Ficha do Proponente
Proponente
- Cláudio Rezende Ribeiro (UFRJ)
Minicurrículo
- Arquiteto e Urbanista (UFMG), Mestre em Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) e Doutor em Urbanismo (PROURB), ambos pela UFRJ. Professor Associado do Departamento de Urbanismo e Meio Ambiente e do Programa de Pós-graduação em Urbanismo (PROURB) da FAU-UFRJ, onde coordena o Laboratório de Direito e Urbanismo (LADU) e o Coletivo de estudos sobre urbanismo e periferia (PERIFAU).
Ficha do Trabalho
Título
- Cinema e cidade: investigações entrelaçadas sobre a morte do público e a sobrevivência do cotidiano.
Mesa
- Cinema e cidade: entre o público, a representação e a produção do espaço
Resumo
- Esta comunicação propõe o entrelaçamento da história da cidade e do cinema para compreender as consequências da tendência geral à privatização, de forma ampla, como morte da coisa pública. A prevalência da individualidade técnica transforma o cotidiano, que é portador da tensão entre repetição e ruptura (Lefebvre, 2019), mas que se torna submetido a uma programação previsível relacionada a uma existência urbana de comportamentos orientados para o teste e para a perfectibilidade (Benjamin, 2018).
Resumo expandido
- Esta comunicação se apropria de um movimento histórico relativo às transformações urbanas industriais como uma ferramenta de interpretação capaz de evidenciar aspectos importantes da trajetória do cinema contemporâneo. A conversão do espaço público em privado como consequência da atuação técnica coordenada pela ideia de progresso (Benjamin, 2018) atinge as cidades, mas também afeta o cinema. A situação contemporânea da sociedade capitalista demanda a crítica das consequências desta tendência entrelaçada que deságua na espetacularização da vida cotidiana.
Mumford (2001), ao situar a cidade na história, demonstra de maneira hábil como os espaços públicos se constituem a partir de uma conexão entre sua forma e conteúdo. A partir da descrição do uso de fontes de água nas cidades europeias medievais, o historiador estadunidense relata como uma essencialidade vital preencheu aqueles espaços. Muito além da água, era a realização do encontro entre diferentes, no espaço público, o desdobramento que se revela central no uso das fontes.
A história das transformações urbanas, entretanto, não tem um compromisso necessário com a realização do público. O geógrafo brasileiro Milton Santos (2022) demonstrou como se movimentam as transformações do meio-técnico-científico-informacional, no qual as inovações técnicas e tecnológicas da cidade, entendidos como um sistema de objetos, são concebidos e implementados a partir de um sistema de ação que conforma a finalidade predominante de determinado aparato, como, por exemplo, o encanamento de água (atomizado e privatizante) que substituirá as fontes coletivas. Longe da nostalgia, interessa aqui apontar que as fontes desaparecem, a água permanece (para quem tem acesso a ela), mas os encontros ficaram sem lugar.
Isto não ocorreu apenas com fontes de água; a urbanização segue uma tendência técnica de individualização de ações outrora coletivas. Este não é um problema menor, e não está circunscrito ao uso da água; a indústria brasileira do automóvel chegou a emplacar um carro a cada nove segundos no país (Ribeiro, 2018). A prevalência da individualidade técnica e tecnológica tem definido um uso privado que declara morte ao público, morte à cidade. O que estaria surgindo em seu lugar?
Como se comporta o cinema diante desta trajetória técnica privatizante? A tendência tecnológica do progresso individualizou a experiência cinematográfica com a trajetória televisão-videocassete-DVD-streaming-smartphone. A pandemia impulsionou a fragmentação do tempo de projeção no formato seriado e o audiovisual se espetaculariza em velocidade cada vez mais alta velocidade (1,5x ou 2x).
A substituição dos lugares de projeção por outros usos menos profanos (Marx, 2003) não é um debate recente na história da cidade e do cinema, como bem apresentado, por exemplo, em “Retratos Fantasmas” de Kleber Mendonça Filho (2023). As salas de exibição desaparecem, os filmes permanecem (para quem tem acesso a eles), mas os encontros ficam sem lugar. Este não é um problema menor, por exemplo, a Netflix possui mais de 25 millhões de assinantes no Brasil, e mais de 325 milhões no mundo. O cinema é capaz de resistir à morte do público? E se isto não for mais cinema, o que estaria surgindo em seu lugar?
Quando a privatização do espaço urbano encontra a individualização da exibição (e da geração) de imagens, estamos diante de uma retroalimentação da espetacularização da vida. O cotidiano, que guarda um ritmo tenso entre repetição e ruptura (Lefebvre, 2019) pode estar tendencialmente submetido a uma programação previsível relacionada a uma existência urbana de comportamentos orientados para o teste e para a perfectibilidade.
É preciso compreender a essência de derrotas que a coisa pública tem sofrido (Arantes, 1993). O cinema, entrelaçado com a cidade, carrega um forte potencial de resposta ao problema a que ambos têm sido submetidos. É urgente convocar seu uso numa direção a contrapelo para retomada daquilo que é conflituoso, solidário e público.
Bibliografia
- ARANTES, Otília. A ideologia do “lugar público” na arquitetura contemporânea. O lugar da arquitetura, p. 98, 1993.
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Porto Alegre: L&PM Editores, 2018.
LEFEBVRE, Henri. A Revolução Urbana. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2019.
MARX, Murillo. Nosso chão – do sagrado ao profano. São Paulo: Edusp, 2003.
MUMFORD, Lewis. A História na Cidade. Suas origens, transformações e expectativas. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2001.
RIBEIRO, Cláudio Rezende. História, técnica e política: considerações teóricas para um ensino crítico de urbanismo. Revista Políticas Públicas & Cidades, v. 6, n. 1, p. 32-45, 2018.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: EDUSP, 2022.