitem uma mudança social?
    A construção do espaço regional não só permite acessar geografias menos representadas nas filmografias nacionais, mas também disputa sentidos hegemônicos, uma vez que, em ambos os filmes, os espaços relacionados ao doméstico, como a casa e a família, e os espaços de socialização como a igreja ou a escola se configuram como âmbitos de controle, violência ou ameaça; enquanto os ambientes naturais menos intervenidos, como o monte ou o rio, aparecem como zonas de relativa calma, fruição, amizade ou possibilidade. Essa reconfiguração espacial não só afeta a construção dos personagens, mas também produz uma cartografia na qual o habitável e o inabitável, a liberdade e o perigo, são redefinidos. Da mesma forma, a dimensão sonora e linguística adquire um lugar privilegiado na inscrição do regional, por meio dos socioletos, das línguas indígenas em relação às colonas, assim como da carga emocional opositiva entre sons do entorno natural e da maquinaria exploradora. O som introduz marcas diferenciais que constroem os territórios, que definem e recuperam povos e formas periféricas-plurais e tensionam as imagens e os estereótipos.
    A partir dessa perspectiva, a análise busca dar conta de como, por meio de operações formais e sensíveis, esses filmes não apenas representam mundos, mas também produzem experiências que tensionam as formas de perceber, sentir e compreender as relações entre corpo, território e experiência.

Bibliografia

    Barthes, R. (1999). Mitologías. Siglo xxi.
    De Lauretis, T. (1992). Alicia ya no: feminismo, semiótica, cine. Madrid, España: Cátedra.
    De Lauretis T. (1989) La tecnología del género. Trad. Ana María Bach y Margarita Roulet. Technologies of Gender. Essays on Theory, Film and Fiction. (pp.1-30) Londres, Inglaterra: Macmillan Press.
    Mirzoeff, N. (2011). The right to look. Critical inquiry, 37(3), 473-496.
    Shohat, E., & Stam, R. (2006). Do eurocentrismo ao policentrismo. Crítica da imagem eurocêntrica. Tradução de Marcos Soares. São Paulo: Cosac Naify.
    Sontag, S. (2011). Ante el dolor de los demás. DEBOLS! LLO.
    Filmografía
    Seggiaro, D. (Directora) (2012). NOSILATIAJ La belleza [Película]. Salta, Argentina: VISTA SUR FILMS.
    Brennand, M. (Directora) (2024). Manas [Película]. Recife, Brasil: Mariola Filmes