Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ramayana Lira de Sousa (UNISUL)

Minicurrículo

    Ramayana Lira de Sousa é professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem e do curso de graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade do Sul de Santa Catarina, com pesquisa em cinema pela UFSC e pós-doutorado na University of Leeds e na Unicamp. Foi bolsista Fulbright Scholar-in-Residence nos Estados Unidos. Atuou como vice-presidente da SOCINE por dois biênios.

Coautor

    Alessandra Soares Brandão (UFSC)

Ficha do Trabalho

Título

    Arquivo e desejo: texturas e práticas de um cinema do velcro

Resumo

    Ao reunir uma apresentação teórico-metodológica e uma vídeo-ensaio a partir de três curtas brasileiros sobre vidas sapatão, esta proposta aciona o “velcro”, metodologia cuir que opera por fricções entre imagens, corpos e desejos, para pensar precariedade digital como textura constitutiva e condição de recepção. Mobilizando a erotohistoriografia de Freeman e a noção de arquivo excêntrico [“silly”] de Halberstam, o vídeo-ensaio reativa registros sapatões precarizados para produzir memória cuir.

Resumo expandido

    Esta submissão reúne uma apresentação teórico-metodológica e um vídeo-ensaio construídos a partir de três curtas-metragens: À beira do planeta mainha soprou a gente (Bruna Barros e Bruna Castro, BA, 2020), Rebu: egolombra de uma sapatão quase arrependida (Mayara Santana, PE, 2019/2020) e Trópico de Capricórnio (Juliana Antunes, MG, 2020). Os filmes focam em vidas sapatão e trabalham com imagens digitais de baixa resolução como matéria expressiva. Em vez de tratar pixelização, compressão e instabilidade cromática como defeitos, esta proposta desloca o conceito de “grão” do cinema analógico para o digital, lendo essas qualidades como texturas constitutivas, carregadas de historicidade e memória. A precariedade técnica aparece, assim, ao mesmo tempo como condição de produção e de recepção, configurando o que o trabalho chama de uma visualidade sapatão situada. Nos curtas, essa visualidade monta um arquivo pessoal de imagens frequentemente tremidas ou mal legíveis, que ressoa tanto com a dificuldade de acioná-las pelo trabalho da rememoração quanto com a legibilidade social e imagética da própria sapatão.
    A análise se organiza em torno do conceito de “velcro”, uma proposta teórico-metodológica ancorada em experiências sapatão e cuir que funciona por fricções e desencaixes entre imagens, corpos e desejos. A abordagem mobiliza conceitos como hipermemória cinéfila e hipomemória do desejo, recusando a pretensa objetividade da análise fílmica tradicional. Alinhada a perspectivas feministas, antirracistas e decoloniais, ela encontra no vídeo-ensaio sua forma privilegiada, entendido não como ilustração, mas como prática que pensa ao intervir diretamente na matéria fílmica.
    Partindo da erotohistoriografia de Elizabeth Freeman, o trabalho propõe uma relação corporal e afetiva com essas imagens, na qual reativar registros precarizados produz conhecimento que escapa ao comentário crítico. Ao reunir e fazer circular materiais antes restritos a circuitos fechados, o vídeo-ensaio opera também dentro da lógica do que Jack Halberstam chamou de “arquivo excêntrico” [“silly archives”], produzindo memória cuir por vias não institucionais. A proposta sustenta, assim, uma tensão produtiva entre análise e criação, argumento e experiência, teoria do arquivo e o arquivo que se faz no próprio ato de teorizar.

Bibliografia

    FREEMAN, Elizabeth. Time Binds: Queer Temporalities, Queer Histories. Durham: Duke University Press, 2010.
    HALBERSTAM, Jack. A arte queer do fracasso. Recife: Cepe, 2020.
    SOUSA, Ramayana Lira de; BRANDÃO, Alessandra Soares. Des/encaixes cuir do velcro: corpos, imagens e cinemas em fricção. Revista Brasileira de Estudos da Homocultura, v. 08, e19778, 2025.
    SOUSA, Ramayana Lira de; BRANDÃO, Alessandra Soares. Inventário de uma infância sapatão em um mundo de imagens. Revista Brasileira de Estudos da Homocultura, v. 3, p. 121, 2020.