Ficha do Proponente
Proponente
- Mariana Cruz (UFRJ)
Minicurrículo
- Graduada em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente mestranda em Urbanismo no PROURB/UFRJ e licenciada em Expressão Gráfica na EBA/UFRJ. Pesquisa ambientes urbanos não-citadinos em suas dimensões: geográfica, cultural e política, dedicando-se também a metodologias poético-críticas de investigação. É integrante do laboratório de estudos Urbanos (leU).
Ficha do Trabalho
Título
- Arraial do Cabo: o filme, a cidade.
Mesa
- Cinema e cidade: entre o público, a representação e a produção do espaço
Resumo
- A partir da capacidade de tornar visíveis o tempo e as práticas sociais que nele se inscrevem, o cinema se afirma como meio abundante para pensar a cidade. A cidade, por sua vez, apresenta condições que tornam o filme possível. A formação de imaginários se dá nessa relação de implicação entre cinema e cidade, incidindo sobre a inteligibilidade do espaço e sobre a própria materialidade que o constitui. Nesta apresentação, explora-se como o filme Arraial do Cabo evidencia esse processo.
Resumo expandido
- A emergência do cinema no século XIX se inscreve no mesmo horizonte histórico das intervenções urbanas que consolidam a cidade moderna. As reformas de Haussmann em Paris, iniciadas em 1853, e os primeiros filmes dos irmãos Lumière, em 1895, operam, em escalas distintas, sob um mesmo regime discursivo. Nesse regime, o espaço se estrutura a partir da ideia de progresso associada aos dispositivos construídos e às condições de aceleração do tempo. A cidade se afirma como forma de organização da vida social. O cinema se consolida como linguagem capaz de expressar e produzir essa experiência.
O entrelaçamento entre cinema e cidade pode ser organizado, de forma esquemática, em três eixos. O primeiro é histórico: a emergência do cinema e do urbanismo ocorre de maneira simultânea nas últimas décadas do século XIX na Europa. O segundo diz respeito à condição pública. O cinema se consolida quando a exibição simultânea para um conjunto de espectadores se estabelece. A cidade é organizada a partir de práticas sociais inscritas no espaço construído, onde se realizam encontros e conflitos entre diferentes. Cinema e cidade pressupõem o público. O terceiro eixo é o da representação, a partir do qual este ensaio se desenvolve.
A cidade moderna conformou condições materiais e sociais que tornaram possível o surgimento do cinema enquanto técnica e linguagem. Ao mesmo tempo, o cinema participa da constituição da cidade ao produzir imagens que organizam a percepção do espaço e orientam modos de imaginar. Essa relação de implicação integra processos materiais e imateriais ao atuar na formação de imaginários que incidem sobre a produção do espaço. Cidade e cinema se constituem num mesmo campo de forças, no qual materialidade e representação são indissociáveis (Meneses, 1996).
No contexto brasileiro, essa questão se intensifica. A incorporação do país ao projeto moderno se deu de forma veloz e desigual, produzindo espacialidades marcadas pela imposição do regime técnico-científico-informacional (Santos, 1993). Esse processo gera disputas inscritas na materialidade e na representação. O cinema participa dessa constituição ao agir na formação de imaginários sobre o território. Os filmes do Instituto Nacional de Cinema Educativo, por exemplo, atuaram na construção de uma imagem alinhada ao projeto estatal e de progresso entre 1936 e 1966, enquanto o Cinema Novo expõe tensões das questões situadas não privilegiadas nos anos 1960. O cinema participa da construção de imaginários seja como instrumento de afirmação de uma ideia hegemônica, seja como prática crítica que expõe as contradições. Interessa investigar como o cinema produz imagens que orientam a percepção do espaço e incidem em sua própria formação material.
O filme Arraial do Cabo (1959) é a obra escolhida para esta análise. Ao acompanhar transformações em uma povoação atravessada pela industrialização, o filme se inscreve em um contexto histórico que orienta suas condições de realização e reverberação. Suas imagens são instituídas por esse momento, no qual a modernização é imposta. A montagem organiza a relação entre o cotidiano dos pescadores e a introdução das infraestruturas industriais. Nesse movimento, o filme opera como instância instituidora, evidenciando a disputa. Ao selecionar situações e colocá-las em determinado ritmo, a obra produz uma forma de inteligibilidade sobre o espaço. Como apresenta Pelbart (1998), a percepção é subtrativa, pois retém do mundo o que interessa à ação. O cinema está nessa chave ao organizar o visível a partir de cortes e seleções, participando da constituição de um imaginário que incide sobre sua própria compreensão. A análise fílmica permite reconhecer essa dupla característica: o filme é condicionado por um regime histórico e, ao mesmo tempo, reorganiza a percepção do espaço ao construir relações que não preexistem a ele (Penafria, 2009). Num contexto de crise, o cinema se afirma como dispositivo na abertura de formas de imaginação e construção de mundos.
Bibliografia
- ARRAIAL DO CABO. Direção: Paulo Cesar Saraceni. Brasil, 1960. Filme (16 mm, p&b). Acervo do Arquivo Nacional (Brasil), Rio de Janeiro. Fundo BR RJANRIO GT, código BR RJANRIO GT.0.0.289/1.
MENESES, Ulpiano T. Bezerra De. Morfologia das cidades brasileiras: introdução ao estudo histórico da iconografia urbana. Revista USP, São Paulo, Brasil, n. 30, p. 142–155, 1996.
PENAFRIA, Manuela. Análise de Filmes – conceitos e metodologia(s). In. VI Congresso SOPCOM, 2009.
PELBART, Peter Pál. O tempo não-reconciliado: imagens de tempo em Deleuze. São Paulo: Perspectiva, 1998.
SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. São Paulo: Hucitec, 1993.
XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal; Embrafilme, 1983.