Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ana Paula Pereira (UNISUL)

Minicurrículo

    Doutoranda em Ciências da Linguagem pela UNISUL, com mestrado profissional em Administração (UNOESC). Possui especializações em Tecnologias para Educação Profissional, Gestão Pública e Direito Administrativo. Graduada em Letras (Português/Inglês) e Direito. Servidora pública no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina.

Ficha do Trabalho

Título

    Entre Reparação e Limites: Análise Crítica do Curta para Mulheres 2023

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    O trabalho analisa criticamente o Edital Curta para Mulheres 2023 como política de ação afirmativa no audiovisual brasileiro. Discute seus avanços na promoção da equidade de gênero e seus limites estruturais, considerando tensões entre inclusão, precarização e sustentabilidade no campo das políticas culturais.

Resumo expandido

    O Edital SAV/MINC nº 04/2023 – Curta para Mulheres, lançado pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, insere-se no conjunto recente de políticas públicas voltadas à recomposição institucional do setor cultural brasileiro e à promoção de equidade de gênero. Este trabalho propõe uma análise crítica do edital, tensionando seus pressupostos, alcances e limites enquanto instrumento de ação afirmativa no campo audiovisual.
    A formulação do edital responde a uma histórica sub-representação de mulheres na cadeia produtiva do cinema brasileiro, amplamente documentada por estudos que evidenciam desigualdades de acesso a financiamento, circulação e reconhecimento. Nesse sentido, a iniciativa pode ser compreendida como um mecanismo de reparação simbólica e material, ao priorizar a autoria feminina e incentivar a diversidade racial, regional e de identidade de gênero.
    Entretanto, ao mesmo tempo em que o edital se alinha a uma agenda progressista de inclusão, sua estrutura evidencia contradições inerentes às políticas culturais contemporâneas marcadas pela lógica de editais competitivos e temporários. A concessão de bolsas pontuais, embora relevante, não necessariamente altera as bases estruturais de exclusão do setor, podendo operar mais como medida compensatória do que como transformação sistêmica.
    Além disso, observa-se que a ênfase na diversidade, ainda que fundamental, pode ser capturada por dinâmicas institucionais que tendem à instrumentalização da diferença, convertendo-a em critério de seleção sem necessariamente garantir condições equitativas de produção e circulação posteriores. Tal processo levanta questões sobre a efetividade de políticas que privilegiam o acesso inicial, mas não asseguram continuidade profissional às realizadoras contempladas.
    Outro ponto crítico refere-se à inserção do edital em um contexto mais amplo de precarização do trabalho cultural. A política de bolsas, ao deslocar a relação trabalhista para o campo do fomento eventual, pode reforçar a instabilidade já característica do setor audiovisual, especialmente para mulheres que enfrentam múltiplas camadas de vulnerabilidade.
    Do ponto de vista estético e discursivo, o edital possui potencial para fomentar narrativas dissidentes e ampliar o repertório imagético do cinema brasileiro. No entanto, tal potencial depende de condições materiais e institucionais que extrapolam o escopo do edital, incluindo políticas de distribuição, exibição e formação de público.
    Assim, argumenta-se que o Edital Curta para Mulheres 2023 deve ser compreendido simultaneamente como avanço e como sintoma: avanço na medida em que reconhece e enfrenta desigualdades históricas; sintoma por evidenciar a persistência de um modelo de política cultural fragmentado, baseado em ações pontuais e insuficientes para promover mudanças estruturais duradouras.
    Conclui-se que, embora relevante, o edital demanda articulação com políticas de longo prazo que integrem financiamento contínuo, regulação do mercado e fortalecimento institucional, sob o risco de que suas conquistas permaneçam circunscritas ao plano simbólico e episódico.

Bibliografia

    BRASIL. Ministério da Cultura. Edital SAV/MINC nº 04/2023 – Curta para Mulheres. 2023.
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    MULVEY, Laura. Prazer Visual e Cinema Narrativo. In: XAVIER, Ismail (org.).
    NICHOLS, Bill. Introdução ao Documentário. Campinas: Papirus, 2005.
    DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A Nova Razão do Mundo. São Paulo: Boitempo, 2016.