Ficha do Proponente
Proponente
- Anastasia Lukovnikova (IFILNOVA (UNL))
Minicurrículo
- Desde 2024, está a desenvolver o projeto de doutoramento dedicado à programação colaborativa de cinema no IFILNOVA (UNL), com financiamento de Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Este projeto estabelece uma ponte entre o seu trabalho académico, a sua trajetória profissional enquanto programadora de cinema no IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema e a sua atuação comunitária na associação MUTIM – Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento e na cooperativa integral Rizoma.
Ficha do Trabalho
Título
- Quem programa o mundo? Por uma ontologia política da programação de cinema
Resumo
- Este artigo desenvolve-se em torno dos quatro eixos — autoridade, legitimidade, acesso e infraestrutura — para examinar como a programação de cinema estrutura quem pode decidir, o que conta como cinema, como se formam os públicos e em que condições materiais os encontros acontecem. Ao propor uma ontologia política da programação, o trabalho busca compreendê-la como uma prática que define quando e de que modo um público pode emergir e, nesse sentido, participa da organização da vida coletiva.
Resumo expandido
- Este trabalho parte de um encontro com o Cineclube Chantal, um cineclube organizado coletivamente que emergiu em Madri no contexto do movimento 15-M. Funcionando em centros sociais ocupados, o projeto se estruturava por meio de assembleias abertas, sessões gratuitas e uma distribuição compartilhada do trabalho. As decisões de programação eram tomadas coletivamente, e cada sessão surgia em resposta às discussões, afetos e urgências produzidos pela anterior. Em vez de seguir um enquadramento curatorial fixo, o programa era inseparável da presença, do tempo passado em conjunto e da negociação contínua de responsabilidades.
Essa experiência desestabiliza os enquadramentos institucionais por meio dos quais a programação cinematográfica costuma ser pensada. Em contextos profissionalizados, a programação é estruturada por hierarquias curatoriais, critérios de financiamento, redes de distribuição e categorias de valor estabilizadas, que tendem a naturalizar a autoridade e a obscurecer as condições em que ela se exerce. Em contraste, o Cineclube Chantal torna essas condições visíveis e passíveis de transformação, não propondo um modelo alternativo a ser replicado, mas expondo a programação como uma prática situada e coletiva.
A partir desse ponto, o trabalho propõe pensar a programação de cinema não como um ato de seleção, mas como uma forma de trabalho que organiza as condições da espectatorialidade coletiva. Desenvolve-se em torno de quatro eixos analíticos — autoridade, legitimidade, acesso e infraestrutura — para examinar como a programação estrutura quem pode decidir, o que conta como cinema, como se formam os públicos e em que condições materiais os encontros acontecem. Essas dimensões não são externas à programação: são produzidas por ela, muitas vezes de forma silenciosa, por meio de decisões que se apresentam como técnicas ou neutras.
Nesse enquadramento, a programação aparece como uma prática de composição de relações entre filmes, corpos, espaços e temporalidades. A espectatorialidade não é entendida como uma categoria pré-existente, mas como algo que se produz por meio de configurações específicas de co-presença. Seguindo Judith Butler, a assembleia é pensada aqui como uma forma frágil e provisória de organização da pluralidade, em que o estar junto não resolve a diferença, mas a sustenta, e em que as próprias condições de aparecer em comum se tornam objeto de disputa.
A partir de práticas marginais e coletivas, este trabalho não busca construir modelos alternativos, mas ampliar o campo de situações por meio das quais a programação pode ser pensada. Como sugere bell hooks, a margem pode operar como um lugar a partir do qual os arranjos dominantes se tornam visíveis como contingentes, e não naturais. Nesse sentido, essas práticas permitem compreender a programação como mais do que uma função cultural: como uma forma de organizar o sensível, redistribuir a atenção e abrir situações em que formas estabelecidas de legitimidade e participação podem ser tensionadas (Jacques Rancière).
Ao propor uma ontologia política da programação de cinema, o trabalho busca nomear a programação como uma prática que faz existir determinadas relações. Se a ontologia interroga o que existe e como se relaciona, uma ontologia política pergunta como essas relações são organizadas, distribuídas. A programação não faz simplesmente o trabalho de mediação entre filmes e públicos; ela compõe as condições em que algo como um público pode emergir. Nesse sentido, participa da organização da vida coletiva em escala situada, colocando a questão de como diferentes formas de comunidade, responsabilidade e experiência compartilhada podem ainda ser construídas no presente.
Bibliografia
- Butler, Judith. Notes Toward a Performative Theory of Assembly. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2015.
hooks, bell. Yearning: Race, Gender, and Cultural Politics. Boston: South End Press, 1990.
Rancière, Jacques. Dissensus: On Politics and Aesthetics. London: Continuum, 2010.
Rancière, Jacques. The Emancipated Spectator. London: Verso, 2009.