Ficha do Proponente
Proponente
- Paula Nogueira Ramos (UNIFESP)
Minicurrículo
- Pesquisadora dedicada aos estudos do vídeo e da performance. Pós-doutoranda em História da Arte na UNIFESP e professora nos cursos de Rádio e TV, Produção Audiovisual e Artes Visuais na FMU FIAM-FAAM. Doutora em Arquitetura pela FAUUSP, mestre em História da Arte Contemporânea e Cultura Visual pela UCM (Madri) e graduada em Midialogia pela UNICAMP.
Ficha do Trabalho
Título
- Do confinamento à fuga: práticas de resistência em Berna Reale e Regina José Galindo
Seminário
- Tenda Cuir
Resumo
- O trabalho parte do motivo visual da grade em obras de artistas mulheres e verifica seu deslocamento para o corpo e o gesto na performance. A partir de obras audiovisuais de Berna Reale e Regina José Galindo, investiga-se como suas práticas performativas desafiam os confinamentos sociopolíticos, mobilizando o som e as ações coletivas como formas de resistência. Em diálogo com Saidiya Hartman e Jota Mombaça, propõe-se a noção de “mecanismos poéticos de fuga” como chave de leitura analítica.
Resumo expandido
- No campo das artes, o motivo visual da grade aparece recorrentemente em obras de artistas mulheres desde meados do século passado. Notamos sua presença em formas de gaiolas ou celas de prisão, como na fotocolagem “Os sonhos sobre aprisionamento” (1949), de Grete Stern; na instalação “Terminal Piece” (1972), de Kate Millett; na videoperformance “Sem título – gaiolas” (1975), de Sonia Andrade; bem como nas obras instalativas de Louise Bourgeois e Mona Hatoum. Em algumas delas, mulheres figuram como prisioneira, remetendo a experiências literais de aprisionamento. Em outros casos, a imagem da jaula não deriva de um episódio biográfico direto, mas de violências políticas ligadas ao exílio e a elaborações simbólicas do “aprisionamento” psíquico ou social, frequentemente relacionadas ao gênero.
Ao analisar obras contemporâneas audiovisuais de artistas da performance, como a brasileira Berna Reale (que também atua como perita policial) e a guatemalteca Regina José Galindo, percebemos que o motivo do confinamento deixa de ser figurado como estrutura visual (grades e gaiolas) e passa a se manifestar na ação e no gesto performativo. Suas obras explicitam violências sociopolíticas e de gênero de forma direta; seja ao submeterem seus próprios corpos a condições de vulnerabilidade, seja ao encenarem coletivamente gestos disciplinares que remetem às forças estatais e policiais no Brasil e na Guatemala. No entanto, interessa investigar nesta apresentação em que medida esses trabalhos também operam como contraponto a essa violência, ao mobilizar o corpo e o som como formas de resistência que tensionam e, por vezes, desafiam os próprios mecanismos de enclausuramento.
Na obra sonora “Las escucharán gritar y no abrieron la puerta” (2017), de Regina José Galindo, mulheres gritam em um quarto com microfones durante nove minutos — duração que remete ao tempo em que quarenta e uma meninas gritaram ao tentar escapar de um crime de Estado no Refugio Virgen de la Asunción. Já no vídeo “Rosa Púrpura” (2014), Berna Reale marcha pelas ruas de Belém ao lado de cinquenta meninas vestidas de colegial, que carregam em suas bocas próteses plásticas que evocam cavidades orais de bonecas, acompanhadas por uma banda militar. Em uma primeira camada, observa-se nas obras das duas artistas a ruptura do silenciamento, frequentemente em espaços públicos, em relação a abusos socialmente velados, por meio de operações como “gritar”, “marchar” ou “iluminar”. Indo além, notamos que as artistas também lidam com gestos como “desaparecer”, “abater”, “correr” ou “marchar para trás”, que apontam para outras estratégias de enfrentamento.
Propõe-se analisar as obras de Reale e José Galindo a partir dos mecanismos poéticos de fuga, entendidos como forma de recusa à violência, em diálogo com os gestos fabulativos de duas escritoras e artistas. Em uma passagem de “Vidas rebeldes, belos experimentos” (2019), Saidiya Hartman descreve um levante na prisão de Lowell Cottage, em 1919, nos Estados Unidos, no qual jovens internas protestaram contra as violências da prisão e insistiram “que não tinham feito nada que justificasse seus confinamentos” (HARTMAN, p. 294). Seus cantos e gritos foram descritos pelos jornais da época como uma “revolta sônica, um protesto sonoro, um coro infernal” (Idem). Já no ensaio ficcional de Jota Mombaça, “Você consegue soar como 2000?” (2021), a autora aborda a chamada Era do Lockdown, na qual Estados-nações controlam deslocamentos e perseguem pessoas não cidadãs, narrando estratégias de sobrevivência de um grupo por meio de “feitiços de invisibilidade e proteção”, como forma de camuflar sua existência. Nesse sentido, queremos aproximar as obras de Galindo e Reale da “revolta sônica” descrita por Hartman, em que o grito coletivo inscreve uma resistência ao regime de confinamento, bem como dos “feitiços” evocados por Mombaça, entendidos como estratégias de opacidade, desvio e sobrevivência.
Bibliografia
- CALIRMAN, Claudia. Dissident Practices. Brazilian Women Artists, 1960s-2020s. Durham and London: Duke University Press, 2023.
CAZALI, Rossina. “Empathy and Complicity in Regina José Galindo’s America’s Family Prison. In: Post: notes on art in a global contexto. Acessado em: https://post.moma.org/empathy-and-complicity-in-regina-jose-galindos-americas-family-prison/
FOUCAULT, Michel. O corpo utópico, as heterotopias. Tradução de Salma Tannus Muchail. São Paulo: n-1 edições, 2013.
HARTMAN, Saidiya. Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. Tradução de Floresta. São Paulo: Fósforo, 2022.
MOMBAÇA, Jota. “Você consegue soar como 2000?” Tradução de Jess Oliveira e Bruna Barros. In: OSE, Elvira (ed.). Faz escuro mas eu canto: 34ª Bienal de São Paulo. Fundação Bienal de São Paulo: São Paulo, 2021, pp. 114-118.