Ficha do Proponente
Proponente
- Ingrid Torres Carvalho (UFRN)
Minicurrículo
- Ingrid Torres Carvalho é mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia (PPgEM/UFRN), na linha de Produção de Sentido, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2025). Graduada em Jornalismo também pela UFRN (2023). Desenvolve estudos na área de comunicação, com ênfase em Memória e Cinema.
Coautor
- Carlos Felipe de Oliveira Souza (UFRN)
Ficha do Trabalho
Título
- A fragmentação da memória na “pirraça” de O Agente Secreto
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- O estudo analisa “O Agente Secreto” (2025) sob a tensão entre memórias oficiais (Pollak) e “artefatos de memória” (Lopes), vistos como vestígios ideológicos do passado. Pela análise do “gerenciamento do silêncio” de Pollak, discute-se como a clandestinidade fragmenta a identidade e a memória coletiva (Halbwachs). A obra desafia omissões deliberadas ao validar memórias subterrâneas, expondo o subsolo da história ditatorial.
Resumo expandido
- Em um momento de aclamação do cinema brasileiro no exterior, com indicações e premiações nas principais categorias de grandes eventos, como o Oscar e o Globo de Ouro, a produção cinematográfica ganha outro sentido no território nacional. Entre críticas, colunas, artigos de opinião e resenhas, a cena cultural volta a olhar para a própria história através de filmes como “Ainda Estou Aqui” (2024), de Walter Salles, e “O Agente Secreto” (2025), de Kleber Mendonça Filho. Composto por um cinema de memórias, os filmes fazem uma viagem de volta ao passado, cada um à sua maneira, para representar o período ditatorial de um novo ângulo, desconhecido pela história comum que conhecemos.
Em “O Agente Secreto”, revisitar esse passado traz à tona tensões entre as memórias oficiais e as memórias subterrâneas desse período, com uma autenticidade da produção brasileira. Segundo Michael Pollak, as memórias oficiais são aquelas instituídas pelo Estado, as dos livros didáticos, das datas cívicas, dos documentos e artefatos que residem em museus. Já as memórias subterrâneas são aquelas que sobrevivem nas sombras, às margens da memória oficial (Pollak, 1989). No contexto do filme, onde temos um protagonista perseguido que vive na clandestinidade no Recife do regime militar dos anos 70, a memória não é apenas um registro do passado, ela se torna uma estratégia de sobrevivência.
Em meio ao que pode ser compartilhado ou não, aos segredos apresentados ou escondidos do espectador, a memória se fragmenta tanto no campo individual do personagem principal quanto na história do próprio regime retratado no filme. Ao passo em que a memória coletiva trazida por Halbwachs (2024) não pode ser tecida de forma plena, devido a constante descaracterização da identidade de Marcelo (Wagner Moura), essa fragmentação brinca com o que não conhecemos dessas memórias subterrâneas enquanto acompanhamos o protagonista em um “passeio fragmentado” por esse subsolo da história, em um ambiente cheio de “pirraça”.
Lopes (2002) apresenta o conceito de “artefatos da memória” enquanto construções ideológico-representacionais que, assim como artefatos históricos, simbolizam vestígios de uma época passada. O diretor, Kleber Mendonça Filho, se apossa desses artefatos da memória para trazer à tona o que fora apagado dos livros escolares e documentos oficiais, uma vez que “as omissões e as novas versões modificadas relativas ao passado não são casuais” (Lopes, 2002, p. 7).
Por meio de uma metodologia de análise bibliográfico-crítica, usando os conceitos de “enquadramento da memória”, “gerenciamento do silêncio” e identidade propostos por Michael Pollak (1989; 1992), este trabalho busca então analisar o conflito entre o dizível e o indizível presente em “O Agente Secreto” (2025), buscando entender a fragmentação dessas memórias em duas vertentes: a do protagonista interpretado por Wagner Moura, que precisa fazer um “gerenciamento do silêncio” (Pollak, 1989) para manter sua identidade, ameaçada pelo apagamento de suas memórias. E a da própria história do país no nível diegético, que acontece de uma forma na história oficial, mas ao acompanhar o protagonista, percebemos que se transforma sob o véu da clandestinidade.
Bibliografia
- HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. Tradução de Antonio Fontoura. Curitiba, antoniofontoura (Portuguese Edition), 2024. Edição do Kindle.
LOPES, Luís Carlos. Artefatos de memória e representações nas mídias. Ciberlegenda, n. 7, 2002.
O AGENTE Secreto. Direção: Kleber Mendonça Filho. Produção: CinemaScópio. Recife: CinemaScópio/Pandora Filmes, 2025. 1 filme (aprox. 120 min).
POLLAK, Michael. Memória e Identidade Social. Tradução: Monique Augras. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, nº 10, 1992, p. 200-212.
POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Tradução: Dora Rocha Flaksman. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15.