Ficha do Proponente
Proponente
- Maria Luiza Silva Sena (UFMG)
Minicurrículo
- Mestranda na linha de Pragmáticas da Imagem do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social pela UFMG. Bacharela em Jornalismo, com habilitação em Letras pela mesma universidade. Pesquisa a relação entre imagens e espaços e como essa pode interferir na percepção socidade e sujeito. Integra os grupos de pesquisa Poéticas Femininas, Políticas Feministas (PPGCOM-UFMG/Cnpq) e Poéticas da Experiência (PPGCOM-UFMG).
Ficha do Trabalho
Título
- Antes de mães, mulheres: o cinema e a desnaturalização do amor materno na maternidade compulsória
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- De Camille Billops a Mary Bronstein, o cinema nos oferece um desmonte à idealização da maternidade em Finding Christa (1991), Suzanne Suzanne (1982), Que Horas Ela Volta? (2015) e Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (2025). Da recusa radical de Billops ao sacrifício financeiro em Muylaert, e à claustrofobia psíquica de Bronstein, os filmes revelam personagens que desafiam ou são esmagadas pelo papel de mãe, reivindicando sua autonomia como mulheres.
Resumo expandido
- No cinema mainstream, a figura materna é frequentemente reduzida a arquétipos limitantes, como a mulher abnegada, o amor incondicional e a priorização absoluta dos filhos. Prevalecendo, assim, o esquecimento de que ser mãe é uma das coisas que uma mulher pode querer ser, mas que, quando o faz, ela não deixa de ser um Ser individual. As obras aqui reunidas desmontam essa idealização, cada uma a seu modo, questionando a noção de maternidade como destino biológico, seja pela recusa, pelo sacrifício ou pelo colapso.
Em Finding Christa (1991), a artista Camille Billops revisita sua própria decisão de dar a filha para adoção, ato radical que confronta expectativas sociais sobre o instinto materno. O filme mescla documentário e ficção, criando tensão entre memória e reconstrução, como na cena do reencontro entre mãe e filha. Essa escolha estética revela o caráter performático das relações familiares, questionando a ideia de “verdade” nos arquivos domésticos. Já Suzanne Suzanne (1982) explora a vida da sobrinha da cineasta, cuja relação é marcada por violência e dependência química. Através de imagens de arquivo e voz over reflexiva, Billops desestabiliza narrativas tradicionais.
Enquanto os filmes de Billops ousam romper com o destino materno, a produção brasileira Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert, nos apresenta uma mulher para quem essa ruptura nunca foi uma opção. A personagem Val, empregada doméstica, materializa uma maternidade cindida pela classe social, fisicamente ausente da vida da própria filha, Jéssica, para prover-lhe sustento, ela acaba por exercer a função materna para o filho de sua patroa. Esse deslocamento cria um jogo de culpa e pertencimento.
No extremo oposto desse espectro, Se eu tivesse pernas te chutaria (2025), de Mary Bronstein, radicaliza a experiência de uma mulher que é engolida pela maternidade. Diferente do dilema de Val, Rose, a protagonista, não está ausente, mas sim enclausurada. O filme a acompanha em um pedido de socorro incessante, dirigido ao marido, aos médicos às pessoas ao redor e ao seu terapeuta, enquanto cuida 24 horas por dia de uma filha com necessidades médicas específicas. Ninguém escuta. A genialidade da montagem reside em, até o último momento, não mostrar a criança. A filha é uma metralhadora sonora fantasmagórica, uma voz em off que repete “mãe, mãe, mãe”, que a impede qualquer possibilidade de existência para fora desse papel. O filme constrói uma atmosfera de agonia e punição constante, já que ela é julgada por cada minuto que ousa não se sacrificar, culpabilizada por seus pacientes que até mesmo a ela abandonam um bebê.
A base teórica que sustenta essa análise é o conceito de “maternidade compulsória”, elucidado por Carla Italiano (2024) e ecoado pela historiadora Elisabeth Badinter (1985) em sua desconstrução do mito do amor materno. Italiano articula como as mídias hegemônicas historicamente reforçaram o lugar da mulher confinada ao lar, um “pretenso ideal de respeitabilidade” que Billops subverte ao “assumir a recusa à maternidade como mote” para uma “trajetória de autorrealização como artista”. Como observa bell hooks (2023), Camille “convoca mulheres a não serem tão duras consigo. Se estivermos sempre com medo dos julgamentos, não conseguiremos nunca correr os riscos que nos possibilitam total autorrealização”. Essa perspectiva dialoga diretamente com o desespero mudo de Val e com os gritos socialmente abafados da protagonista de Bronstein, faces distintas de um mesmo sistema que pune qualquer desvio.
Se Billops recusa a maternidade e Muylaert expõe suas fraturas de classe, Bronstein a transforma em um terror psicológico aflitivo. Ao recusar conclusões fáceis, esses quatro filmes oferecem perguntas incômodas: O que significa ser mãe? É possível existir fora desse papel? Quais os limites do sacrifício? São “um legado de ser obrigada a confrontar a imagem” (hooks, 2023), um manifesto pela autonomia feminina.
Bibliografia
- BADINTER, Élisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
BILLOPS, Camille. Camille Billops’ Interview (vídeo). The History Makers Digital Archive, 14 dez. 2006.
COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder – A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008
FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpos e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.
HOOKS, bell. Cinema vivido: raça, classe e sexo nas telas. São Paulo: Editora Elefante, 2023.
ITALIANO, Carla. SOU SUJEITO / ESTOU SUJEITA: Formas de autoinscrição no cinema experimental de mulheres (EUA, 1990-1993)]. UFMG, 2024.
VISINTIN, Carlos Del Negro et al. “Que horas ela volta?”: investigando psicanaliticamente o imaginário coletivo sobre a maternidade. Anais da XIV Jornada Apoiar. São Paulo, 2016.