Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Cláudio Rezende Ribeiro (UFRJ)

Minicurrículo

    Arquiteto e Urbanista (UFMG), Mestre em Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) e Doutor em Urbanismo (PROURB), ambos pela UFRJ. Professor Associado do Departamento de Urbanismo e Meio Ambiente e do Programa de Pós-graduação em Urbanismo (PROURB) da FAU-UFRJ, onde coordena o Laboratório de Direito e Urbanismo (LADU) e o Coletivo de estudos sobre urbanismo e periferia (PERIFAU).

Ficha do Trabalho

Título

    Cinema e cidade: investigações entrelaçadas sobre a morte do público e a sobrevivência do cotidiano.

Mesa

    Cinema e cidade: entre o público, a representação e a produção do espaço

Resumo

    Esta comunicação propõe o entrelaçamento da história da cidade e do cinema para compreender as consequências da tendência geral à privatização, de forma ampla, como morte da coisa pública. A prevalência da individualidade técnica transforma o cotidiano, que é portador da tensão entre repetição e ruptura (Lefebvre, 2019), mas que se torna submetido a uma programação previsível relacionada a uma existência urbana de comportamentos orientados para o teste e para a perfectibilidade (Benjamin, 2018).

Resumo expandido

    Esta comunicação se apropria de um movimento histórico relativo às transformações urbanas industriais como uma ferramenta de interpretação capaz de evidenciar aspectos importantes da trajetória do cinema contemporâneo. A conversão do espaço público em privado como consequência da atuação técnica coordenada pela ideia de progresso (Benjamin, 2018) atinge as cidades, mas também afeta o cinema. A situação contemporânea da sociedade capitalista demanda a crítica das consequências desta tendência entrelaçada que deságua na espetacularização da vida cotidiana.
    Mumford (2001), ao situar a cidade na história, demonstra de maneira hábil como os espaços públicos se constituem a partir de uma conexão entre sua forma e conteúdo. A partir da descrição do uso de fontes de água nas cidades europeias medievais, o historiador estadunidense relata como uma essencialidade vital preencheu aqueles espaços. Muito além da água, era a realização do encontro entre diferentes, no espaço público, o desdobramento que se revela central no uso das fontes.
    A história das transformações urbanas, entretanto, não tem um compromisso necessário com a realização do público. O geógrafo brasileiro Milton Santos (2022) demonstrou como se movimentam as transformações do meio-técnico-científico-informacional, no qual as inovações técnicas e tecnológicas da cidade, entendidos como um sistema de objetos, são concebidos e implementados a partir de um sistema de ação que conforma a finalidade predominante de determinado aparato, como, por exemplo, o encanamento de água (atomizado e privatizante) que substituirá as fontes coletivas. Longe da nostalgia, interessa aqui apontar que as fontes desaparecem, a água permanece (para quem tem acesso a ela), mas os encontros ficaram sem lugar.
    Isto não ocorreu apenas com fontes de água; a urbanização segue uma tendência técnica de individualização de ações outrora coletivas. Este não é um problema menor, e não está circunscrito ao uso da água; a indústria brasileira do automóvel chegou a emplacar um carro a cada nove segundos no país (Ribeiro, 2018). A prevalência da individualidade técnica e tecnológica tem definido um uso privado que declara morte ao público, morte à cidade. O que estaria surgindo em seu lugar?
    Como se comporta o cinema diante desta trajetória técnica privatizante? A tendência tecnológica do progresso individualizou a experiência cinematográfica com a trajetória televisão-videocassete-DVD-streaming-smartphone. A pandemia impulsionou a fragmentação do tempo de projeção no formato seriado e o audiovisual se espetaculariza em velocidade cada vez mais alta velocidade (1,5x ou 2x).
    A substituição dos lugares de projeção por outros usos menos profanos (Marx, 2003) não é um debate recente na história da cidade e do cinema, como bem apresentado, por exemplo, em “Retratos Fantasmas” de Kleber Mendonça Filho (2023). As salas de exibição desaparecem, os filmes permanecem (para quem tem acesso a eles), mas os encontros ficam sem lugar. Este não é um problema menor, por exemplo, a Netflix possui mais de 25 millhões de assinantes no Brasil, e mais de 325 milhões no mundo. O cinema é capaz de resistir à morte do público? E se isto não for mais cinema, o que estaria surgindo em seu lugar?
    Quando a privatização do espaço urbano encontra a individualização da exibição (e da geração) de imagens, estamos diante de uma retroalimentação da espetacularização da vida. O cotidiano, que guarda um ritmo tenso entre repetição e ruptura (Lefebvre, 2019) pode estar tendencialmente submetido a uma programação previsível relacionada a uma existência urbana de comportamentos orientados para o teste e para a perfectibilidade.
    É preciso compreender a essência de derrotas que a coisa pública tem sofrido (Arantes, 1993). O cinema, entrelaçado com a cidade, carrega um forte potencial de resposta ao problema a que ambos têm sido submetidos. É urgente convocar seu uso numa direção a contrapelo para retomada daquilo que é conflituoso, solidário e público.

Bibliografia

    ARANTES, Otília. A ideologia do “lugar público” na arquitetura contemporânea. O lugar da arquitetura, p. 98, 1993.
    BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Porto Alegre: L&PM Editores, 2018.
    LEFEBVRE, Henri. A Revolução Urbana. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2019.
    MARX, Murillo. Nosso chão – do sagrado ao profano. São Paulo: Edusp, 2003.
    MUMFORD, Lewis. A História na Cidade. Suas origens, transformações e expectativas. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2001.
    RIBEIRO, Cláudio Rezende. História, técnica e política: considerações teóricas para um ensino crítico de urbanismo. Revista Políticas Públicas & Cidades, v. 6, n. 1, p. 32-45, 2018.
    SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: EDUSP, 2022.