Ficha do Proponente
Proponente
- Cintya Ferreira Mendes (UFF)
Minicurrículo
- Cintya Ferreira é mestra pelo PPGCine/UFF, onde desenvolveu a dissertação “Filho da Lua: Zózimo Bulbul e as aproximações entre Compasso de Espera e Alma no Olho”, e atualmente é doutoranda no mesmo programa. Sua pesquisa investiga o cinema em articulação com o contexto histórico e as experiências negras. Atua também como montadora e oficineira no campo do cinema e da educação.
Ficha do Trabalho
Título
- Amor e política: relações raciais e as disputas de pertencimento em Compasso de Espera e Tuti
Seminário
- Estudos Comparados de Cinema
Resumo
- A comunicação articula o filme Compasso de Espera (Antunes Filho, 1973) e a peça Tuti (c. 1975/1985), de Ubirajara Fidalgo, investigando como relações amorosas, intra e inter-raciais, operam como espaço de elaboração política na ditadura. Ao contrastar a fragmentação do sujeito no filme com o projeto afirmativo do teatro negro, discute-se como noções de raça e proposições coletivas articulam diferentes formas de engajamento e projetos de Brasil.
Resumo expandido
- No contexto musical, o termo “compasso de espera” designa a pausa que um instrumento realiza em uma orquestra até o momento de sua entrada. No filme Compasso de Espera (Antunes Filho, 1973), essa ideia se desdobra como uma suspensão existencial vivida pelo protagonista Jorge, interpretado por Zózimo Bulbul. Poeta e publicitário negro, Jorge habita um não-lugar: entre a família de origem popular e os espaços profissionais majoritariamente brancos, sua vida é marcada por um constante não pertencimento, condição que também se manifesta em sua vida amorosa, por meio de triângulo amoroso com duas mulheres brancas.
No desfecho do filme, ele encontra duas mulheres e um homem negros, operários. Segundo Antunes Filho, “naquele momento, Jorge percebeu que era com aquela moça que deveria estar” (SOUZA, 1976). Quando questionado pela moça se é músico, suposição baseada em seu terno, Jorge mente: diz tocar violino. Esse gesto, aparentemente simples, sugere o encerramento de sua “pausa”, ainda que sem uma dimensão resoluta. A possibilidade de uma relação com uma mulher negra e operária surge, assim, como horizonte para sua saída da suspensão.
Esse percurso dialoga com o pensamento de Antunes Filho no teatro. Entre 1969 e 1973, período mais duro da ditadura civil-militar, Antunes dirigiu oito peças, dentre elas três de dramaturgos brasileiros: Corpo a Corpo (1971) e Nossa Vida em Família (1972), de Oduvaldo Vianna Filho, e Check-up (1973), de Paulo Pontes. Essas obras oferecem um panorama das inquietações do período, delineia-se uma visão marcada pelo pessimismo: a fragmentação do sujeito, a ineficácia da ação política e o colapso das expectativas de transformação. Tais questões reverberam diretamente em Compasso de Espera, especialmente na construção de Jorge. A verborragia presente no filme traduz o impasse de uma geração. No filme, o vínculo romântico inter-racial explicita tensões ideológicas e de não integração.
Essa perspectiva encontra um desdobramento particular na peça Tuti (c. 1975; encenação em 1985), de Ubirajara Fidalgo. Inserida no contexto de atuação de Ubirajara e Alzira Fidalgo, fundadores do Teatro Profissional do Negro (TEPRON), a peça desloca o foco para a experiência da mulher negra dentro dessas dinâmicas afetivas. Ao acompanhar o encontro entre Desmótenes, professor negro, e a prostituta Tuti, o texto explicita não apenas os impasses do homem negro entre desejo, ascensão social e pertencimento racial, mas também os receios, críticas e posicionamentos da mulher negra diante de relações que a atravessam de forma desigual.
Tuti tensiona diretamente a escolha amorosa de Desmótenes, que mantém um noivado com uma mulher branca, expondo as implicações simbólicas e materiais dessa relação. O homem passa por uma transformação a partir do seu encontro com Tuti e passa a formular um novo projeto atrelado à negritude. A verborragia na peça não representa o impasse, pelo contrário, há uma dimensão teleológica acompanhada de uma proposta de ação. Desmótenes explica: “eu quero formar minha comunidade de maneira muito particular. […] Formando uma pequena família, casando com uma mulher negra que tenha ideias em comum comigo, uma negra assumida que me ame (…)” (FIDALDO apud REZENDE, 2017, p.442). Tal formulação explicita um horizonte coletivo que se organiza a partir de uma lógica familiarista.
Essa comunicação pretende articular Compasso de Espera e Tuti para pensar a dimensão política das relações amorosas e diferentes modos de elaboração do engajamento no contexto de ditadura. Se no filme de Antunes Filho predomina a fragmentação do sujeito e a dificuldade de ação, em consonância com uma visão mais ampla de crise da esquerda, em Tuti, inscrita no campo do teatro negro, observa-se a formulação de um projeto mais afirmativo, ainda que atravessado por contradições, no qual a negritude, a comunidade e o amor operam como fundamentos possíveis de reorganização social.
Bibliografia
- REZENDE, Girlene Verly Ferreira de Carvalho. A dramaturgia do Teatro Experimental do Negro (TEN) e do Teatro Profissional do Negro (TEPRON): corpo e identidades. 2017. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2017.
SOUZA, Maria Eduarda Alves de. A Xilografia inter-racial em “Compasso de Espera”. Jornal do Brasil, 26 de mar. de 1976, ed.349.