Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Leticia Santinon (UFRB)

Minicurrículo

    Leticia Santinon atua nas áreas de distribuição, pesquisa, curadoria e programação audiovisual. É mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), com pesquisa sobre a circulação da obra da cineasta Sarah Maldoror no Brasil. Em 2023, fundou a Cajuína Audiovisual, distribuidora de cinema brasileiro independente.

Ficha do Trabalho

Título

    Distribuição na América Latina: Brasil e Colômbia, permanências coloniais e soberania nacional

Seminário

    Políticas, economias e culturas do cinema e do audiovisual no Brasil

Resumo

    O mercado de distribuição audiovisual no Brasil é analisado a partir de seu histórico de interferência estrangeira. Embora o país tenha avançado na produção audiovisual, os setores de distribuição e exibição permanecem estruturados pela subserviência a agentes internacionais. Nesse contexto, investigam-se os limites de um mercado nacional autônomo, propondo-se uma análise comparativa com a Colômbia, identificando estratégias de fortalecimento da distribuição nacional na América Latina.

Resumo expandido

    A pesquisa propõe uma reflexão crítica sobre o mercado de distribuição audiovisual no Brasil mobilizando o conceito de “colonialismo de submissão”, formulada por Antônio Bispo dos Santos: “É aquele colonialismo que é dos submetidos, dos subservientes.” (Bispo, 2023, p.79). Partindo desta compreensão, de que o colonialismo persiste como estrutura organizadora das relações econômicas e simbólicas contemporâneas, observa-se que a cadeia audiovisual brasileira — especialmente na sua difusão: distribuição e exibição — permanece marcada por uma inserção historicamente subordinada.
    Desde o início do século XX, com a consolidação dos primeiros circuitos exibidores no país na cidade do Rio de Janeiro, o mercado brasileiro estruturou-se com base na importação e difusão de conteúdos estrangeiros (Autran, 2013; Butcher, 2024). Essa configuração se intensifica no pós primeira guerra mundial, com a ascensão de Hollywood e o uso estratégico do cinema como instrumento de soft power, consolidando uma lógica de dependência que atravessa o século XX e se atualiza no presente.
    Embora o Brasil tenha desenvolvido, nas últimas décadas, uma produção audiovisual significativa, esse crescimento não foi acompanhado por transformações estruturais equivalentes na distribuição e na exibição. O mercado exibidor brasileiro segue altamente concentrado, com predominância de complexos operados por empresas estrangeiras, sobretudo estadunidenses. Paralelamente, observa-se o fechamento progressivo de salas independentes ou sua adaptação a modelos de programação alinhados aos circuitos hegemônicos, como estratégia de sobrevivência e atração de público.
    No campo da distribuição, ainda que políticas públicas recentes, como a Lei Paulo Gustavo (LPG), tenham permitido a ampliação do número de distribuidoras atuantes, persistem os mesmos desafios estruturais. Os recursos permanecem concentrados em um conjunto restrito de agentes, majoritariamente localizados na região sudeste, e distribuidoras independentes mais consolidadas tendem a privilegiar obras com maior apelo comercial, em detrimento de uma diversidade mais ampla de produções. Nesse contexto, o cinema brasileiro independente continua enfrentando dificuldades significativas de acesso ao circuito exibidor, bem como em outras janelas, como a televisão aberta e até mesmo o licenciamentos para a televisão paga e plataformas de streaming.

    Diante desse cenário, a pesquisa questiona a própria possibilidade de se pensar um mercado de distribuição nacional autônomo, ao mesmo tempo em que busca investigar caminhos para o fortalecimento da circulação de filmes independentes. Consideração o histórico de submissão que constitui e estabelece o mercado exibidor brasileiro, cuja a interferência de agentes estrangeiros segue operante. Nesse sentido, o trabalho propõe refletir sobre iniciativas e políticas que possam efetivamente romper com essa lógica, contribuindo para a reconfiguração das estruturas de distribuição e exibição no país.
    Para tanto, propõe-se uma análise comparativa entre Brasil e Colômbia, considerando as semelhanças históricas entre os dois países no que diz respeito à presença dominante de empresas estrangeiras em seus mercados audiovisuais nacionais. Serão observadas, em especial, as políticas de distribuição implementadas pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE) e a Corporação de Fundo Misto de Promoção Cinematográfica Proimágenes Colômbia, que, através de duas políticas públicas para a distribuição, buscam ampliar a circulação nacional e internacional de suas cinematografias.
    A partir dessa análise, a pesquisa pretende identificar estratégias e experiências que possam contribuir para a formulação de políticas e práticas voltadas ao fortalecimento da distribuição audiovisual na América Latina, entendendo-a como um campo de disputa fundamental para a soberania da região.

Bibliografia

    AUTRAN, Arthur. O pensamento cinematográfico brasileiro. São Paulo: Hucitec Editora, 2013.

    BUTCHER, Pedro. Hollywood e o mercado de cinema no Brasil: Princípios de uma hegemonia. Belo Horizonte: Letramento, 2024.

    SANTOS, Antônio Bispo. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu, 2023.