Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Liciane Timoteo de Mamede (Unicamp)

Minicurrículo

    Liciane Mamede é programadora, produtora cultural e pesquisadora. É doutora em Multimeios pela Unicamp, com período de doutorado sanduíche na Universidade Paris 3 – Sorbonne Nouvelle. Possui mestrados em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (2014) e em Valorização do Patrimônio Audiovisual pela Universidade Paris 8 (2017).

Ficha do Trabalho

Título

    Preservação audiovisual e redes de troca: a experiência da Associação Cultural Videobrasil

Resumo

    A comunicação propõe analisar a trajetória da Associação Videobrasil com ênfase nas redes de troca que sustentaram a construção de metodologias de preservação ajustadas ao contexto brasileiro. A partir de intercâmbios com instituições da América Latina e do Norte global, evidencia-se a preservação audiovisual como prática relacional, cujos métodos se formam em rede e se adaptam às condições materiais, sociais e econômicas de cada contexto institucional.

Resumo expandido

    O Festival Videobrasil surge em 1983, em São Paulo, no contexto de formação de uma cena brasileira de vídeo independente, marcada por seu caráter híbrido e por operar em um horizonte ainda pré-institucional. Nesse momento, embora iniciativas como as de Walter Zanini no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo constituam referências fundamentais, o campo do vídeo se estruturava de forma dispersa, atravessado por diferentes práticas e circuitos. Em um período de transição política, cultural e midiática no Brasil, o vídeo se afirmava simultaneamente como linguagem artística, ferramenta de televisão alternativa, instrumento de militância e espaço de experimentação narrativa, articulando desde experiências de vídeo popular até proposições mais próximas do circuito das artes visuais.

    Desde suas primeiras edições, o Videobrasil desempenhou um papel central na visibilização dessa produção heterogênea, atuando como um espaço de encontro, circulação e legitimação. Ao longo das décadas seguintes, no entanto, tanto o contexto quanto o próprio festival se transformaram, acompanhando processos mais amplos de especialização e institucionalização do campo audiovisual e artístico. Nesse percurso, a rápida obsolescência dos suportes videográficos se impõe como uma questão crítica, tornando urgente a formulação de estratégias de preservação dessas obras.

    É nesse contexto que, em 1991, a criação da Associação Cultural Videobrasil formaliza esse movimento, consolidando a passagem de uma iniciativa voltada à difusão (o festival) para uma estrutura institucional comprometida também com a salvaguarda de seu acervo. A partir de então, constitui-se um conjunto que reúne mais de quatro décadas de produção, composto por cerca de 1300 obras e 4500 itens documentais.O acervo da associação é hoje um dos principais arquivos dedicados à história do vídeo e das práticas audiovisuais experimentais no Brasil.

    Ao longo desse tempo, os métodos desenvolvidos para preservação desses materiais pela associação vêm se baseando tanto em sua própria experiência e inserção no contexto brasileiro, quanto nas trocas e intercâmbios estabelecidos com diversos parceiros e colaboradores internacionais que, no mesmo período, se deparavam com os mesmos problemas relativos à preservação desses materiais. A sistematização dos procedimentos adotados pelo campo ainda estava em processo no início dos anos 2000, e mesmo hoje ainda segue em aberto. Diante disso, a circulação de informações entre diversos atores institucionais, atuando em diferentes países, foi e segue como decisiva para a constituição de uma metodologia de preservação no campo da arte e mídia que é, em grande parte, construída em rede.

    Desta forma, a comunicação aqui proposta pretende abordar a trajetória da Associação Videobrasil com especial ênfase nas redes de trocas estabelecidas a fim de dar conta de implementar uma metodologia de preservação compatível com a realidade de seu acervo e com o contexto brasileiro. Sabemos, por exemplo, que intercâmbios foram estabelecidos tanto com instituições que compartilhavam circunstâncias mais ou menos análogas, como a ATA – Alta Tecnología Andina (Peru) e Laboratório Arte Alameda (México), no início dos anos 2000, quanto com centros de arte e mídia localizados em países como Canadá e Estados Unidos. Ao evidenciar esses circuitos de colaboração, a proposta busca mostrar como a preservação audiovisual se constitui, em grande medida, como uma prática relacional, cujas metodologias são elaboradas e se transformam continuamente a partir de redes de troca, sem deixar de ser, incontornavelmente, atravessadas pelas condições materiais, sociais e econômicas de cada contexto institucional.

Bibliografia

    ALMEIDA, Thamara Venâncio de. As manifestações artísticas com o vídeo no contexto do Festival Videobrasil (1983-2001). ARS (São Paulo), São Paulo, v. 8, n. 40, p. 290–343, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ars/a/KTDgJqDTWKkkwyTs7qv647m/
    . Acesso em: 26 abr. 2026.
    BALSOM, Erika. After uniqueness: A History of Film and Video Art in Circulation. Nova York: Columbia University Press, 2017.
    BEIGUELMAN, Giselle & MAGALHÃES, Ana G (org.). Futuros possíveis: arte, museus e arquivos digitais. São Paulo: Edusp, 2014.
    FARKAS, Solange & MARTINHO, Tetê (org.). Videobrasil: Três décadas de vídeo, arte, encontros e transformações. São Paulo: Sesc/ Associação Videobrasil, 2015.
    MAMEDE, Liciane. Construindo um acervo vivo: a trajetória da Associação Cultural Videobrasil. Alceu, Rio de Janeiro, v. 25, n. 56, p. 26–46, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.46391/ALCEU.v25.ed56.2025.507. Acesso em: 26 abr. 2026.