Ficha do Proponente
Proponente
- Diego Paleólogo Assunção (UERJ)
Minicurrículo
- Professor Adjunto da FCS/UERJ; professor e pesquisador do PPGCOM UERJ. Pesquisa nas áreas: vampires, narrativas de terror e horror a partir de perspectivas sexo-políticas; cultura pop, produção de sentido e processos de subjetividades; corpos e espectatorialidades; fotografia, imagem estática e em movimento, hibridismos e monstruosidades; novas tecnologias, efeitos e afetos do neoliberalismo; apocalipses, distopias e fins do mundo.
Ficha do Trabalho
Título
- Ressonâncias carnais – sexualidades gore no horror dos anos 80 e pesadelos políticos contemporâneos
Resumo
- Este é um trabalho em progresso. Parte do entrelaçamento de três corpos estético-políticos: o neoliberalismo, a crise do HIV/AIDS e o cinema de horror.
Este trabalho parte da premissa de que a sobrevivência é uma questão [central].
Este trabalho parte do trauma e se desenvolve nas afecções entre corpo e imagem, nas ressonâncias e colapsos dos tempos, nas reverberações entre um “eu” que se move entre as imagens e existe nos pesadelos políticos contemporâneos. A intimidade cinema/pesadelo.
Resumo expandido
- Este é um trabalho em progresso. Parte do entrelaçamento de três corpos estético-políticos: o neoliberalismo, a crise do HIV/AIDS e o cinema de horror.
Este trabalho parte da premissa de que a sobrevivência é uma questão [central].
Este trabalho parte do trauma.
Durante o processo de escrita do presente trabalho, fui assombrado por um pesadelo terrivelmente vívido; um pesadelo que me fez pensar na radicalidade da experiência do cinema na pele. Inspirado por Vivian Sobchack, Eve Sedgwick, Sara Ahmed, Mariana Baltar, Vinicios Ribeiro, Alessandra Brandão, Ramayana Lira, entre outras, proponho o agenciamento entre os três corpos supracitados e suas ressonâncias e reverberações no presente.
Os anos 80: texturas escorregadias e monstros de pesadelos: de antes do meu nascimento até os meus 4 ou 5 anos.
Contarei a vocês uma história de horror especulativo (a partir de Ursula Leguin): durante uma era obscura e atormentada, criaturas de reinos não/humanos irrompiam de corpos de homens. Em Alien (Ridley Scott, 1979), Kane (John Hurt) é “impregnado” por uma criatura alienígena, dando à luz um monstro fálico, semelhante a um pênis. A cena do nascimento monstruoso também deu à luz a década de oitenta, antecipando as ansiedades daquela década sobre gênero, sexo, sexualidades e contaminações.
Em 1982, três anos depois, O Enigma de Outro Mundo (The Thing, John Carpenter) apresentou uma criatura que duplicava a forma humana e tornava-se monstruosa, abjeta, provocando ambiguidade e desconfiança.
Em 1985, dentro do espaço doméstico de um despretensioso quarto de adolescente, forças queer estão em operação. Jesse Walsh e seu melhor amigo, Ron Grady, encenam uma sequência onde os códigos da intimidade masculina são mobilizados para conduzir um “nascimento” monstruoso.
Fome de Viver (The Hunger, 1983) e Hellraiser (1987) também figuram no rol de filmes sobre sexo e decadência.
A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy (A Nightmare on Elm Street 2: Freddy’s Revenge) tem sido tema de discussões sobre se os subtextos homoeróticos fazem parte do filme ou não. No documentário Scream, Queen! My Nightmare on Elm Street, torna-se claro/explícito que não havia subtextos, apenas textos. Freddy era o monstro dentro de Jesse / a queerness / o gay no armário manifestando-se em expressões violentas. No entanto, Freddy é um pedófilo e assassino de crianças. Em A Hora do Pesadelo 2, Freddy é o produto da imaginação heteronormativa que assombra as possibilidades de um futuro straight (seguindo a linha de Sara Ahmed sobre a orientação normativa). Ser gay na América dos anos 80 significava ser uma ameaça. Seguindo pedagogias visuais, monstros e vilões eram codificados como queers.
Eu nasci em 1980. Cresci em meio a pesadelos discursivos e visuais sobre sexo, onde ser gay = AIDS/HIV e morte.
Os filmes de horror [especificamente A Hora do Pesadelo 2] encapsulam os signos e as sensibilidades da época. Jesse Walsh serve como um conduto involuntário para um monstro [queer] que irrompe de seus sonhos para o mundo real, um processo que culmina em um “nascimento” monstruoso que sublima seu conflito interno (gay, hétero, bi) em gore explícito.
Sexualidade gore. O sexo é um negócio escorregadio e confuso [no cinema]. Corpos secretando fluidos por orifícios / imagens proibidas / transgressão. Sexo e desejo são entidades indisciplinadas, não domesticadas, que sofrem tratamentos rígidos de religiões, governos e discursos sociais e culturais.
Quarenta anos depois, em 2025, quero abordar o que chamo de “pesadelos políticos” e sexualidades queer gore. Através do conceito de “sexualidades gore”, informado pelo trabalho de Sobchack, quero tocar em como os filmes de horror sublimam o sexo gay e seus afetos — intimidades proibidas — na violência explícita de corpos masculinos sendo despedaçados, abertos, com sangue e entranhas expostos.
Bibliografia
- SOBCHACK, Vivian. Carnal Thoughts: Embodiment and Moving Image Culture. Berkeley: University of California Press, 2004.
AHMED, Sara. The Cultural Politics of Emotion. 2. ed. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2014.
LE GUIN, Ursula K. A bolsa da ficção. Tradução de Flora Thomson-DeVeaux. São Paulo: n-1 edições, 2021.
RIBEIRO, Vinicios. PALEÓLOGO, Diego. “Revides infantis”: de quando fomos ao cinema e saímos do armário. Disponível em https://rebeca.socine.org.br/1/article/view/698/416
SEDGWICK, Eve Kosofsky. Epistemology of the Closet. Berkeley: University of California Press, 1990.
HALBERSTAM, J. Skin Shows: Gothic Horror and the Technology of Monsters. Durham: Duke University Press, 1995.
BALTAR, Mariana. Tessituras do excesso: notas iniciais sobre o conceito e suas implicações tomando por base um Procedimento operacional padrão. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, São Paulo, v. 39, n. 38, p. 124-146, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2316-7114.sig.2012.7