Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Mariana Souto (UnB)

Minicurrículo

    Professora do curso de Audiovisual e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade de Brasília (FAC-UnB). Doutora pelo PPGCOM-UFMG com sanduíche na Universitat Pompeu Fabra (Barcelona) e pós-doutorado na ECA-USP. Autora de Infiltrados e invasores: uma perspectiva comparada sobre relações de classe no cinema brasileiro (Edufba, 2019). Curadora de mostras e festivais. Diretora de arte.

Ficha do Trabalho

Título

    Motivo visual e explosão da cozinha: encenações críticas da domesticidade no audiovisual

Resumo

    Esta pesquisa investiga “estratégias de literalidade” em obras que encenam mulheres no espaço doméstico, destacando a explosão da cozinha como motivo visual recorrente. Associada à divisão sexual do trabalho, a cozinha é palco de gestos insurgentes que tensionam seus significados. A análise articula cinema comparado, estudos de gênero e mise-en-scène para compreender essa crítica à domesticidade. Filmes de Chantal Akerman, Letícia Parente, Martha Rosler, entre outros, serão considerados.

Resumo expandido

    Esta pesquisa parte do interesse no que chamamos de “estratégias de literalidade” nas encenações de mulheres em ambientes domésticos, especialmente em gestos que subvertem usos corriqueiros de espaços e objetos por meio de ações drásticas ou insurgentes. Tais encenações conformam discursos críticos da domesticidade, que em muitos casos mobilizam o humor como recurso expressivo. Esse universo abrange uma variedade de filmes; no entanto, esta comunicação recorta um motivo visual (Souto; Lima, 2025) específico: a explosão da cozinha, recorrência que atravessa imagens de diferentes tempos.

    A cozinha é vista, pela divisão sexual do trabalho historicamente construída, como o espaço da casa reservado às mulheres, área de serviço, lugar privado. Logo, sua explosão poderia significar a recusa à subserviência feminina e ao confinamento doméstico. Seria a explosão da cozinha um motivo visual relevante no cinema, particularmente no de viés feminista? Como ele se constrói e que estratégias levam à conformação dessa imagem intensa? A partir desse estudo de caso, buscamos contribuir para os estudos de motivos visuais dentro do contexto do cinema comparado, articulando-os aos campos dos estudos de gênero, da performance e da análise fílmica.

    O ponto de partida é Saute ma ville (Exploda minha cidade, 1968), primeiro filme de Chantal Akerman – “um Jeanne Dielman descontrolado” (Margulies, 2016, p. 53). No curta, a personagem desempenha ações desajeitadas e subversivas na cozinha: derruba objetos, suja-se, dança – “executa uma limpeza invertida” (Marchiori, 2023, p. 393). Ao final, deita-se sobre o fogão; a imagem congela e ouve-se apenas o som da explosão. A destruição da cidade, que o título menciona, começa na cozinha e parece levar embora a própria personagem, numa forma de suicídio.

    Saute ma ville parece ecoar Mary Jane’s Mishap (O Acidente de Mary Jane, 1903), curta de George Albert Smith interpretado por Laura Bayley. Nessa comédia macabra, a atrapalhada Mary Jane acende o fogão com parafina, gerando uma explosão que a propulsiona num voo chaminé acima. O filme, com foco nas trucagens, mostra Mary Jane desaparecendo em um efeito de fumaça, lançada pelos ares e despedaçada. Quando recebe visitas no cemitério, seu fantasma volta para assombrar as amigas. A explosão da cozinha na verdade é sua própria explosão, levando-a à morte. Mais um gesto de agressividade que se torna, no fim das contas, autodirigido.

    Para além destes, outros filmes poderiam se juntar a essa constelação, como Semiotics of the kitchen (Martha Rosler, 1975), os vídeos de Letícia Parente, especialmente Tarefa I (1982), Sem título (Feijão, Sonia Andrade, 1975) e Eletrodoméstica (Kleber Mendonça Filho, 2005). Estes não explicitam o motivo da explosão, visto nas primeiras obras, no entanto compartilham tanto da energia da insurgência como da ideia de ruptura e pane no universo doméstico.
    Argumentamos que todos esses filmes operam por uma estratégia de literalidade, uma ação concreta sobre um espaço simbólico, atacando diretamente seus significados. “A mulher não pode transformar os códigos; ela apenas pode transgredi-los, complicá-los, provocá-los, subvertê-los, fazer da representação uma armadilha” (Lauretis, 1993, p. 121). Vê-se que a cozinha é lugar recolhido, mas, ao mesmo tempo, é onde fica o material inflamável, o calor que mantém viva a casa. Gás e fogo aquecem e alimentam o lar, mas também têm o poder de destruí-lo. É ali também o lugar dos objetos cortantes e perigosos.

    Ao adotar a cozinha como única ou principal locação, os filmes também constroem, na mise-en-scène, a sensação de confinamento e falta de liberdade tão presentes na vida das mulheres, ao mesmo tempo em que subvertem as normas do feminino por meio de sua exposição em registros não convencionais: “O jogo criado entre evocar o familiar (as normas do feminino), mas o exibir em moldes não convencionais coopera com a desconstrução desse lugar naturalizado” (Marchiori, 2023, p. 399).

Bibliografia

    DUNCAN, P. Exploded views: early cinema and the spectacular logic of the explosion. Screen 59: 4. 2018, p. 401-419.

    LAURETIS, T. “Através do espelho: Mulher, Cinema e Linguagem”. Revista Estudos feministas. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Vol. 01, n 01,
    1993.

    MARCHIORI, N. A crítica a domesticidade nos filmes de Chantal Akerman: Saute ma ville (1968) e Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles (1975). Revista Cientí-fica/FAP, Curitiba, v. 29, n. 2, p. 392–409, 2023.

    RAMOS, P. Casa-criação: problemas espaciais na obra de artistas brasileiras da década de 1970. Arte & Ensaios, Rio de Janeiro, PPGAV-UFRJ, v. 28, n. 44, p. 137-164, jul.-dez. 2022. ISSN-2448-3338.

    SOUTO, M.; AZEVEDO Lima, L. (2025). Constelação fílmica e motivo visual: a piscina vazia no cinema brasileiro contemporâneo. Revista Eco-Pós, v. 28 n. 2, p. 525–550. https://doi.org/10.29146/eco-ps.v28i2.28310.