Ficha do Proponente
Proponente
- Iris de Andrade Lima Lisboa Junges (USP)
Minicurrículo
- Iris Junges é graduada em Audiovisual na ECA-USP e mestranda em Meios e Processos Audiovisuais pela mesma instituição, com orientação de Luiz Carlos Oliveira Jr. Roteirista e diretora, realizou os filmes “Cão” (2011), “Serra do Mar” (2012) e “Território” (2016) e foi roteirista de diversas séries de ficção para canais de streaming e de longas-metragens de outros diretores.
Ficha do Trabalho
Título
- Ficção, cena e jogo em três filmes do cinema brasileiro contemporâneo
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- O trabalho investiga caminhos da ficção no cinema brasileiro contemporâneo a partir da noção de “laboratório cênico”: obras de equipes reduzidas, atravessadas pelo jogo, que tem grande atenção à cena e que trazem a encenação como tema e objeto. Analisaremos “A Vida São Dois Dias” (2022), “Seus Ossos e Seus Olhos” (2019) e “Sete Anos em Maio” (2019), a partir de documentos e entrevistas dos realizadores, buscando compreender de que forma estes filmes constroem a experiência da ficção.
Resumo expandido
- Vivemos um momento em que a indústria e o mercado do audiovisual em nível mundial reforçam a hegemonia da identificação entre ficção e a engenharia de regras narrativas, centradas no conceito de “storytelling” (DELORME, 2015). A lógica do storytelling se apoia em arcos de transformação individual, progressão causal e unidade de ação. Em oposição a esta tendência, nos interessa observar um conjunto de filmes em que a ficção se constrói a partir de outros modos de feitura e de exercícios da imaginação.
Neste trabalho, proponho investigar alguns caminhos da ficção no cinema brasileiro contemporâneo a partir da noção de “laboratório cênico”. Trata-se de filmes que se constroem a partir de equipes reduzidas e colaboradores recorrentes, com uma elaboração dramatúrgica que os aproxima de práticas de ensaio e experimentação. São atravessados pela noção de jogo, por uma atenção à cena e à mise-en-scène, e muitas vezes trazem a própria matéria da encenação e teatro como assunto e procedimento.
A pesquisa toma como corpus três obras para esta abordagem: “A Vida São Dois Dias” (Leonardo Mouramateus, 2022), “Seus Ossos e Seus Olhos” (Caetano Gotardo, 2019) e “Sete Anos em Maio” (Affonso Uchôa, 2019). Os três são realizadores profícuos na reflexão sobre a feitura das próprias obras e partiremos destas falas, entrevistas e documentos para, em consonância com a Teoria das Cineastas, investigar como esses três filmes são atravessados por esses eixos e constroem a experiência da ficção.
Em “A Vida São Dois Dias”, a ficção se constrói como jogo, em uma dramaturgia que foi sendo construída por etapas e que se baseia em repetição, desvio e comicidade.
Em “Seus Ossos e Seus Olhos”, a forma emerge da repetição de relatos e encontros, articulando palavra e corpo em uma encenação de ritmo e variação.
Em “Sete Anos em Maio”, a obra se organiza através da reencenação, relato e jogo, deslocando o testemunho do individual ao coletivo.
O estudo busca aprofundar-se nestes três filmes e compreender como essas formas se inscrevem historicamente no cinema brasileiro recente, em diálogo com tradições modernas e com o debate crítico sobre teatralidade, encenação e narrativa.
Bibliografia
- BERGALA, Alain. La méthode. Cahiers du cinéma, Paris, n. 351, out. 1984.
CHIARETTI, Maria; ARAÚJO, Mateus. A periferia reimaginada: uma conversa com Affonso Uchôa. Aniki, v. 7, p. 192–211, 2020
DELORME, Stéphane. Comment écrire un scénario? Anti-manuel. Cahiers du cinéma, n. 710, p. 5–29, abr. 2015.
OLIVEIRA JUNIOR, Luiz Carlos. A mise em scène no cinema: do clássico ao cinema de fluxo. Campinas: Papirus, 2013.
GOTARDO, Caetano. Palavra, corpo, tempo e imagem: uma conversa com Caetano Gotardo. [Entrevista concedida a Adriano Garret]. Cine Festivais, 2019. Disponível em: https://cinefestivais.com.br/caetano-gotardo-fala-sobre-seus-ossos-e-seus-olhos/ Acesso em: 2 abr. 2026.
MOURAMATEUS, Leonardo. Da cinefilia à vida: uma conversa com Leonardo Mouramateus. [Entrevista concedida a Luiz Fernando Coutinho, Renan Eduardo e Rubens Fabricio Anzolin]. Revista Descompasso, 2024. Disponível em: https://revistadescompasso.com/entrevista-leonardo-mouramateus-greice/ Acesso em: 2 abr. 2026.