Ficha do Proponente
Proponente
- denise tavares da silva (UFF)
Minicurrículo
- Professora e pesquisadora do Departamento de Comunicação Social e do pPG Mídia e Cotidiano da Universidade Federal Fluminense.
Ficha do Trabalho
Título
- Com quem conversam? Natureza Feminina, As poderosas do Cerrado e uma “nova sensibilidade” ambiental
Seminário
- Cinema e audiovisual na América Latina: novas perspectivas epistêmicas, estéticas e geopolíticas
Resumo
- Em meio ao avassalador crescimento dos crimes de feminicídio e ambiental, a produção audiovisual tem buscado contribuir para que um e outro sejam revertidos, como é o caso da série Natureza Feminina (2024). Admitindo que obras assim são fundamentais para a constituição de uma nova sensibilidade em relação à natureza e à igualdade de gênero, fica a questão: com quem elas conversam? Responder essa interrogação envolve, para nós, observar contrapontos perversos como As poderosas do Cerrado (2025).
Resumo expandido
- Nas múltiplas veredas por onde se espraiam hoje as representações e testemunhos das resistências aos assassinatos da vida coletiva (destruição ambiental) e individual (o feminicídio), destacam-se obras que têm buscado dialogar da forma mais ampla possível, apostando em argumentos que reverberam, midiaticamente, quase todos os dias. A proposta, falando genericamente, é apresentar não só produtos expressivos, mas produções audiovisuais que argumentem, informem e sensibilizem quem, no final, é também vítima das mais diversas naturalizações dessas políticas e culturas da morte. Entre tantas propostas, foco aqui na série Natureza Feminina, dirigida por Ana Rieper, que apresenta 13 episódios, com cerca de 26 m. cada um. A série estreou em abril de 2024 no SECS TV e CineBrasil TV e seu eixo narrativo é apresentar os ecossistemas brasileiros através dos cotidianos, sabedorias e reflexões de mulheres locais. O resultado desse investimento compõe um amplo e sensível panorama sobre a riqueza e diversidade ambiental do país e, ao mesmo tempo, destaca a importância da relação com a natureza, quando há um reconhecimento da interdependência da vida. Além disso, a estratégia argumentativa de cada episódio é também enfatizar a exuberância do mundo natural, situação que mobiliza afeto e admiração e que pode, em tese, suscitar engajamento. Entretanto, a essa visão algo otimista, se contrapõe alguns universos. Um deles seria o de reconhecer que estamos em uma sociedade amplamente midiatizada, com alto destaque para a cultura audiovisual em termos de consumo, o que se desdobra em compreender o quanto essas narrativas e imagens são estruturante de nossos imaginários (Didi-Huberman, 2023) e sentidos. Outro, seria não mais ignorar que antes de forma mais latente e agora mais explicitamente, o campo da produção simbólica continua francamente em disputa, partejando reafirmações da cultura da morte – seja da natureza, seja da mulher – sob discursos que se apropriam, inclusive, de caras lutas de resistência (Beltrán, 2019). Nesse enquadramento, focamos nessa comunicação na série Poderosas do Cerrado (2025), produzida pela Rede Globo, maior rede de mídia brasileira e maior conglomerado de Comunicação do Brasil e América Latina. A série, de 10 episódios, é um doc-reality realizado em conjunto pelo canal GNT e pelo streaming Globoplay, e foi lançada em outubro de 2025. Tendo seis mulheres como protagonistas, o programa acompanha a rotina deste sexteto, apresentado como pertencente à alta sociedade de Goiânia, capital de Goiás, cidade considerada um dos “corações” do agronegócio brasileiro. “Elas representam um Cerrado poderoso, moderno e conectado com o mundo, mas sem perder suas raízes. Mais do que acompanhar um cotidiano de riqueza e ostentação, a série traz emoção, humor e dramas reais”, afirmou Patrícia Koslinski, head de Conteúdo de Variedades em Produtos Digitais da Globo ao jornal O Tempo, que tem sede em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Considerando, portanto, esse cenário de opostos, a proposta dessa comunicação, mais do que corroborar o discurso naturalizado do óbvio contraponto político, cultural e social entre as duas posições, tem como objetivo discutir as pistas estéticas e narrativas que ambas produções arregimentam em relação ao público que pretendem atingir. A estratégia visa, em especial, levantar os principais marcadores acionados na argumentação de ambas produções, analisando-os em cotejo às reflexões e propostas do feminismo contemporâneo na AL, bem como ao que apontam Svampa (2019) e Ferreira (2012) em relação ao processo de destruição ambiental do nosso território. Para encerrar, informamos que esse trabalho integra pesquisa mais ampla (“Um percurso imagético e narrativo do protagonismo feminino no ativismo ambiental: marcos, disputas e diálogos midiáticos no contexto da crise climática”), desenvolvida em 2025 como investigação de pós-doutoramento no PPGIS da UFSCAR, sob supervisão de Suzana Reck Miranda.
Bibliografia
- BELTRÁN, Elizabeth Peredo. Ecofeminismo. In SÓLON, Pablo (Org). Alternativas sistêmicas: Bem Viver, decrescimento, comuns, ecofeminismo, direitos da Mãe Terra e desglobalização. São Paulo: Elefante, 2019, p. 113-143.
CARVAJAL, J. P. Uma ruptura epistemológica com o feminismo ocidental. In Hollanda, H.B. Pensamento Feminista Hoje – Perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020, pp 194-204.
COSTA, C. L. Feminismos decoloniais e a política e a ética da tradução. In Hollanda, H.B. Pensamento Feminista Hoje – Perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020, pp 320-341.
FERREIRA, L. C. (2012). A Questão Ambiental – Sustentabilidade e políticas públicas no Brasil. São Paulo: Boitempo.
HOLANDA, Karla. (org). Mulheres de Cinema. Rio de Janeiro: Numa, 2019.
SVAMPA, M. As fronteiras do neoextrativismo na América Latina – Conflitos Socioambientais, giro ecoterritorial e novas dependências. São Paulo: Elefante, 2019.