Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Beatriz Morgado de Queiroz (UnB)

Minicurrículo

    Professora Adjunta do Departamento de Artes Visuais, do Instituto de Artes da Universidade de Brasília, onde leciona as disciplinas videoarte e arte eletrônica. Coordenadora do videoarteclube VIS UnB. Pós-doutora, com bolsa CAPES, e Doutora pelo PPGCOM UFRJ, na linha Tecnologias da Comunicação e Estéticas, com bolsa CNPq. Realizou estágio de doutorado-sanduíche na University of Essex, na Inglaterra, com bolsa FAPERJ.

Coautor

    nathália mello (UFF)

Ficha do Trabalho

Título

    A linguagem nativa de Amanda Baggs: repetição, tempo alongado e relação com os objetos domésticos

Resumo

    Propomos repensar o cinético na cena performativa contemporânea, a partir de André Lepecki, articulando suas contribuições à noção de corpo-tela em Leda Maria Martins e à perspectiva de cinema difrativo, de Julián Gatto. Nossa pesquisa se debruça sobre os vídeos da artista e ativista autista Amanda Mell Baggs, para investigar como pausa, repetição e presença operam como táticas críticas que tensionam a subjetividade moderna e mobilizam leituras políticas das linguagens do vídeo e da dança.

Resumo expandido

    Partindo das reflexões de André Lepecki sobre “esgotar a dança” como sintoma da modernidade – amparado na leitura de “exaurir a modernidade” de Teresa Brennam, este trabalho investiga como, a partir dos anos 2000, a cena performativa passou a incorporar táticas cinéticas que tensionam a lógica do movimento contínuo, da mobilidade incessante e da exposição como emblemas e problemas modernos. Buscamos observar como tais estratégias críticas marcantes na cena performativa contemporânea — como a pausa, a repetição, a queda da verticalidade representacional, a materialidade linguística do corpo e a crítica às estruturas racistas e melancólicas da cena — operam como formas de enfrentamento da subjetividade moderna, por meio de um diálogo entre vídeo e coreografia.

    A partir de obras que não são necessariamente definidas como trabalhos de dança, abrimos as fronteiras disciplinares para pensar o audiovisual não estritamente definido como cinema. Partindo das contribuições de Lepecki – que analisa criações de William Pope L., Vera Mantero, La Ribot, Jérôme Bel e Bruce Nauman, entre outros que trabalham as injúrias enunciadas via subjetividade (r)estritamente moderna -, propomos um deslocamento das fronteiras disciplinares entre dança, performance e vídeo, tomando como objeto as videoperformances da artista, ativista, poeta e autista não verbal Amanda Mell Baggs. Ainda que não se inscrevam diretamente no campo da dança, seus trabalhos mobilizam uma investigação radical do corpo, da linguagem e da relação com o mundo material, permitindo pensar o vídeo como espaço coreográfico expandido.

    Nesse contexto, articulamos a noção de corpo-tela desenvolvida por Leda Maria Martins, que compreende o corpo como território de inscrição temporal, onde passado, presente e futuro são revistos por uma lógica espiralar. Tal perspectiva nos permite compreender o trabalho de Baggs como prática performativa, afetiva e emancipatória, na qual o corpo não apenas representa, mas produz conhecimento e linguagem a partir de outras formas de sensorialidade e relação com o mundo.

    Nossa análise dialoga ainda com a proposta de um cinema difrativo, conforme elaborada por Julián Gatto a partir de Donna Haraway. Em oposição a modelos lineares e representacionais, a perspectiva da difração sugere um modo de leitura atento às distorções, interferências e atravessamentos que constituem os fenômenos. Assim, propomos uma escuta das táticas cinéticas do performativo como chave de leitura para a poética audiovisual de Baggs, compreendendo a repetição, o tempo alongado e a atenção aos objetos como estratégias que desestabilizam regimes normativos de percepção e linguagem.

    O vídeo “In My Language” evidencia essas questões ao tensionar a centralidade da linguagem normativa e ao expor outros modos de relação entre corpo, pensamento e ambiente. Ao deslocar a separação entre movimento e cognição, Baggs propõe uma experiência que desafia parâmetros normativos de comunicação e inteligibilidade.

    Dessa forma, buscamos articular dança, performance e audiovisual/vídeo em uma perspectiva crítica e transdisciplinar, investigando como as táticas cinéticas podem operar como dispositivos estéticos e políticos. Ao privilegiar a pausa, a repetição e a escuta, tais práticas não apenas reconfiguram o campo artístico, mas também abrem espaço para a emergência de subjetividades divergentes e modos outros de existência.

Bibliografia

    BIRRINGER, Johannes. Video Art/Performance: A Border Theory. In Performing Arts Journal 13, no. 3, 1991: 54-84. https://muse.jhu.edu/article/654629

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    GATTO, Julián. Towards A Diffractive Cinema: The Video Works Of Amanda Melissa Baggs (1980–2020), Another Gaze, n.4, 2020.

    GIL, José. Movimento Total: o corpo e a dança. São Paulo: Iluminuras, 2004.

    GOLD, Timothy. “The unhappy performative”. In: Performative and Performance (orgs.) Andrew Parker e Eve Kosofsky Sedwick. Londres e Nova York: Routledge, 1995.

    LEPECKI, André. Exaurir a dança: performance e a política do movimento. São Paulo: Annablume, 2017.
    _____________. Movimento na pausa. São Paulo: n-1 edições, 2020.
    MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó ,2021.

    MIGNOLO, W. The Darker Side of Western Modernity: Global Futures, Decolonial Options. Duke Press, 2011.