Ficha do Proponente
Proponente
- Beatriz Morgado de Queiroz (UnB)
Minicurrículo
- Professora Adjunta do Departamento de Artes Visuais, do Instituto de Artes da Universidade de Brasília, onde leciona as disciplinas videoarte e arte eletrônica. Coordenadora do videoarteclube VIS UnB. Pós-doutora, com bolsa CAPES, e Doutora pelo PPGCOM UFRJ, na linha Tecnologias da Comunicação e Estéticas, com bolsa CNPq. Realizou estágio de doutorado-sanduíche na University of Essex, na Inglaterra, com bolsa FAPERJ.
Coautor
- nathália mello (UFF)
Ficha do Trabalho
Título
- A linguagem nativa de Amanda Baggs: repetição, tempo alongado e relação com os objetos domésticos
Resumo
- Propomos repensar o cinético na cena performativa contemporânea, a partir de André Lepecki, articulando suas contribuições à noção de corpo-tela em Leda Maria Martins e à perspectiva de cinema difrativo, de Julián Gatto. Nossa pesquisa se debruça sobre os vídeos da artista e ativista autista Amanda Mell Baggs, para investigar como pausa, repetição e presença operam como táticas críticas que tensionam a subjetividade moderna e mobilizam leituras políticas das linguagens do vídeo e da dança.
Resumo expandido
- Partindo das reflexões de André Lepecki sobre “esgotar a dança” como sintoma da modernidade – amparado na leitura de “exaurir a modernidade” de Teresa Brennam, este trabalho investiga como, a partir dos anos 2000, a cena performativa passou a incorporar táticas cinéticas que tensionam a lógica do movimento contínuo, da mobilidade incessante e da exposição como emblemas e problemas modernos. Buscamos observar como tais estratégias críticas marcantes na cena performativa contemporânea — como a pausa, a repetição, a queda da verticalidade representacional, a materialidade linguística do corpo e a crítica às estruturas racistas e melancólicas da cena — operam como formas de enfrentamento da subjetividade moderna, por meio de um diálogo entre vídeo e coreografia.
A partir de obras que não são necessariamente definidas como trabalhos de dança, abrimos as fronteiras disciplinares para pensar o audiovisual não estritamente definido como cinema. Partindo das contribuições de Lepecki – que analisa criações de William Pope L., Vera Mantero, La Ribot, Jérôme Bel e Bruce Nauman, entre outros que trabalham as injúrias enunciadas via subjetividade (r)estritamente moderna -, propomos um deslocamento das fronteiras disciplinares entre dança, performance e vídeo, tomando como objeto as videoperformances da artista, ativista, poeta e autista não verbal Amanda Mell Baggs. Ainda que não se inscrevam diretamente no campo da dança, seus trabalhos mobilizam uma investigação radical do corpo, da linguagem e da relação com o mundo material, permitindo pensar o vídeo como espaço coreográfico expandido.
Nesse contexto, articulamos a noção de corpo-tela desenvolvida por Leda Maria Martins, que compreende o corpo como território de inscrição temporal, onde passado, presente e futuro são revistos por uma lógica espiralar. Tal perspectiva nos permite compreender o trabalho de Baggs como prática performativa, afetiva e emancipatória, na qual o corpo não apenas representa, mas produz conhecimento e linguagem a partir de outras formas de sensorialidade e relação com o mundo.
Nossa análise dialoga ainda com a proposta de um cinema difrativo, conforme elaborada por Julián Gatto a partir de Donna Haraway. Em oposição a modelos lineares e representacionais, a perspectiva da difração sugere um modo de leitura atento às distorções, interferências e atravessamentos que constituem os fenômenos. Assim, propomos uma escuta das táticas cinéticas do performativo como chave de leitura para a poética audiovisual de Baggs, compreendendo a repetição, o tempo alongado e a atenção aos objetos como estratégias que desestabilizam regimes normativos de percepção e linguagem.
O vídeo “In My Language” evidencia essas questões ao tensionar a centralidade da linguagem normativa e ao expor outros modos de relação entre corpo, pensamento e ambiente. Ao deslocar a separação entre movimento e cognição, Baggs propõe uma experiência que desafia parâmetros normativos de comunicação e inteligibilidade.
Dessa forma, buscamos articular dança, performance e audiovisual/vídeo em uma perspectiva crítica e transdisciplinar, investigando como as táticas cinéticas podem operar como dispositivos estéticos e políticos. Ao privilegiar a pausa, a repetição e a escuta, tais práticas não apenas reconfiguram o campo artístico, mas também abrem espaço para a emergência de subjetividades divergentes e modos outros de existência.
Bibliografia
- BIRRINGER, Johannes. Video Art/Performance: A Border Theory. In Performing Arts Journal 13, no. 3, 1991: 54-84. https://muse.jhu.edu/article/654629
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GIL, José. Movimento Total: o corpo e a dança. São Paulo: Iluminuras, 2004.
GOLD, Timothy. “The unhappy performative”. In: Performative and Performance (orgs.) Andrew Parker e Eve Kosofsky Sedwick. Londres e Nova York: Routledge, 1995.
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MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó ,2021.
MIGNOLO, W. The Darker Side of Western Modernity: Global Futures, Decolonial Options. Duke Press, 2011.