Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ligia Maria Mello Dias (PROURB/ UFRJ)

Minicurrículo

    Graduada em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal de Pernambuco e mestra em Desenvolvimento Urbano pela mesma instituição. Após o mestrado, realizou um post-master na École Nationale Supérieure d’Architecture Paris La Villette, onde participou do Laboratório Gerphau (Groupe d’Étude et de Recherches Philosophie, Architecture, Urbain). Atualmente é doutoranda em cotutela entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro e École Nationale Supérieure d’Architecture et Paysage de Lille.

Ficha do Trabalho

Título

    Experimentações. Olhar a cidade do Recife através da análise fílmica

Mesa

    Cinema e cidade: entre o público, a representação e a produção do espaço

Resumo

    Em um contexto no qual é cada vez mais urgente começar a imaginar novas possibilidades de articulações e formas de vida, o deslocamento do olhar para novas maneiras sensíveis de olhar para a cidade se faz necessário. Assim, em um caminho um pouco inverso ao habitual, a utilização de instrumentos de análise da imagem-movimento pode ajudar a ressaltar tonalidades e nuances existentes no cotidiano da cidade que precisam ser reutilizadas, descartadas ou permanecerem.

Resumo expandido

    A história da cidade e do cinema estão entrelaçadas. No final do século XIX, aconteceu uma certa explosão da vida urbana, a qual veio acompanhada de transformações dos espaços da cidade através de grandes obras de infraestrutura. Na mesma época, o cinema nascia e usava a cidade e as suas grandes obras em desenvolvimento como objeto do seu olhar. Esse fenômeno não foi exclusivo de cidades européias. Na cidade do Recife, por exemplo, uma grande produção de filmes encomendados pelo próprio Estado para registrar e propagandear essas obras foi realizada (Saraiva; Diniz, 2020). Assim, os estudos urbanos e o cinema, desde o seu princípio, possuem um lugar comum. Atualmente, esse lugar comum se expande para outras dimensões que vão além de uma localização geográfica. A cidade acaba por desempenhar um papel de dar tonalidade à narrativa cinematográfica a partir das suas ambiências e tensões sociais, culturais e históricas. No entanto, é interessante pensar também por um outro caminho essa relação entre a cidade e o cinema, uma outra direção do fluxo de ideias e questionamentos. Talvez, a prática cinematográfica com o seu olhar cuidadoso e minucioso do espaço, mas também da vida, possa ajudar a pensar sobre e a olhar para cidade numa tentativa de capturar – ou pelo menos estabilizar de alguma maneira – os elementos que têm a potência de conformar de certa maneira a estética da vida ordinária de um determinado lugar.
    Em um contexto global onde a precariedade na vida parece se generalizar cada vez mais, mesmo que em proporções e contextos distintos, parece urgente a necessidade de começar a sonhar com que se quer, tem a capacidade de imaginar novas realidades. Afinal, a que estamos continua matando através de guerras, desastres naturais e políticas de exploração e consumo. O novo pode começar a ser vislumbrado nas rupturas praticadas no cotidiano da cidade, mas também nas sutilezas que constituem um espaço e acabam por permitir o afeto se desenrolar e dar a capacidade de sonhar. Assim, a necessidade de criar rupturas a um sistema homogêneo e mortal se faz necessária (Escobar, 2020; Preciado, 2022), identificar elementos do real social que ressoam e afetam esteticamente quem habita o espaço é um caminho para começar a sonhar com novos mundos, novas formas de habitar, ao desvelar possibilidades do novo, mas também indicar permanências necessárias.
    Dessa forma, a cidade do Recife, a qual é extensamente capturada em produções cinematográficas, será o lugar escolhido para o desenvolvimento deste ensaio. E a palavra ensaio aqui representa o desejo de experimentar, tentar, pensar novas possibilidades de leitura. Um ensaio sobre como olhar para o espaço urbano a partir da utilização da análise fílmica e os elementos e possibilidades que ela pode fornecer (Goliot-Lété; Vanoye, 2007). Como pensar, descrever e analisar o espaço da cidade a partir dos seus sons, luzes, montagens, personagens? A cidade é feita todos os dias por quem a habita, assim, apresentar a cidade dessa maneira pode ser uma oportunidade de visualizar os seus traços e rastros que realmente ficam marcados tanto na experiência individual de quem faz a análise, mas também de um determinado coletivo que habita esse lugar específico. Em um mundo em chamas, alguns gestos podem provocar essas rupturas que dão a pensar e, principalmente, a imaginar novas possibilidades de vida. A transversalidade das disciplinas é uma oportunidade de deslocamento do olhar para, assim, enxergar algo que escapa na sutileza do cotidiano e pode acabar por mostrar caminhos para esses novos mundos.

Bibliografia

    ESCOBAR, Arturo. Pluriversal politics: The real and the possible. Duke University Press, 2020.
    GOLIOT-L’ÉTÉ, Anne; VANOYE, Francis. Précis d’analyse filmique. Paris: Armand Colin, 2007.
    PRECIADO, Paul B. Dysphoria Mundi. Paris: Grasset, 2022.
    SARAIVA, Kate Vivianne Alcantara; MOREIRA, Fernando Diniz. Recife: cidade e cinema (1923-1931). Sillogés, v. 3, n. 2, 2020.