Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Luiz Otávio dos Santos (UFRB)

Minicurrículo

    Otávio Conceição é oficineiro, pesquisador de som e cineasta formado em Cinema e Audiovisual pela UFRB. É mestrando pelo PPGCOM (UFRB) e membro do grupo de pesquisas e experimentações sonoras, SONatório. Atua em sets de filmagem como captador e diretor de som. Realiza curadorias e oficinas de audiovisual por festivais da região nordeste do país. Foi assistente de curadoria no Cachoeiradoc 2020 e atualmente trabalha como Videomaker e Roteirista.

Ficha do Trabalho

Título

    Som em Ensaio: A Voz Ensaística e a Sátira Anticolonial no Filme Thinya

Eixo Temático

    ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL

Resumo

    Este trabalho analisa o curta “Thinya” (2019), de Lia Letícia, investigando como a voz ensaística subverte o sentido das imagens. Apoiado no Método das Máscaras de Michel Chion, o estudo examina a fricção audiovisual da obra. A narração em Yaathê sobre antigas fotos de famílias europeias inverte o olhar colonial, evidenciando que a sátira do filme é orquestrada de forma quase exclusiva pela potência política da escuta.

Resumo expandido

    Derivado da pesquisa acadêmica “Som em Ensaio: Metodologias para a Análise Fílmica Sonora no Filme-Ensaio Contemporâneo” — que investiga a dimensão acústica e a voz ensaística no cinema brasileiro —, este trabalho recorta a análise do curta-metragem “Thinya” (2019), de Lia Letícia. O objetivo primordial desta proposta é compreender de que maneira o discurso e a vocalidade da voz narrativa operam como elementos de fricção, alterando e subvertendo o sentido original das imagens. O conceito de “ensaio”, remetendo ao gesto de testar e tatear possibilidades, encontra na obra um terreno fértil onde a escuta rompe com a função de mero suporte ilustrativo para assumir a dianteira do pensamento cinematográfico. Diante desse protagonismo sonoro, propõe-se o questionamento: o discurso, embainhado com toda a sua linguagem, vocalidade e técnica decolonial, tem o poder de alterar a imagem?
    A poética da diretora é construída a partir de vivências que escapam aos centros hegemônicos, e o curta materializa essa postura ao rir sarcasticamente do discurso oficial e eurocêntrico que historicamente engessou a visão sobre os povos originários no Brasil. No aspecto visual, a obra apropria-se de fotografias de um álbum de família encontrado ao acaso em um mercado nas ruas de Berlim. No entanto, o verdadeiro fio condutor e elemento desestabilizador do filme — que traz a quebra de expectativa narrativa — encontra-se em sua complexa paisagem sonora. A narrativa avança por meio da voz extradiegética de Maria Pastora, cujo nome indígena batiza o filme: Thinya. Sua vocalidade recita trechos retirados dos diários coloniais “Duas Viagens ao Brasil” (1557), de Hans Staden, e “Viagens pelo Brasil” (1823), de Spix e Martius. O grande diferencial metodológico e político da direção é que esses textos europeus foram traduzidos e são falados integralmente na língua Yaathê, pertencente ao povo Fulni-ô de Pernambuco.
    Para examinar metodologicamente a ironia elaborada por essa composição audiovisual, o estudo apoia-se no arcabouço teórico de Michel Chion, notadamente em seu Método das Máscaras (1994). Tal método surge como uma técnica analítica que se contrapõe a essa hierarquia, consistindo em ocultar temporariamente camadas sonoras ou visuais do filme. Analisa-se o seu discurso isoladamente, seguido da análise das imagens, para, por fim, visualizar como eles se orquestram, se dissipam e se sincronizam (apesar das especificidades de discurso e imagem da obra em questão). Esse procedimento permite observar os efeitos expressivos de cada registro de forma independente para, num segundo momento, investigar criticamente como ocorre a combinação e a colisão de sentidos no tecido da obra.
    Através dessa montagem baseada no atrito, o som promove uma drástica e irônica inversão de papéis. Ao aplicarmos esse procedimento em “Thinya”, fica evidente o potencial da voz ensaística como ferramenta de reescrita histórica. Quando somamos a voz em Yaathê — que narra os assombros, preconceitos e exotismos seculares dos colonizadores diante dos corpos nativos —, o sentido original daquelas fotografias é completamente transformado. A partir dessa nova estrutura/dinâmica, surgem indagações: certas tecnicidades narrativas já previamente estabelecidas em nosso conhecimento audiovisual nos permitem compreender a crítica proposta no filme? Ou é a crítica que nos faz visualizar pela primeira vez essas tecnicidades?
    O discurso dominante acerca da população originária é subvertido, empurrando os sujeitos brancos fotografados para uma posição passiva, exotizante e observada. É a mulher indígena que, valendo-se dos relatos originais daqueles que historicamente a desumanizaram, impõe agora um olhar antropológico sobre a branquitude. A voz, portanto, não apenas acompanha os registros visuais, mas os julga, zombando da narrativa tida como oficial utilizando o dispositivo cinematográfico como uma lente descolonial capaz de reinventar/fabular memórias.

Bibliografia

    CHION, Michel. A audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Texto & Grafia, 2011.
    CORRIGAN, Timothy. The Essay Film: From Montaigne, After Marker. New York: Oxford University Press, 2011.
    LETÍCIA, Lia. Não me sinto líder e isso é ótimo: entrevista. Alice – Revista de Comunicação, Cultura e Política, Coimbra, v. 2, n. 4, p. 1-5, 2020. Disponível em: https://revistaalice.ces.uc.pt/. Acesso em: 2 set. 2025.
    MOURA, Maria da Penha. Vozes insurgentes: som e identidade no cinema negro brasileiro contemporâneo. Revista Eco-Pós, Rio de Janeiro, v. 23, n. 2, p. 45-62, 2020.