Ficha do Proponente
Proponente
- Samuel Paiva (UFSCar)
Minicurrículo
- Professor Associado da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde atua no Bacharelado em Imagem e Som e no Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som.
Ficha do Trabalho
Título
- Performances do Corpo no Documentário Cartola: Música para os Olhos
Resumo
- Investigando relações entre cinema, música e corporeidades, no âmbito dos documentários musicais sobre o samba, esta comunicação focaliza o filme Cartola: música para os olhos (Lírio Ferreira, Hilton Lacerda, 2006) como ponto de partida para uma reflexão interdisciplinar sobre performances corporais na chave das “oralituras” (Martins), cogitando aproximações aos “modos de representação no documentário” (Nichols) e às “vozes” (Chion) no cinema.
Resumo expandido
- O samba é “o dono do corpo”, afirma Muniz Sodré (1998), remetendo ao fato de que, por conta da “síncopa”, que é característica desse gênero musical, ou seja, da “ausência no compasso de uma marcação de um tempo (fraco) que, no entanto, repercute noutro mais forte” (Ibid., p. 11), os ouvintes são incitados a preencher essa ausência, a batida que falta, com marcações do próprio corpo: palmas, balanços, meneios. Logo, a síncopa é uma premissa para esta comunicação, que se coloca como parte de uma pesquisa sobre documentários musicais relacionados ao samba. Nesse sentido, proponho perguntas relacionadas à ideia do corpo enquanto “oralitura”, nos termos propostos por Leda Maria Martins (2003; 2021a; 2021b). A autora, voltada ao estudo de performances afrobrasileiras, propõe o conceito de “oralitura”, afirmando: “O significante oralitura, da forma como o apresento, não nos remete univocamente ao repertório de formas e procedimentos culturais da tradição verbal, mas especificamente, ao que em sua performance indica a presença de um traço residual, estilístico, mnemônico, culturalmente constituinte, inscrito na grafia do corpo em movimento e na vocalidade” (Martins, 2003, p. 77).
Em minha hipótese, tal concepção de oralitura impacta o campo dos estudos sobre cinema em distintas possibilidades. No âmbito das pesquisas sobre documentário, por exemplo, instiga uma reflexão sobre os “modos de representação” (Nichols, 2005) que destacam os corpos de sujeitos com atuações da memória, como previsto no próprio “modo performático”. Já no campo dos estudos sobre som e música no cinema, a oralitura parece indicar percursos sobre a “vocalidade”, sugerindo caminhos diversos aos que são propostos, por exemplo, por Michel Chion (1993) e outros autores discutidos por Sérgio Puccini (2015) em seu artigo sobre “as vozes e o silêncio em Cartola: música para os olhos”.
Que caminhos então prever para os percursos da oralitura no filme codirigido por Ferreira e Lacerda? Lembremos que, na concepção de Leda Maria Martins, o corpo e a voz são lugares de um conhecimento que se expressa em gestos, nos cantos, nas danças, em expressões que se repetem, não como hábito, mas como uma memória que se recria no espaço e no tempo, compensando faltas decorrentes do sistema escravocrata, subvertendo relações de poder, retransmitindo valores da cultura negra.
Seguindo essa trilha, proponho uma leitura de Cartola: música para os olhos destacando os processos de recriação de vida e morte que encontram no corpo e na voz de Cartola um lugar de memória do próprio samba e da cultura negra. Nesse sentido, vale lembrar que, no filme, Cartola nasce e renasce algumas vezes. A narrativa inicia-se com cenas de seu enterro, enquanto ouvimos uma de suas composições, “Divina Dama”, canção que, aludindo à morte, traz versos que dizem estar “tudo acabado e o baile encerrado”. No entanto, uma voz over vem instaurá-lo como narrador post mortem de sua própria vida, tal qual o protagonista de Memórias póstumas de Brás Cubas, romance de Machado de Assis ([1881] 1992), transposto ao cinema por Júlio Bressane em seu filme Brás Cubas (1985). A montagem de Cartola: música para os olhos retoma imagens do filme de Bressane – um microfone escuta o esqueleto do morto – e sobrepõe a voz de Cartola, que revive e começa a contar a história de sua vida desde o começo.
Com materiais de arquivo, além de depoimentos e performances musicais produzidas especialmente para o documentário, outras conexões ocorrerão no transcorrer da montagem. Cartola ainda morrerá e renascerá algumas vezes. Mas sua voz e seu canto sempre retornam, homenageando a Mangueira (a escola de samba querida, a essa altura uma metáfora da própria vida), como no samba “Fiz por Você o que Pude”, cujos versos anunciam a continuidade da história: “E no fim desse labor surge outro compositor com o mesmo sangue na veia”. Em suma, o corpo e a voz de Cartola não se encerram em si mesmos. São recriados em espaços e tempos espiralares.
Bibliografia
- ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 18ª ed. São Paulo: Ática, [1881] 1992.
BRÁS CUBAS. Direção Júlio Bressane, 1985.
CARTOLA, música para os olhos. Direção de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, 2006.
CHION, Michel. La voix au cinéma. Paris: Editions de Etoile/Cahiers du Cinéma, 1993.
MARTINS, Leda. Performances da oralitura: corpo, lugar da memória. Letras, (26), p. 63–81, 2003.
MARTINS, Leda Maria. Afrografias da memória: o Reinado do Rosário do Jatobá. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva; Belo Horizonte: Mazza Edições, 2021a.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar – poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021b.
NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Tradução Mônica Saddy Martins. Campinas: Papirus, 2005.
PUCCINI, Sérgio. As vozes e o silêncio em Cartola, música para os olhos. RuMoRes, v. 9, n. 18, p. 72–85, 2015.
SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.